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Crítica Literária por Miguel Real


A Segunda Morte de Anna Karénina

2013-11-18

Crítica literária a "A Segunda Morte de Anna Karénina" de Ana Cristina Silva, por Miguel Real.

UMA TRAGÉDIA CAMILIANA

 

1. - CONTEXTUALIZAÇÃO

O romance A Segunda Morte de Anna Karénina, de Ana Cristina Silva, afirmar-se-á doravante como um marco na produção romanesca da autora, provocador de profundas alterações no desenho do todo da sua obra, porventura com implicações no seu modo de escrita que apenas o futuro dirá.

Com efeito, após a publicação do romance Cartas Vermelhas (2011), confluência superior da anterior obra da autora, reunindo a inspiração feminista (Mariana. Todas as Cartas, 2002; A Mulher Transparente, 2003; Bela, 2005) e a inspiração histórica (As Fogueiras da Inquisição, 2008; A Dama Negra da Ilha dos Escravos, 2009; Crónica do Rei-Poeta Al'Mutamid, 2010 e, ainda, O Rei do Monte Brasil, 2012), as duas grandes fontes sociais alimentadoras da obra literária de Ana Cristina Silva, A Segunda Morte de Anna Karénina (Natal de 2013) afirma-se como uma revolução, abandonando, em parte, tanto as exigências feministas quanto o relato e o pormenor históricos para concentrar o texto na descrição de uma tragédia romântica ao modo de Camilo Castelo Branco, actualizada hoje, ao nível formal e sentimental, em diversos romances de Mário Cláudio, Vasco Graça Moura e Henrique Levy.

2. - A SEGUNDA MORTE DE ANNE KARÉNINA

Na pág. 218, quase no final, a criada de Violante procede à síntese do romance: "Adorou a peça, na qual havia de tudo: cartas vindas do além [de Rodrigo Borges Castro, oficial português morto por inalação de gás mostarda no teatro de Flandres durante a Primeira Guerra Mundial, cujas últimas cartas chegam a Portugal após a sua morte], amores sublimes [tanto homo como heterossexuais], infidelidade e dupla traição, tentativas de assassinato e abandono de um pobre órfão". Eis, de facto, uma belíssima síntese registada no próprio romance, cujo conteúdo se evidencia, igualmente, como o ensaio de uma peça de teatro entre dois dos maiores actores do princípio do século XX em Portugal: Violante e Luís Henrique.

Espelho de espelho, imagens presumivelmente reais reflectidas em mil e uma imagens ficcionais, o que se apresenta ao leitor em A Segunda Morte de Anna Karénina como romance trágico realista metamorfoseia-se na representação de uma drama romântico, estatuindo a ficção descrita em metaficção, num jogo narrativo em que se cruzam e confundem verdade e falsidade. O que era dado a ver e a ler como romance histórico realista decorrido no princípio do século XX torna-se, ao longo da narrativa, um drama trágico mimético das representações teatrais ultra-românticas que enchiam os palcos dos teatros D. Maria e D. Amélia em Lisboa entre os fins do século XIX e os princípios do seguinte.

Homossexuais, Rodrigo e Eduardo, casados com Ana Matilde e Mariana Amélia, respectivamente, descobrem o verdadeiro amor tocando os seus corpos. Sensível e romântico, Rodrigo, oficial de carreira, oferece-se como voluntário para o Corpo Expedicionário Português, onde encontra a morte, fugindo da vergonha social provocada pela impotência em satisfazer o corpo de Ana Matilde e pelas suas tendências sexuais, descobertas na adolescência no Colégio Militar com o colega Lourenço. Eduardo, empresário, mais velho que Rodrigo, encara a sua homossexualidade de um modo ligeiro, vivendo jogos superficiais e esporádicos com parceiros de ocasião. Ao homossexualismo reprimido, acresce a consciência de Rodrigo, desde os 10 anos de idade, de se saber filho adoptivo. Filho de Violante e de Luís Henrique ou de Duarte, jovem amante de Violante (o texto não esclarece claramente), Rodrigo é doado para adopção a uma família amiga de uma amiga de Violante, separando-se definitivamente dos seus progenitores. A inadaptabilidade social e o culto sublime e hipostático do eu individual, motores da tragédia romântica, são assim desenhados nesta personagem, centro da totalidade do romance-drama de Ana Cristina Silva, cruzamento de realismo no conteúdo (descrição e narração das inúmeras relações sociais) e de romantismo na forma.

Um bom romance de uma autora que, após As Fogueiras da Inquisição e Cartas Vermelhas, cume estético da sua obra, volta a surpreender o leitor com uma diferente (e nova) figuração literária - uma tragédia, a qual, parafraseando o título do romance, não é impossível que se constitua uma "segunda vida" literária de Ana Cristina Silva.

A Segunda Morte de Anna Karénina,

Oficina do Livro, pp. 224, 15,50 euros.

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