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Crítica Literária por Miguel Real


UM DOS MELHORES ROMANCES SOBRE O “DESTINO” DE PORTUGAL

2014-06-19

Professor de Literatura na Universidade da Beira Interior, Gabriel Magalhães é igualmente autor de vários romances: Não Tenhas Medo do Escuro, 2009, Prémio Revelação da Associação Portuguesa de Escritores 2004, Planície de Espelhos, 2010, e aquele que será porventura o seu melhor romance, Madrugada na Tua Alma, 2011, um grosso volume de quase meio milhar de páginas de ficção sobre o “destino” de Portugal. Recentemente, veio a lume Restaurante Canibal, um exercício de humor negro e uma verdadeira paródia sobre a proliferação de livros de e sobre chefs de cozinha e de gastronomia multicultural e internacional.

Não Tenhas Medo do Escuro, seu primeiro romance, narra a morte da professora Edite, da Escola Secundária de Amarante, no Instituto Português de Oncologia do Porto. Neste romance, o estilo realista do autor alia-se a uma visão neo-romântica da cultura poética e da arte como forma privilegiada de dar sentido à vida por via da poesia, mensagem que a professora Edite transmite aos seus alunos. A envolvência psicológica de duas personagens de Amarante, não por acaso terra de Teixeira de Pascoaes de Agustina Bessa-Luís, uma central, João Teixeira, outra episódica, o cangalheiro Serafino Nogueira, será fortemente desenvolvida em Madrugada na Tua Alma, ora com os nomes de Adérito Rocha, velho sábio, e Filipe Cerqueira, igualmente cangalheiro. Outra personagem de relevo extraordinário neste último romance é Lucas Santana, heterónimo vivo de Fernando Pessoa, nascido no dia da morte deste (30/11/35), atravessa o país a recitar poesia nas estações de serviço, nos restaurantes, em plena praça pública

Romance de estrutura simples mas intriga complexa, Madrugada na Tua Alma possui como tema e trama centrais a questão da identidade cultural e histórica de Portugal. De facto, a unidade do romance é conferida tanto pelo seu tema (a identidade de Portugal, tematizada desde a primeira página) quanto pela sua estrutura temporal (o tempo da diegese de cerca de dois meses do ano de 2010, com acrescentos narrativos posteriores do narrador).

Romance cultural, o narrador, com base na existência de um livro secreto sobre Portugal, propõe uma nova interpretação sobre a essência da nacionalidade. Toda a trama do romance se desdobra na busca deste “Livro de Portugal” de origem medieval, busca realizada por Miguel Ângelo Stoecker, a que se juntam, posteriormente, o narrador, Álvaro Peres, médico do Fundão, e o idoso e autodidacta sábio Adérito Rocha.

Alegoria do Portugal de hoje, o romance divide o leque de personagens entre os que, livres, buscam a espiritualidade por que Portugal foi primitiva e originalmente criado e os que se regem pelo mercantilismo do interesse, do negócio e do dinheiro, vivendo para se iluminarem com seu próprio aparente prestígio (como o conjunto de professores universitários presentes no romance Restaurante Canibal, do autor, publicado em 2014, aqui representados pelo professor Joaquim Nunes da Silveira, antigo lente de Direito em Coimbra e antigo ministro de Marcello Caetano), assumido pelos políticos Alcino Pimenta, Subsecretário de Estado da Cultura, que, por ganância e corrupção, vende o original do Cancioneiro de Baena, eminente património cultural português, a Madrid por um milhão de euros, o provinciano e pacóvio engenheiro Firmino de Sousa e Bruno Peixoto que, com a cumplicidade de Alcino Pimenta, vê o seu solar minhoto decadente receber uma benesse do estado de três mil euros mensais para obras de requalificação que o habilitem a concorrer a fundos do Estado ligados ao turismo rural. O desenho estético e a caracterização do professor Joaquim Nunes da Silveira perfazem das mais belas páginas do romance, nomeadamente o circunstancialismo do seu suicídio. De salientar, ainda no desenho das personagens, o retrato da poetisa lésbica Maria Adozinda Carvalhal.

O romance narra a busca do “Caderno do tio Godofredo”, aristocrata ligado à Casa de Bragança que mantinha a pureza espiritual da tradição de Portugal, e do “livro secreto” que conteria a “alma de Portugal (“Portugalma”), cujo conteúdo aqui não revelamos para dar ao leitor o prazer estético da descoberta, livro consultado, não por acaso, mas segundo a continuação de um genuíno projecto cultural português, por Eça de Queirós e Fernando Pessoa.

Céptico no campo da política, desprezando profundamente as actuais elites políticas e administrativas do país, mas optimista no campo da cultura, o autor defende, em Madrugada na Tua Alma, uma teoria da representação do ser de Portugal fundada em duas colunas éticas, compensatoriamente equilibradas entre si: a espiritualidade e a liberdade. Perdida a espiritualidade, as elites portuguesas teriam hoje abastardado a liberdade, utilizando-a a seu favor e para seu proveito.

Não Tenhas Medo do Escuro e Madrugada na Tua Alma constituem-se como romances de estrutura clássica dominados por um estilo realista e um léxico culto, centrados em atmosferas de classe média alta e de aristocracia financeiramente decadente, tendo como objecto de tematização o valor da poesia como sentido elevado de vida (o primeiro romance) e a busca de um livro enigmático que conteria a essência espiritual de Portugal (o segundo romance). Por seu lado, o romance Planície de Espelhos joga com um certo experimentalismo modernista (ambiguidade do estatuto entre autor e narrador; intersecção de tempos; manchas gráficas diferentes no corpo do texto…), bem como com a assunção neo-gótica (aparições sobrenaturais; fantasmas; ambientes de antigos mosteiros, práticas mágicas, uma das quais o autor ressuscitará para escrever Restaurante Canibal) do suspense na densidade do terror no processo narrativo. Espacialmente, decorre entre a Universidade da Beira Interior, na Covilhã, e a Universidade de Évora, explorando, como tema, uma tese de mestrado sobre feitiçaria e bruxaria em A Vida é Sonho, de Valle Inclan.


Madrugada na Tua Alma,

Aletheia Editores, 472 pp., 17 euros.

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