Loading...

Crítica Literária por Miguel Real


A IMPERFEIÇÃO EXISTENCIAL

2014-07-08

João Morgado, autor de Diário dos Infiéis (Oficina do Livro, 2010), publicou em Outubro do ano passado Diário dos Imperfeitos, Prémio Literário Vergílio Ferreira 2012, que ora será adaptado a peça de teatro e representado ainda este ano no Teatro Trindade, em Lisboa.

A publicação de dois romances em forma diário, parece indiciar ter João Morgado encontrado neste género literário a sua casa estética, uma casa difícil de construir com originalidade, que habitualmente fadiga o leitor. Porém, o autor, superando a visão clássica do diário, encontrou novas formas singulares de o realizar. Por um lado, em Diário dos Infiéis, desprendeu-se da numeração dos dias, identificando estes com os monólogos de cada uma das oito personagens, com idades, estados e profissões diferentes, divididas em quatro casais, todos conhecidos entre si. Em Diário dos Imperfeitos, por outro lado, enumera os dias mas não os data, intervalando os dois grandes blocos diarísticos com uma "Segunda Parte" epistolográfica. Do mesmo modo, no romance ora publicado, João Morgado (1) cruza a dupla técnica diarística e epistolográfica com a técnica da ordenação do tempo por via da circularidade (o romance começa na situação problemática em que termina), prestando, no final, um sentido diferente à cronologia, à narração dos acontecimentos e à interpretação da vida das personagens; (2) com a técnica do "romance dentro do romance", explora duas tramas diferentes, unidas no final. Esta última técnica exigiu a criação de um suposto duplo narrador, o narrador do diário e o narrador do romance interno, de que o autor se sai igualmente bem.

Como se constata, sobretudo em Diário dos Imperfeitos, o autor, intuitiva ou trabalhadamente, domina as técnicas de construção do romance e não se concede a si próprio facilidades, tanto explorando-lhe a forma, realizando-a de um modo difícil e delicado mas esteticamente eficaz, quanto no conteúdo, como veremos.

Uma história desdobrada em dupla face, a história de Laura e a subsequente história de Gaivota, no romance apresentadas paralelamente. Todas as personagens parecem ser tocadas por um destino nefasto e incontrolável, que lhes tortura a existência, inicialmente ingénua e bondosa. Na desconformidade e na desarmonia existenciais entre a intenção inicial das personagens e a que deveras cumprem reside a "imperfeição" que dá nome ao romance. Trata-se de narrar histórias de vida, banhadas pelo amor integral (Santiago e Laura; Santiago e Emília) e pelo amor do interesse e da conveniência (Agostinho e Dorinda; o "Inglês" e Emília). Por via da "imperfeição" existencial, o autor une todas as personagens das duas histórias, bem como as peripécias de vida que sofrem, não por uns e outras serem em si defeituosas, incompletas ou irregulares, mas, de outro modo, por se constituírem como espelho da autêntica essência humana, identificando o homem com a sua humanidade, grau intermédio entre a bestialidade e a angelidade. Somos "imperfeitos" porque somos apenas homens, transportando em nós tanto a carnalidade animal do desejo, sobretudo do desejo sexual, que ansiamos por cumprir e esgotar, quanto o desejo excelso de harmonia. Entre um e outro desejo reside a "imperfeição".

Cada uma das personagens mais velhas (Agostinho e Dorinda) arrasta consigo o segredo do pecado original do seu casamento. Dorinda, de tronco grosso e pernas volumosas, cobre-o e silencia-o com a rectidão ética, o pudor do corpo e a virtude nos costumes. Agostinho, com a extrema devoção religiosa. Até à adolescência, as filhas, Maria e Laura, vivem com os pais como os anjos com Deus. Eis que os instintos emergem e se alojam definitivamente no entrepernas, subvertendo a rígida educação familiar. Maria endoidece com o "doutor" Daniel, que a engana e a violenta, Laura com Santiago, que a ama devotamente. A religião paterna condena o amor de Santiago, considerando-o voluptuoso, lascivo, "diabólico", pecaminoso. Mas Agostinho, por interesse financeiro, consente no amor de Daniel, este sim, verdadeiramente libidinoso. Maria engravida, Santiago foge para Lisboa, onde vive com Emília, Laura foge de casa, enlouquece, Dorinda morre, Agostinho fica a viver só com Maria, que lhe adora os "olhos verdes...

Enfim, um genuíno drama camiliano, só deste se diferenciando quanto ao conteúdo da narrativa, pela utilização de uma linguagem urbana actual e pela absolutização da sexualidade. Todas as relações começam e acabam com a ênfase na sexualidade, tanto como desejo angélico quanto como brutalidade carnal, a maioria das vezes, porém, identificado com o maior e mais sensitivo prazer humano. Neste sentido, Diário dos Imperfeitos evidencia-se como um verdadeiro hino ao amor desinteressado (Santiago e Laura), com laivos de algum erotismo.


Diário dos Imperfeitos,

Kreamus Edições, 348 pp, 16, 90 euros

Mais críticas literárias

Voltar

Top 10 de vendas

Novidades

Questão

Qual a secção do Portal da Literatura de que mais gosta?

Livros 43.31 %
Poesia 17.83 %
Também Escrevo 14.65 %
Escritores 11.46 %
Pensamentos 4.46 %
Adivinhas 2.55 %
Editoras 2.55 %
Provérbios 1.91 %
Vídeos 1.27 %

157 voto(s) até ao momento

Para poder votar é necessário estar registado no Portal da Literatura.
Registe-se

Este website contém 2778 autores e 6789 obras.