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Crítica Literária por Miguel Real


UM BOM ROMANCE HISTÓRICO

2014-09-15

Joaquim Fernandes é um autor muito singular na história recente da cultura portuguesa. A sua singularidade prende-se com o universo temático explorado nos seus livros, seja no campo do ensaio, seja no campo da narrativa.

Com efeito, Joaquim Fernandes criou um tema para si próprio, muito raramente explorado pelos estudiosos portugueses: o fantástico, o maravilhoso, o assombroso, ou seja, os produtos culturais do imaginário colectivo e as suas expressões individualizantes, não postuladas como lendas residuais do viver colectivo (posição antropológica e sociológica academicamente dominante desde Joaquim Leite de Vaconcelos e Teófilo Braga) , mas como sorte de coração ontológico deste mesmo viver, espécie de pulsão viva tão verdadeira quanto a narrativa científica.

No campo do ensaio, como académico fundador do Centro de Estudos Transdisciplinares do Estado da Consciência da Universidade Fernando Pessoa, no Porto, destacam-se os seus livros sobre as aparições de Fátima, em conjunto com Fina d’Armada, Intervenções Extraterrestres em Fátima (1982) e As Aparições de Fátima e o Fenómeno OVNI (1995). Do mesmo modo, a sua tese de doutoramento O Imaginário Extraterrestre na Cultura Portuguesa. Séculos XVII – XIX, publicada em 2014 sob o título geral Moradas Celestes, tem correspondência com o seu estudo profundíssimo sobre os mitos e as lendas animadoras dos veios nervosos da cultura portuguesa expressos no seu livro História Prodigiosa de Portugal (2012).

No campo do romance, salienta-se, para além da criação dos guiões da mini-série televisiva A Noite do Fim do Mundo e do documentário O Cometa da República, o seu romance histórico O Cavaleiro da Ilha do Corvo (2011), relativo ao conhecimento dos Açores desde a Antiguidade Clássica.

O romance ora publicado, O Motim das Curandeiras Chinesas, prende-se com o mesmo universo temático desde sempre inquirido pelo autor: o conflito cultural existente entre a ciência e as formas tradicionais de conhecimento, como os mitos, as lendas, as fábulas, as histórias de encantar, a magia, isto é, todo o conjunto de sabedoria popular que, desde o século XVII, o conhecimento científico tem goradamente tentado encurralar na categoria de conhecimento supersticioso, sem fundamento, desprovido do rigor da prova.

Neste sentido, o tema desenvolvido em O Motim das Curandeiras Chinesas obedece à inquirição original e pioneira que Joaquim Fernandes procede no interior da cultura portuguesa e intenta evidenciar, em pleno dealbar da I República (1911), tendo em conta um episódio real, o eterno conflito cultural, ao nível da crença e da convicção, entre o rigor da prova racional, fria, objectiva e logicamente argumentada, e a sugestão hipnótica colectiva, mais fundada no desejo das massas do que na realidade.

O Motim das Curandeiras Chinesas, como romance histórico, obedece às categorias clássicas deste género literário: fidelidade e exactidão na descrição dos acontecimentos relatados, narração verosímil tendo em conta os documentos consultados (neste caso, sobretudo os jornais da época), uma poderosa imaginação para cruzar e unificar o diversíssimo leque de acontecimentos sociais, criação de fortes personagens agregadoras, amplificadoras e sintetizadoras dos acontecimentos, integrados e estruturados estes na unidade de espaço e de tempo.

Não desejamos furtar ao leitor o prazer de descobrir a história narrada, pelo que não a contaremos aqui, neste breve Prefácio, a não ser que narra a história de duas chinesas que, em Lisboa, em 1911, anunciam novos e miraculosos tratamentos das doenças da visão, inclusivamente da possibilidade de cura integral da cegueira.

Em torno deste núcleo temático, centrado no diário do narrador, o jornalista David, controlado pelo chefe de redacção Miranda, desenvolvem-se, concentricamente, diversos círculos narrativos: o pessoal ou íntimo do narrador, hóspede da viúva D. Emília e apaixonado de Lurdinhas; o político, com cerca de uma dúzia de personagens históricas da I República; o médico ou científico, dividido entre a benevolência receptiva a métodos exteriores ao científico e a total recusa destes; o histórico, centrado no conflito entre republicanos e monárquicos; e, finalmente, o social, porventura o mais bem explorado, tanto assente numa investigação histórica rigorosa da sociedade lisboeta e portuguesa do princípio do século XX (toponímia, cafés, refeições, trajes, instituições e partidos políticos…) quanto na descrição dos movimentos colectivos (de antologia o episódio da assédio violento da multidão ao herói da Rotunda Machado Santos).

Dotado de um vocabulário abstractizante, tanto de timbre erudito, reflexo do ambiente pequeno-burguês de redacção de jornal, quanto suficientemente dúctil para dar conta de movimentos sociais de massas e de sentimentos individuais de pânico e desespero, O Motim das Curandeiras Chinesas constitui, indubitavelmente, um bom romance histórico clássico.

Parabéns ao seu autor.


Miguel Real,

Quinta de Santo Expedito, Colares,

20 de Abril de 2014.

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