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Crítica Literária por Miguel Real


A VIAGEM, O ESPÍRITO E A VIDA

2015-01-20

Se Maria Alzira Seixo, Aníbal Pinto de Castro (e outros) teorizaram a Literatura de Viagens, Guilherme d’Oliveira Martins, diferentemente, tem feito desta uma prática contínua e um guia orientador da interpretação da História de Portugal, organizando anualmente no Centro Nacional de Cultura, sob o tema “Os Portugueses ao Encontro da sua História”, uma viagem de autêntica peregrinação aos lugares mais expressivos da nossa História Ultramarina.

O estatuto do novo livro de Guilherme d’Oliveira Martins, Na Senda de Fernão Mendes. Percursos Portugueses no Mundo. Um Livro de Viagens, consiste justamente numa síntese escrita destas viagens anuais (cf. “Prefácio: Portugal me traz peregrinando…”), erigindo a Peregrinação (cuja publicação é comemorada perfaz este ano o 4º centenário), de Fernão Mendes Pinto, como obra maior da Literatura de Viagens.

A Literatura de Viagens consiste num conjunto de obras, reais ou ficcionais, que descrevem e narram espaços geográficos e costumes exóticos ao continente europeu realizadas por missionários, navegadores e mercadores ao longo do período dos Descobrimentos, tendo o seu prolongamento em todos os livros entre os séculos XVII a XIX que intentam realizar o mesmo objectivo, seja em itinerários de exploração geográfica, seja em percursos turísticos.

Neste seu livro, Guilherme d’Oliveira Martins resgata o espírito de Peregrinação no sentido de uma longa viagem a terras longínquas, indo daqui para além, sem assento definitivo, percorrendo os mais insólitos itinerários geograficamente distantes, destituindo o vocábulo, no entanto, de visita a lugar santo, como o fez Fernão Mendes Pinto.

Assim, na Parte I, intitulada “De como se vai pelo mundo em busca de Portugal”, evidenciando que a identidade histórica de Portugal tem sido – também e sobretudo – construída a partir das memórias existenciais e monumentais do antigo Império, o autor relata as viagens feitas à América Latina, ao encontro de bandeirantes, jesuítas e guaranis (as famosas “Trinta Missões” no Paraguai, Argentina e Brasil); a viagem a Goa (“…os avós Indo-Portugueses”), cidade e cultura que fazem “parte de uma identidade, sem complexos nem dramatismos, que apesar da História e das vicissitudes e erros traduz uma ponte civilizacional que pode funcionar…” (p. 35); a viagem entre Cracóvia (Polónia) e S. Petersburgo (Rússia), relembrando a estadia de Damião de Góis em Cracóvia e de Jaime Batalha Reis, Magalhães Lima e António Ribeiro Sanches em Moscovo, visitando os painéis de azulejos de Graça Morais no metro e de imediato partindo para S. Petersburgo, uma “cidade de encanto” (p. 71).

As viagens prosseguem (China, Mascate, Malaca, Bali, Timor, Macau…), os relatos, num estilo que de certo modo paira entre a narração cultural e a descrição histórica, são sempre psicologicamente intensos, esgotando o tempo, vivendo-o no presente mas sempre com os olhos e a consciência postos no passado histórico de Portugal, construindo pontes culturais e criando um futuro aberto de relacionamento amigável entre pessoas, instituições e povos.

A frase do filósofo russo Berdiaeff, constante da p. 71, “a ideia mestra da minha vida é a ideia do homem, do seu rosto, da sua liberdade criadora e da sua predestinação criadora. Mas tratar do homem é já tratar de Deus. Isso é essencial para mim”, pode ser apresentada como sintetizadora tanto da personalidade do autor como do conteúdo dos textos presentes em Na Senda de Fernão Mendes. Percursos Portugueses no Mundo, bem como do espírito que preside à organização das viagens do Centro Nacional de Cultura.

A Parte II do livro, “De Portugal abrange-se o mundo”…”, explora os livros e as vidas de inúmeros autores portugueses (de Saramago a Manuel Teixeira-Gomes, de Ruben A. a Júlio Pomar) segundo o mesmo espírito: uma tentativa de explicação de Portugal (p. 211 ss.) a partir de obras publicadas em Portugal que marcaram a identidade cultural do país.

Com efeito, como se depreende da totalidade do livro, a actualização da Literatura de Viagens levada a cabo através destas “peregrinações” aos vultos culturais e aos lugares exteriores que de certo modo têm definido a identidade histórica de Portugal obedece à tentativa de harmonizar o Espírito das proezas cometidas pelos portugueses nos Descobrimentos com a Vida actual, por um lado modernizando este género literário, que corre o risco de se confundir, hoje, com viagens turísticas de massas, e, por outro, fazendo reviver o passado, recriando este em espírito de conciliação fraterna e de ampla abertura cultural.

União de Espírito e Vida, de História e Existência – eis o grande desígnio que sintetiza Na Senda de Fernão Mendes. Percursos Portugueses no Mundo, evidenciando o percurso humanístico que tem orientado a direcção de Guilherme d’Oliveira Martins no Centro Nacional de Cultura.

Uma surpresa: o autor manifesta um interesse e um conhecimento inusitados sobre Banda Desenhada encerrando o seu livro com uma homenagem a um “português imaginário”: Oliveira da Figueira, um mercador “fura-vidas”, participante das aventuras de Tintin, apresentado como estereótipo do português das sete-partidas do mundo. Do mesmo modo, escolheu para a capa do seu livro a reprodução de uma imagem do absolutamente inolvidável livro Fernão Mendes Pinto e a sua Peregrinação, do grande mestre da Banda Desenhada José Ruy.

Na Senda de Fernão Mendes. Percursos Portugueses no Mundo,

Gradiva, 285 pp., 14,50 euros

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