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Crítica Literária por Miguel Real


PERSONAGENS NOTÁVEIS

2015-02-12

Estruturalmente, desde o seu primeiro livro, O Livro dos Homens sem Luz (2004), João Tordo mantém o mesmo pensamento filosófico, motor último de todos os seus romances: a existência humana, individual e social, é um verdadeiro enigma, não sendo possível o conhecimento cabal da vida de um homem, as suas opções de vida e o húmus colectivo e histórico que o forçou a desenhar esta biografia e não aquela outra. De um ponto de vista conceptual, os seus livros são atravessados pelo dilema Necessidade/Contingência, evidenciando-se este último conceito como superior ao primeiro. Ou, numa linguagem mais coloquial, as personagens dos seus romances são emoldurados pelo irresolúvel conflito entre Destino e Acaso, sendo este último, par conceptual de Contingência, igualmente superior ao Destino ou “Sorte”.

Há assim, nos seus romances, a constatação da existência de labirintos urbanos, autênticos dédalos mentais e sociais que, superiores à vontade individual, inclinam a existência humana para caminhos tortuosos, por vezes perversos, raramente felizes. Quando se olha para trás, detecta-se o exacto momento em que, porque voltámos à direita, a vida se nos enviesou, criando-nos uma biografia sinuosa. Se tivéssemos voltado à esquerda…, mas poderíamos tê-lo feito?, não nos parecia então evidente que devíamos voltar à direita…?, não havia outras possibilidades…?

As notáveis personagens de Biografia Involuntária dos Amantes, romance ora publicado de João Tordo, sofrem desta profundíssima indecisão, equivalente a uma espécie de pecado original de todas elas, uma espécie de angústia existencial heideggeriana a posteriori, que as arrasta para autênticos vórtices psicológicos e metafísicos de desespero por, no passado, obedientes a impulsos incontroláveis, não terem feito as coisas certas nos momentos certos. Teresa teve todas as oportunidades do mundo ao lado de Saldaña Paris, mas uma pulsão irremedíavel arrastava-a para os braços incestuosos do tio Franquelim; Saldaña Paris poderia ter sido feliz como filho de um diplomata inglês no México, mas a poesia e Teresa forçavam-no a escolher os caminhos agrestes; o narrador principal, professor na Universidade de Santiago de Compostela, poderia ter sido feliz com Paula e Andrea, mas a atracção pela solidão, uma visão crítica do mundo e, posteriormente, a assunção dos enigmas de Saldaña Paris empurraram-no para os subterrâneos traumáticos da vida do amigo e de Teresa, forçando-o a descer ao inferno da violência doméstica, do contrabando e da pulhice humana.

Neste sentido, todas as personagens de Biografia Involuntária dos Amantes poderiam ter sido felizes, mesmo Faustino, sindicalista, pai de Teresa, mesmo a mãe e os avôs de Teresa, ainda que de vida sacrificada. Porém, não só não o conseguem como, inclusivamente, só a posteriori sabem que poderiam ter sido felizes, desenhando em cada um a referida angústia existencial. E não podem voltar atrás no tempo. Não podem rectificar o erro cometido, e se o fizessem no tempo presente (como Teresa o faz, casando com Saldaña Paris) apenas reforçariam o erro (por isso, Teresa não consegue deixar de telefonar de Londres para Franquelim), ampliando-o (por isso Teresa se auto-mutila; por isso Saldaña Paris corta o braço pelo punho, arrastando-se para uma morte quase certa, que apenas o narrador salva através da narração da “verdadeira” - verdade possível - história do amigo, a “biografia involuntária” de Saldaña Paris e Teresa). “Involuntária” porque em segunda, terceira e quarta-mãos (narração do pai de Saldaña Paris, da inglesa Antonia, de Stockman – personagem recuperada de O Ano Sabático (2013) -, do próprio Franquelim, ora preso na Penitenciária de Lisboa) e “involuntária” porque foi mais o Acaso e a Contingência que lhes governaram a vida do que a Necessidade e o Destino.

Com excepção do par A. A. Millhouse Pascal e Camila, personagens de As Três Vidas (2008), de qualidade estética semelhante, Teresa, Saldaña Paris, Franquelim e o professor narrador de Biografias Involuntárias dos Amantes constituem um absolutamente inolvidável quarteto de personagens criadas por João Tordo que desafiará durante muito tempo a imaginação dos futuros escritores portugueses. São, assim, verdadeiramente, personagens notáveis, não só cada uma por si, com todos os acontecimentos que lhes sucedem, muitos dos quais “involuntariamente” provocados, mas também porque se assemelham a actores de uma tragédia grega, que tanto mais os arrasta para as profundezas do abismo negro da existência quanto mais eles, resignando-se, o desejam.

Tem razão João Tordo quando confessa a Luís Ricardo Duarte, em entrevista neste mesmo JL, não ser um escritor “realista”, ainda que narre e descreva acontecimentos e situações reais e crie personagens realistas. De facto, a estrutura dos seus romances – e o ora publicado é exemplo por todos – é profundamente metafísica ou alimentada por um quadro conceptual metafísico (onde sobressaem os dois dilemas existenciais acima referidos) a partir do qual a realidade é descrita. Porém, também não é, verdadeiramente, um escritor metafísico, já que, no todo do romance, a realidade se sobrepõe – e muito – aos conceitos enquadradores. Talvez João Tordo seja um escritor existencial (não existencialista), já que esta antiga palavra engloba simultaneamente os aspectos espirituais, sociais e materiais da realidade.

Biografias Involuntárias dos Amantes,

Alfaguara, 415 pp., 16,50 euros.

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