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Crítica Literária por Miguel Real


CRISTÓVÃO DE AGUIAR - O ESTILO DE RAIZ COMOVIDA

2015-04-28

Dos Açores, anunciam-me uma nova reedição dos três volumes de Raiz Comovida, de Cristóvão de Aguiar: A Semente e a Seiva (1978), Vindima de Fogo (1979) e O Fruto e o Sonho (1981). É uma belíssima notícia. A sua publicação estreará a edição da obra completa do autor, revista pelo próprio.

Possuo a edição conjunta de 2003 das Publicações D. Quixote. Vou passando ao de leve estas páginas densíssimas, tocadas pelo que João de Melo designou por “uma experiência linguística sem precedentes”. Três décadas depois, é difícil decidir qual das obras literárias pode ser considerada a mais importante obra romanesca açoriana pós-25 de Abril de 1974, se a trilogia de Raiz Comovida, se o volume singular de Gente Feliz com Lágrimas (1988), de João de Melo. Uma certeza tenho, e tenho-a de um modo apodítico: são duas obras que enfileiram na galeria dos grandes romances da história literária portuguesa do século XX. Não vale a pena forçar uma decisão, a história do romance já decidiu por nós elevando-as, às duas, ao panteão literário português do século XX.

Mas, mais do que o estilo do romance de João de Melo, o estilo de Raiz Comovida sempre me intrigou. Situado entre “uma memória descritiva e uma simbologia da representação” (João de Melo, “O discurso açoriano da infância e dos homens”, in Homenagem a Cristóvão de Aguiar. 40 Anos de Vida Literária – org. de Ana Paula Arnault -, 2005, p. 34), a obra máxima de Cristóvão de Aguiar sintetiza, de certo modo, o longo processo social e linguístico da história cultural açoriana, sobretudo de São Miguel, tendo como temas históricos centrais a ilha, a viagem, a emigração e o embate com o mundo americano. Nada de novo na história literária açoriana, que toda ela, desde o século XIX, se confronta com estes quatro temas.

Porém, a verdadeira prática literária consiste, justamente, em assumir os mesmos temas e recombiná-los de modo diferente, gerando uma nova figuração estética que, cristalizada, se estatuirá como uma outra e nova representação histórica. Deste modo, Raiz Comovida opera e sintetiza, esteticamente, o processo de construção linguística, ao longo de 400 anos, do falar popular das gentes micaelenses, que encontra nesta trilogia a sua condensada representação estética e histórica. É, portanto, mais do que três romances, uma obra para a História, tornando padrão linguístico o que até então fora linguajar popular ilhéu não urbano, não escolarizado e não contaminado pelos padrões linguísticos etimológicos e académicos do Continente.

Que seja um académico a registar e a fixar este padrão reside o milagre da literatura, sobretudo daquela, como Raiz Comovida, que não intenta ser pós-modernista, desconstrucionista ou estruturalista e se “contenta” em rasar a ou a inspirar-se na linguagem popular.

Neste sentido, ainda que utilizando uma linguagem não abstracta nem erudita, a experiência concreta e vivencial (familiar, social, emigratória) que a linguagem especialíssima do romance transmite e sintetiza pode ser sentida e revivida ficcionalmente pelo leitor, que, assim, a ela adere, como aderiu às peculiaridades linguísticas do romance Mau Tempo no Canal (1944), de Vitorino Nemésio. A famosa crítica de Gaspar Simões aos dois primeiros volumes de Raiz Comovida – expressão de um regionalismo açoriano limitado - cai assim por terra. Tanto importa o modo linguístico da escrita quanto a vivência individual e social nele reflectida, e a obra de Cristóvão de Aguiar reflecte, de facto, o longo processo histórico de construção social da vivência dos povos micaelenses, que, com singularidades, não é radicalmente diferente da dos restantes povos. Se Raiz Comovida exprime linguisticamente um linguajar ilhéu, também exprime o modo universal de existência dos povos isolados e empobrecidos, seja nos Açores, seja em Trás-os-Montes, seja na Alsácia.

Penetrar na alma açoriana é, justamente, não se restar nas palavras que a vivificam, mas, apreendendo-lhes o sentido, transcendê-las numa narrativa penhorada pelo leitor como experiência literária universal. Assim, os três volumes de Raiz Comovida penetram no inconsciente histórico, social e linguístico açoriano para se evidenciarem como manifestação existencial dos desejos, angústias, inquietações e esperanças do Homem Universal. Sintetizando a experiência da travessia histórica de um povo, Raiz Comovida sintetiza a experiência histórica da Humanidade da pobreza para a prosperidade, do isolamento para a comunhão universal de relações

Do ponto de vista estilístico, mais do que o conjunto das múltiplas histórias narradas, o fascínio dos três romances consiste no ritmo, na modulação plástica das frases, na combinação sintáctica original (de cariz oral), nas sequências contínuas/descontínuas harmoniosas das frases (do ponto de vista popular), as evocações memorativas como peças labirínticas no seio de um discurso por si próprio igualmente labiríntico, gerando um texto por vezes, inúmeras vezes, paramusical, como uma toada ou uma melopeia popular.

Belíssima notícia, a reedição de Raiz Comovida.

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