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Crítica Literária por Miguel Real


RAQUEL OCHOA - UMA VERDADEIRA PERSONAGEM HUMANISTA

2015-09-18

Raquel Ochoa, prémio revelação Agustina Bessa-Luís em 2009 com A Casa-Comboio, publicou no mês de Junho o romance histórico As Noivas do Sultão.

Sétimo livro de uma obra repartida entre a biografia (Bana. Uma Vida a Cantar Cabo Verde, 2010; D. Maria Adelaide de Bragança. A Infanta Rebelde, 2011), o romance (A Casa-Comboio, 2010 e Mar Humano, 2014) e o relato de histórias de viagem (O Vento dos Outros, 2012), Raquel Ochoa estreia-se no romance histórico com a narração de um acontecimento real, sucedido no tempo da “Viradeira” de D. Maria I, um caso esquecido da Grande História mas relembrada à autora em Rabat por um português: a história de um naufrágio que trouxe à Madeira, depois aos Açores (S. Miguel) e, finalmente, a Lisboa o conjunto de mulheres da família real marroquina do designado imperador Abdessalam e das suas concubinas e criadas, que, por pudor, o Ministro de D. Maria decide designar por “as noivas do sultão” (pp. 215-216).

Face a Mar Humano (história de encontros e desencontros entre um casal de personagens ao longo do regime do Estado Novo, dotado de algum experimentalismo literário a partir da p. 204), o romance ora publicado possui uma qualidade estética superior, recuperando assim a singularidade literária que firmara Raquel Ochoa há seis anos quando publicara a história da família Carcomo de Damão.

Com ligeiras alterações, o estilo presente em A Casa-Comboio mantém-se em As Noivas do Sultão: descrição curta e narração reflexiva do narrador ou das personagens (no caso, de Frei José), intervaladas pelo discurso directo (marca da oralidade social) no horizonte de um cruzamento de tempos culturais diversos. No caso do romance ora publicado, o contraste e o paralelismo entre a cultura islâmica e os hábitos reais marroquinos e a cultura cristã e os hábitos cortesãos ocidentais, sobretudo portugueses. Nos dois romances, a categoria de tempo é tratado através do respeito pela cronologia.

Em ambos os romances, o discurso directo evidencia, igualmente, a representação de traços muito fortes da quotidianidade dos finais do século XVIII: a vida diária num convento franciscano, os hábitos cortesãos da aristocracia portuguesa, sobretudo no interior e nos jardins do Palácio de Queluz, descrito arquitectonicamente com algum pormenor, e no gabinete de um Ministro, bem como dos modos de vestir, comer e conviver segundo a tradição marroquina e a tradição da realeza (rainha D. Maria I, príncipe D. João) e da alta arostocracia (Marquesa de Lumiares, Conde de Ega, D. Aires de Noronha).

A autora soube aplicar (e manipular) muito bem a técnica do suspense através da ligação secreta, sempre enigmática e dificultosa, de uma das concubinas a Frei João, o tradutor-intérprete entre a comitiva marroquina salvada do naufrágio e as autoridades portuguesas. A chave do suspense reside na revelação dos segredos do “Diário”, segredos que o “arrais”, Ahmed Scariage, encarregado de controlar a família real marroquina e a sua comitiva feminina, intenta ocultar, nomeadamente a morte de uma concubina e a aceleração da doença fatal (envenenamento) de outra (Aixa), esta por não corresponder às suas invectivas sexuais. Ahmed alega continuamente que tudo está bem entre as “noivas do sultão”.

Destaca-se da parte da autora a capacidade de narrar ambientes ambíguos e obscuros, claustrofóbicos mas com múltiplos sentidos, dando voz a diferentes personagens, cada uma com um papel, um objectivo e até um destino diferente, todas integradas numa estrutura unitária definidora da acção principal do romance.

É neste sentido que Frei João, a personagem principal, se destaca. Poliglota, de origem síria, vindo para Portugal na juventude, onde labora no pequeno grupo adjutor de frei Manuel do Cenáculo, reformador da Universidade de Coimbra, presidente da Real Mesa Censória, fundador da Biblioteca Nacional, bispo de Beja, em cujo paço episcopal fundou a Academia Eclesiástica e abriu um curso de Humanidades, tendo morrido como arcebispo de Évora. Frei João, com uma longa estadia em Marrocos (p. 153) é uma personalidade criada à medida de frei Manuel do Cenáculo, capaz de harmonizar culturas e civilizações diferentes, tempos históricos diferentes, sensibilidades históricas diferentes, a todas tentando compreender, sem impor a nenhuma um esmagamento brutal, como o “arrais”, que sublinha apenas a excelsidade da cultura marroquina, isolando-a, ou a Marquesa de Lumiares e o Conde de Ega, que se recusam a compreender os costumes árabes e islâmicos.

Por isso, Frei João “não reconhecia assim tanta diferença entre o harém de um sultão e uma cultura [a europeia] que mantinha as mulheres privadas de liberdade, a viver em solidão, fechadas em casa…” (p. 188). A compreensão filosófica da existência e a ambição da construção de uma mentalidade humanística universal, filha de um único Deus, que em cada cultura assume diferentes nome e figurações, ensinara-o a “esperar” (p. 176), a não forçar os acontecimentos, a não impô-los aos outros, e a constatar e a aceitar que “os fracassos são importantes para progredir” (p. 177). Por isso, “frei João de Sousa não tinha alma de aventureiro, mas era um explorador [acicatando a curiosidade humanista]. Não era professor, mas era o único que podia ensinar alguns dos saberes [árabes]. Não era um guerreiro, mas sabia bem a arte de resolver conflitos pela diplomacia da palavra” (p. 171).

Mas a personagem mais bem concebida deste romance, a que mais impressionará o leitor, é, sem dúvida, Edgardo, o lacaio para todo o serviço do Conde de Ega, filho de uma cozinheira da província que este tirou de uma vida de lacaio (p. 130) e que irá desempenhar um papel superior na última parte do livro, prestando-lhe um desenlace originalíssimo, totalmente inesperado. De sensibilidade natural, sem filosofias nem teologias (“o que vai dentro do ser humano é sempre a sua melhor parte”; “sabe, gosto muito de plantas. As árvores, por exemplo, estão sempre a falar e nunca me cansam. Nunca se calam e nunca me cansam. A mulher é a melhor obra de Deus”, p. 187). Mais do que ingénua, Edgardo é uma personagem inocente, natural como os animais (p. 188). Silencioso, imperceptível e subtil quanto necessário, igualmente opinativo e desbocado face à mentalidade dominante quando necessário, Edgardo comporta-se “como aqueles que vivem em paz de espírito, sem susto, nem expectativas negativas sobre os outros”. Belíssima personagem, serena, apaziguadora e tranquila, hoje tão raro no universo do romance português. Ainda por cima, cabe-lhe operar o desenlace do romance, trazendo a falsa morta para a zona de Sintra.


As Noivas do Sultão,

Parsifal, 236 pp. 15 euros.

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