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Crítica Literária por Miguel Real


PAULO BORGES E O SEBASTIANISMO

2013-12-27

A visão de Paulo Borges sobre o sebastianismo, proposta em É a Hora! A Mensagem da Mensagem de Fernando Pessoa, editado este Natal, pode ser considerada filosófica e civilizacionalmente, no âmbito de uma teoria providencialista da história, a mais original e motivadora desde a concepção proposta por António Quadros em 1982/1983, em Poesia e Filosofia do Mito Sebastianista.

Na continuação das suas propostas filosóficas, apresentadas em O Jogo do Mundo. Ensaios sobre Teixeira de Pascoaes e Fernando Pessoa (2008), Da Saudade como Via de Libertação (2008) e Uma Visão Armilar do Mundo. A Vocação Universal de Portugal em Luís de Camões, Padre António Vieira, Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva (2010), Paulo Borges, professor de Filosofia na Faculdade de Letras de Lisboa e dirigente principal do Partido dos Animais e da Natureza (PAN), propõe a criação de um “patriotismo transpatriótico e universal” como projecto ético-espiritual pelo qual se instauraria uma civilização radicalmente diferente da actualmente presente na civilização ocidental. A sua teoria relativa a D. Sebastião e ao sebastianismo entronca justamente nesta nova visão civilizacional e encontra-se sintetizada de um modo perfeito no livro É a Hora! A Mensagem da Mensagem de Fernando Pessoa, ora publicado na Temas e Debates.

Como refere na introdução, “no momento da dramática falência do paradigma europeu-ocidental, o da civilização tecnocientífica, produtivista-consumista, financeira e mediática, globalizada numa escalada inédita da predação do Planeta” (p. 15), a visão pessoana sebastianista e quinto-imperialista oferece-se como uma genuína alternativa civilizacional.

Assim, para Fernando Pessoa de Mensagem, Portugal incarnaria a possibilidade da “mutação do paradigma civilizacional vigente com o cumprimento de uma outra Europa, a que aspira emancipar-se do etnocentrismo obsessivo e abrir-se à alteridade e multiplicidade dos modelos culturais planetários, coligando o Ocidente e o Oriente, o Norte e o Sul, na emergência de uma nova constelação civilizacional, afim ao que se indica como Quinto Império e nós designamos como visão armilar do mundo.” (pp. 16-17.)

Neste sentido, evidenciado pela “loucura” da tentativa de fuga à “Sorte” (poema “D. Sebastião, Rei de Portugal”), D. Sebastião (o seu desejo de purificação do Império, a sua morte) simboliza o momento de transcensão do plano da história para o plano imaterial da “suprema aspiração e realização espiritual humana, predominantemente vista no Ocidente como salvação e no Oriente como libertação” (p. 99). A figura imagética de D. Sebastião expressa a fuga e superação da “Roda da Fortuna” ou do “condicionamento cármico do samsara” (p. 98), superando os quatro impérios europeus (Grécia, Roma, Cristandade, Europa reformista), atingindo um novo “espírito comunitário universalista e de um sincretismo neocivilizacional” (p. 102), um “despertar libertador, mediante uma ressurreição em vida [um novo nascimento] pelo saber/sabor da 'verdade'” (p. 102), designado, em Mensagem, por Quinto Império.

Assim, o sebastianismo, incorporando antigos mitos europeus relativos ao “Encoberto”, propõe a verdade espiritual futurante da possibilidade intrínseca a todo o ser humano da sua plena realização no interior de uma nova civilização não dilemática (oposição sujeito-objecto, Deus-homem, espírito-matéria, luz-trevas, sonho-realidade…), não nacionalista, não etnocêntrica, convivendo harmonicamente com o plano do divino, isto é, com a “luz invisível que torna todas as coisas visíveis […], o ilimitado espaço que é matriz de todas as possibilidades de manifestação e consciência, o fundo sem fundo de todos os fenómenos, o nada inerente ao aparecimento de tudo. Se o corpo físico do rei tomba no campo de batalha, segundo Pessoa é neste divino fundo sem fundo que verdadeiramente cai, imerge e reside, já transfigurado, o D. Sebastião que assim simboliza, incarna e realiza a suma potencialidade de todo o ser humano” (pp. 218 – 219).

Deste modo, el-rei D. Sebastião esperado, “não [é] o rei humano morto ou desaparecido na batalha, ou um seu substituto […], mas o sujeito transfigurado em Deus, dei-ficado, ou seja, iluminado. Desperto e livre, em nada se distingue desse espaço primordial, anterior a todas as coisas e de todas englobante como a matriz que as possibilita, mas que, na experiência mundana e condicionada, apenas se (entre)abre nos inter-valos entre uma coisa e outra” (p. 219). Assim, D. Sebastião figura como o “despertar e libertação espiritual que Fernando Pessoa terá em si vislumbrado e assumido como o regresso mais autêntico do que para si simboliza D. Sebastião e que designa a suprema possibilidade de realização de todo o ser humano. É essa 'verdade' que se identifica com o próprio Quinto Império, o que indica que só o pleno despertar e a pela libertação da consciência podem transcender e integrar o melhor que houve nos quatro tempos do sonho que preside à História do mundo, consubstanciado nas quatro eras histórico-civilizacionais…” (p. 239).

Deste modo, a figura e a acção de D. Sebastião, para Paulo Borges, simbolizam o arquétipo humano de possibilidade de transfiguração do plano humano para um plano intemporal de transcendência de acordo com a criação de uma nova sociedade fraterna e universal, a sociedade do futuro, denominada Quinto Império por Padre António Vieira e Fernando Pessoa.


É a Hora!. A Mensagem da Mensagem de Fernando Pessoa

Ed. Temas e Debates, pp. 363, 16,92 euros.


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