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Raízes - João Cerqueira


Bater nos leitores

2014-03-06

Eu quero bater nos leitores

Quando comecei a pensar no argumento e nas características que A Tragédia de Fidel Castro deveria ter, estabeleci duas bases: tinha de criar uma história original, algo que nunca ninguém tivesse escrito antes e tinha de a escrever com elevada qualidade literária – a melhor de que fosse capaz. Só assim poderia ter alguma possibilidade de me destacar na literatura contemporânea. Repetir o que já fora escrito centenas de vezes, introduzindo pequenas variações para me convencer a mim próprio de que estava a criar uma história original, não seria o meu caminho. Competirei sim com pasteleiros, futebolistas, apresentadores de televisão e concorrentes da casa dos segredos, mas segundo as minhas regras.

Infelizmente, há um preço a pagar para os que tentam criar literary fiction, em vez de história de vampiros, zombies ou conspirações do Vaticano. Um escriba sem talento que habilmente encaixa todas as peças exigidas a uma trama - segundo as regras dos cursos de escrita criativa e dos manuais conformes – poderá conseguir um agente literário e ser publicado numa grande editora. Enquanto um escritor dotado de grande imaginação e domínio da língua poderá nem sequer publicar o seu manuscrito. Como já escrevi noutro texto, os vampiros estão a sugar o sangue da literatura e o zombies apodrecem-na. Quanto a mais uma conspiração no Vaticano, socorro-me das palavras do próprio Jesus Cristo: ‘’perdoai-lhe senhor porque não sabem o que fazem´´.

Por outro lado, após ter escrito a sátira A culpa é destas liberdades! descobri que o humor e a ironia eram os recursos literários que mais naturalmente brotavam da minha identidade. Da mesma maneira que numa conversa essas formas de responder ao interlocutor ou comentar algo me surgiam sem pensar, também os meus textos não escapavam a esse desejo de satirizar o mundo e o comportamento humano. E não é difícil encontrar fonte de inspiração porque ser humano é, em parte, ser ridículo – um simples par de meias basta para arruinar uma reputação.

Recentemente li uma crítica à obra de Shakespeare onde se dizia que, entre outras qualidades, a sua genialidade consiste na passagem súbita da comédia para a tragédia, apanhando desprevenido o leitor. Ora é isso mesmo que eu tento fazer – sobretudo no próximo livro que irei publicar A segunda vinda de Cristo à Terra. Ao longo do livro procuro fazer rir o leitor satirizando a política e a religião – na Tragédia de Fidel Castro imaginei diálogos existencialistas entre Deus e Jesus – para no fim dar um violento murro no estômago do leitor. Confesso: quero bater nos meus leitores, mas primeiro tento fazê-los rir.

Aqueles que dizem que por detrás dos escritores policiais se esconde alguém desejoso de matar gente, ou que os escritores que torturam os seus personagens revelam algum desejo inconsciente de o fazer, ou ainda que se alguns escritores não escrevessem estariam num hospício ou cometeriam barbaridades, são capazes de ter razão. Há um pequeno Marquês de Sade escondido atrás de cada escritor.

Eis o verdadeiro motivo de haver cada vez mais gente que se dedica a esta profissão. Todavia, não são os que escrevem sombras de Grey, sombras de vampiros, sombras de zombies ou sombras de conspirações os mais perigosos. São os outros.

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