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Raízes - Marta Teixeira Pinto


A vida não acaba

2014-04-29

Uma lufada de ar fresco sopra-me os cabelos e acorda-me. Traz um odor a mar e a sol e, por um momento, penso que sou jovem e que estou na praia. Mas não estou. Estou sozinha em casa, deitada na minha cama. E não sou jovem. Pelo contrário, já vivi mais anos do que os meus avós, do que os meus pais e do que os meus irmãos. Vi crescer os meus filhos, os meus netos e as minhas bisnetas. E, no entanto, sinto-te.

Não vejo nada para além da ténue luz do candeeiro de rua que se escoa por entre as frestas das antigas portadas da janela do meu quarto. Não ouço nada para além do tique-taque do velho relógio-despertador que jaz sobre a mesa-de-cabeceira. É noite cerrada e a rua está em silêncio. E, no entanto, o meu coração bate descompassadamente. Como se estivesses aqui. E sinto-te cada vez mais perto.

Não tenho ilusões. Sei o que isto significa. Oriunda da aurora dos tempos, a Grande Ceifeira chega para me levar. Há algum tempo que a espero e, depois de a ter temido e repudiado a vida inteira, agora vejo-a como uma amiga, uma aliada, uma breve companheira que me ajudará a fazer a travessia que me levará para junto de ti. «Dá-me só mais uns momentos», peço-lhe, sorrindo, e ela aquiesce. E sinto-te em cada pensamento da minha mente esvaída.

Fecho os olhos, abandono a vila onde moro há mais de meio século e regresso à minha cidade natal, Évora. Sou criança, estou vestida de branco e piso o palco do Teatro Garcia de Resende. A sala e os camarotes estão cheios e eu participo no espetáculo da escola para o qual fui escolhida, mesmo sem saber cantar. Depois, vejo-me com o vestido de piquet vermelho com o laçarote de organdi branco que uso na viagem que leva o espetáculo a Montemor, a Mora, a Pavia e a Arraiolos. As luzes cegam-me, os aplausos entontecem-me, e estou feliz, tão feliz que parece que toda a minha infância se resume a estes momentos de exultação e empolgamento. Pouco ou nada resta das recordações das durezas dos tempos de guerra, dos racionamentos, do trabalho infantil e de como é difícil pertencer a uma família numerosa e pouco abastada. E sinto-te em cada lembrança da minha memória consumida.

Deixo para trás a infância e entro na adolescência. À noite, sento-me à janela e, à luz do candeeiro de rua, leio os romances da Coleção Azul que troco com as filhas dos vizinhos e que partilho com as minhas irmãs. De manhã, atravesso a Praça do Giraldo e admiro as pessoas bonitas e bem-vestidas que por mim passam, os homens com fato e gravata e as mulheres com vestidos cintados e sapatos de salto alto. E os chapéus! Oh, sim, é a época dos chapéus, e como me fascinam apesar de nunca os usar! Dirijo-me à Arcada de Paris, a casa de costura e moda feminina para a qual trabalho desde os onze anos e… vejo-te. Fato azul-escuro, olhos negros e inteligentes, sorriso torto e sedutor. Lindo, lindo. «Bom dia, menina», saúdas-me, com o chapéu na mão, e os joelhos fraquejam-me. Não sei o que dizer. Não consigo articular uma única palavra. Sorrio, pouco confiante, e cumprimento-te com um ligeiro aceno de cabeça. Fazemos ambos parte das pessoas bonitas e elegantes, mas a teu lado sinto-me desajeitada, atabalhoada e imatura. Até ao momento em que me convidas para dançar numa festa. Nesse instante, enquanto a música toca e me embalas nos teus braços, sei que a adolescência e as suas ilusões já passaram e que o que existe entre nós é para sempre. E sinto-te em cada sopro do meu peito cansado.

De repente, tenho vinte e um anos e uso o vestido de tecido vermelho com rosas brancas. Aquele no qual coloco toda a minha mestria. Aquele com o qual ganho o lugar de representante de Évora no Concurso de Vestidos de Chita. Aquele com o qual piso a passerelle do salão do Palácio de Cristal no Porto. Aquele com o qual me olhas com um misto de amor, orgulho e paixão. A seguir, estou a teu lado no dia do nosso casamento, como que a pairar, numa outra dimensão, num outro mundo, num sonho do qual não quero despertar. E sinto-te em cada batida do meu coração exaurido.

Depois, vejo os nossos filhos, pequenos, lindos, imutáveis: o menino, discreto, com cabelos e olhos negros; e a menina, exuberante, com cabelos louros e olhos castanhos. Vejo a vila onde escolhemos construir as nossas vidas e que é como uma parte de ti: as ruas estreitas e íngremes, as casas brancas e rasteiras, o castelo alto e majestoso. Vejo os piqueniques no campo, as manhãs de pesca na Albufeira, as viagens de barco no Guadiana, e os acampamentos na «nossa» ilha. Vejo a casa onde escolhemos morar e que é como uma parte de mim: as paredes caiadas de branco, as portas e as portadas pintadas de verde, as telhas rubras e reluzentes. Vejo o nosso jardim: observo o voo circular da cegonha de janeiro; cheiro as perfumadas rosas de abril; saboreio as doces laranjas de maio; passeio-me sob a fresca parreira de agosto; e inspiro a fragrante brisa de outubro. Vejo-te sentado à lareira, com uma farinheira a assar no braseiro, enquanto lês e relês os sonetos de Florbela Espanca, a poetisa que é tua conterrânea e tua predileta. Vejo os nossos netos: a menina, que se senta no meu colo e pede, «Conta-me histórias, avozinha»; e os meninos, que te seguem para toda a parte como extensões da tua própria sombra. Vejo o dia em que partes e em que me interrogo como irei sobreviver: à saudade que me dilacera o peito por não poder ter-te; à dor que me entorpece os braços por não poder abraçar-te; às feridas que me rasgam os lábios por não poder beijar-te; ao pranto que me assoma aos olhos por não poder olhar-te… Por fim, vejo as nossas bisnetas: a mais velha, encantadora, a quem dão o meu nome; e a pequenina, que se senta no meu colo e, como a sua mãe, pede, «Conta-me histórias, vovó», enquanto lhe acaricio os cabelos lisos e sedosos e me maravilho com a circularidade perfeita da vida. E sinto-te em cada poro da minha pele enrugada.

Já não tenho medos nem dúvidas. Venci-os ao longo do caminho. Já não tenho arrependimentos nem remorsos. Estou em paz comigo e com os outros. Já não tenho lamentações nem queixumes. Vivi uma vida longa e plena e vou morrer na minha cama, sem doenças e sem achaques, apenas velha, muito velha. «Estou preparada», digo-lhe. «Podes levar-me». E enquanto a Morte me estende a sua mão forte e gentil e me conduz a um lugar onde a luz me cega e onde o rouco som do mar se mistura com os estridentes apelos das gaivotas e com o suave sussurro do vento, apercebo-me que a vida não acaba. E sinto-te em cada fibra do meu ser.

E (milagre dos milagres!) sou novamente jovem. Os meus pés, delicados e velozes, pisam a areia branca e morna com uma firmeza há muito esquecida. O meu corpo, alto e esbelto, enverga o vestido vermelho com rosas brancas com uma postura há muito perdida. As minhas mãos, esguias e suaves, seguram as tiras das sandálias de salto alto com uma agilidade há muito desaparecida. Os meus cabelos, negros e brilhantes, esvoaçam ao sabor da brisa marítima com uma abundância há muito sumida. Rio-me de puro deleite e… vejo-te! E (milagre dos milagres!) és novamente jovem. As ondas bailam a teus pés, o sol dança nos teus cabelos, os teus lábios murmuram o meu nome, e os teus olhos de negra azeitona olham-me com um misto de amor, orgulho e paixão. Tens o fato azul-escuro, as calças arregaçadas, a gravata no bolso, o colarinho desabotoado, os sapatos numa mão e a outra estendida para mim. Lindo, lindo. Os joelhos fraquejam-me, mas os pés não hesitam. Corro. Corro para ti. Corro como nunca corri, leve, feliz, despreocupada, erguendo salpicos de água salgada e fresca à minha volta. E sinto-te, finalmente, de encontro a mim.

Juntos, corremos pela praia de areia alva e mar límpido. Juntos, corremos para os intermináveis prados verdejantes e para as inesgotáveis fontes de água viva. Juntos, corremos banhados pela luz que, como uma segunda pele, procuras em mim e encontro em ti. Juntos, corremos para além do pranto, das feridas, da dor, e da saudade. Tudo o que era antes já passou e agora resta-nos uma eternidade de amor. «A vida não acaba, sabes?», comento, enquanto corremos lado a lado. «Não, não acaba», respondes, apertando-me a mão na tua. «Apenas se transforma». E sinto-te em cada centelha da minha alma.

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