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Raízes - Ana Cristina Silva


Líamos o mesmo livro em inglês

2014-05-22

Líamos o mesmo livro em inglês, senão nunca teríamos trocado quaisquer palavras, nem mesmo as mais banais. E estávamos ambos nas primeiras páginas. Foi decerto a maneira como fixei a capa e o título – “The warrior queen” - que terá feito com que ele me devolvesse o olhar. As primeiras palavras que me dirigiu da sua mesa da esplanada, mesmo ao lado da minha, foram tão notáveis quanto inesperadas. Apontando o livro na minha direcção, disse, também em inglês: “ A ficção tem a faculdade de nos mostrar aquilo que não conhecemos e o que não se dá, permitindo-nos até imaginar os sentimentos de um morto que tivesse sido obrigado a voltar. Como esta personagem…E, no entanto, no dia a dia toda a gente faz por sacudir de si os mortos, sobretudo os que morreram numa guerra sem sentido. De seguida calou-se. Baixou os cantos da boca, talvez indeciso se deveria continuar. Então sorriu pela primeira vez. Foi o vislumbre de algo atraente, reprimido naquele homem, libertado na imagem de um sorriso triste, realçados por um bigode tão preto quanto os olhos, que me fez aproximar. Pedi-lhe para me sentar na sua mesa.

Em encontros casuais, as pessoas dizem umas às outras o que fazem, mas depois de um discurso tão estranho para inicio de conversa, hesitei. Além isso, era óbvio que aquele mulato era estrangeiro. Do que estava por dizer sobre aquele homem, do que nele estava contido começava a emergir uma grande palavra parecida com “destino”. Senti-o, estranhamente. As palavras sairam-me horrorosas, como que mostrando interesse, quando lhe perguntei de onde ele vinha. Pareceu-me que ele tinha tomado fôlego para pensar como responder, mas ele levou apenas a mão à cabeça antes de indicar, no seu inglês perfeito, o seu país.

Era um país de que quase não se tinha ouvido falar. Um daqueles países africanos que tinha sido dividido pelo fim dos poderes coloniais, e cuja troca de presidente era frequente. Um desses países em que não era possivel distinguir a religião da política ou a etnia de uma qualquer forma de perseguição e que os motivos para as pessoas fugirem de lá eram inevitavelmente a guerra e a pobreza. Quis perguntar se lá as coisas eram mesmo más, mas uma espécie de pudor impediu-me. Até porque no fundo não saberia do que estava a falar.

Ele, com seu fato de bom corte, não parecia pobre e eu tinha perdido o hábito de, com facilidade, arrancar a história do meu interlocutor. Disse-me, sem que eu tivesse perguntado, que tinha feito uma licenciatura em filosofia numa Universidade de lá, acrescentado que não havia esperança no seu país, aquele lugar era um inferno só. Aliás, acrescentou, nem lhe podia chamar o seu país, pois tinham-no entregado aos ricos que o governavam em proveito próprio. Depois pediu desculpa por tão repentina exaltação e despediu-se. Enquanto que o vi afastar-se no sentido do Rossio, pensei que nunca mais o veria.

Tive pena de o ver desaparecer sem lhe ter sequer perguntado o nome. Se eu fosse a mulher de outros tempos, teria alongado a conversa e saído dali com os dados completos daquele homem. Mas desde que estava desempregada, sentia que fora perdendo capacidades e que estava encurralada, por assim dizer, num beco sem saída. Fiquei ali sozinha durante um longo tempo, sentindo o sol de fim de tarde como a razão de uma certa melancolia louca.

As estatisticas incluíam-me num grupo de risco. Trinta e cinco anos, jornalista a recibos verdes desde que saíra da faculdade, fazendo parte naturalmente do desemprego jovem. Estávamos em crise há alguns anos e a imprensa em papel perdia leitores todos os dias. Não era uma jornalista poderosa, pois era a responsável da secção cultural de um jornal de média tiragem e, por isso, uma das primeiras pessoas a dispensar. Havia estagiários que trablhavam de borla e faziam o mesmo que eu, afirmou o director quando me despediu. Os economistas não me viam a mim, mas ao grupo que fazia parte e, eu, como toda a gente, aliás, deveria aceitar que eles sabiam do que falavam. Se me dispussesse a acreditar que uma determinada confluências de acontecimentos dava origem a uma crise – e eu não acreditava – teria de acreditar que havia um processo transcendente em marcha que me impedia de arranjar emprego. O futuro erguia-se diante de mim, mas era uma espécie de sombra inamovível como uma árvore com todas as raizes ocultas na escuridão.

Perdera o trabalho há um ano e o subsídio de desemprego estava a terminar. Ficaria completamente dependente da minha mãe com quem ainda vivia. Para me consolar, ela dizia-me que o desemprego se increvia nos dias de hoje no ritmo normal dos acontecimentos. A reforma dela de bibliotecária dava bem para vivermos as duas. Eu achava que há dez anos tinha ultrapassado o limite, era a altura de ter passado a linha fatídica para me tornar a dulta, mas nunca tivera dinheiro suficiente para sair de casa da minha mãe.

Nos primeiros tempos acordava cedo e levantava-me repentinamente convencida de que tinha de ir trabalhar. Quando, por fim, no final da segunda e atormentada semana me convenci de fora despedida começou a descida para o abismo. Quando me refiro ao abismo, estou a falar da distância entre a mulher que antes fazia tanta coisa e a memória dos meus dias vazios, precisando de conseguir juntar num todo, numa pessoa completa, quem fora e em quem me tornara. Eu não estava a ser capaz de apreender o facto essencial de que apesar de não ter emprego continuava a ser alguém. A angústia, essa constante e incessante angústia, deixava-me terrivelmente cansada e eu não sabia como descansar porque todas as semanas recebia uma carta de rejeição de um emprego a que me candidatara. Sentia-me como uma daquelas grandes folhas de figueira, semelhantes a garras ressequidas, que impelidas pelas rajadas de vento, vão arranhando o passeio numa imprevísivel viagem. Era Primavera, o sol brilhava, mas de mim o que via eram folhas caducas e remoinhos de poeira nas sarjetas, enfrentando um vento amargo que prenunciava um eterno Inverno.

Às vezes parece existir um secreto organizador de acontecimentos que, à primeira vista, se poderiam pensar serem acidentais. No dia seguinte fui ao mesmo café do dia anterior porque a minha mãe me pediu para fazer um recado na zona do Rossio. Ele estava lá. Neste segundo encontro houve um primeiro espaço de reserva. Estavamos em zonas opostas da esplanada da véspera. Reparei que lia o mesmo livro com uma concentração intensa como se estivesse a testar o sentido da ficcção. Eu também tinha trazido o livro que repousava em cima da mesa. Estava voltado com as páginas para baixo por ter chegado a uma frase que parece ter sido escrita para mim: “Decidi combater porque não o fazer era deixar-me morrer antes de tempo”. Virei o olhar noutra direcção quando ele se levantou e veio ter comigo. Só quando estava perto, ergui o queixo e franzi os olhos para dar entender que o reconhecia. Pediu para se sentar na minha mesa, virou o livro e afirmou no seu inglês perfeito: “Vamos na mesma página, Sofia”. Tive uma surpresa ou melhor quase apanhei um susto por ele me tratar pelo nome, coisa que eu não sabia que ele sabia. Mas ele apontou para a primeira página do livro onde estava a minha assinatura.

Perante esta coincidência pareceu natural que ele se sentasse como se fôssemos velhos conhecidos. Mandou pedir um outro café e, enquanto esperava, fez-me a mais louca das propostas: encontrarmo-nos todos dias daquela semana para falarmos de cada um dos capítulos do livro. Aliás, uma das melhores maneiras de dois estranhos travarem conhecimento era falarem sobre livros. E prosseguiu, como se quisesse demonstrar que a humanidade estava contida nos romances e que para a sua natureza vil não havia escapatória. Não havia mais nada a esperar dos homens do que as maiores vilezas, traições, crueldades e massacres que se cometiam em todos os lugares e séculos sem necessidade de exemplos prévios nem de modelos a imitar. Se não me sentisse atraída por aquele jovem mulato teria ficado assustada com o seu cinismo. Não que ele tivesse chegado a dizer, mas era fácil de deduzir que para ele não havia muitas excepções aos patifes e os poucos seres cândidos que existiam, se-lo-iam por falta de imaginação ou audácia.

É necessário neste ponto que mencione um tema antigo e misterioso: a paixão. Achamos interessantes certas pessoas, outras divertem-nos ou encantam-nos, algumas poucas tornam-se imprescindíveis porque nos habituamos a tê-las na nossa vida e a força do hábito é imensa, podendo até suplantar o amor. Tudo isso tem de ser distinguido dessa estranha sensação de sermos invadidos pela figura de alguém que mal conhecemos, sentindo por ela uma verdadeira fraqueza que nos impede de ser objectivo em relação aos seus inevitáveis defeitos. O mundo inteiro cede àquele impreciso desejo que devora misteriosamente as outras vontades.

Terá sido nesse instante que me deixei colonizar por ele, numa altura em que nem sequer sabia o seu nome. Olhava-lhe para os lábios enquanto ele discorria sobre os romances, fixava a sua boca e deixava-me embalar pelas palavras, não era capaz e desviar os olhos de onde elas haviam saido, como se mais importante do que ele dizia fosse aquela boca beijável. Não perdia nenhuma das suas palavras, no entanto, das pancadas da boca, saía também um grito que ecoava dentro da minha carne e me fazia desejá-lo.

Eu, como qualquer mulher, quando me sentia atraída e, ainda por cima, estando no principio e o enamoramento ser também uma revelação, seria capaz de me interessar por qualquer assunto de que ele falasse. Até as coisas aborrecidas se poderiam tornar interessantes e não se tratava de fingir para agradar, mas porque facilmente nos deixamos contagiar por o que quer que seja que ele sinta e pense. E sobre o quê é que ele falava? Retrodeceu em relação ao anterior cepticismo, mas continuou a dissertar sobre livros. Dizia ele que dentro deles existia toda a gente, arremedos de pessoas que nunca chegámos a conhecer, outras que passaram ao largo da nossa vida, outras ainda que desapareceram sem deixar rasto ou de que só nos lembramos da poeirada dos pés desaparecendo no horizonte.. Nos livros cabiam multidões e se procurássemos bem até eu e ele podiamos estar no meio das personagens. Aí se edificavam os maiores amores, aconteciam as piores traições e vislumbravam-se todas as formas de causalidade que os mais incautos tomavam por destino. Era esta proveniência de nós todos, ainda mais num livro, como o que ambos líamos, que contava uma história com mais de quatrocentos anos.

Perante a eloquência do discurso só podia concordar em encontrar-me com ele no dia seguinte. Depois perguntei-lhe o nome. “Gorge é o nome que vem no passaporte, mas que não me pertence realmente”

Neste ponto, a voz dele baixou, embora estivéssemos sozinhos naquela zona da esplanada e ninguém nos pudesse ouvir. Afinal de contas estava hesitante, no fundo não me conhecia, mas o desejo de confiar em mim foi mais forte: “Entrei em Portugal com um passaporte falso”. Não me atrevi a perguntar mais nada. A última coisa que desejava era assustá-lo com novas perguntas, espantá-lo antes da hora, afugentá-lo. Além disso, ele próprio parecia espantado com a revelação que acabara de fazer.

A figura de George, muito direita, magra e tensa, estaria certamente desenraizada do ambiente em que o imaginava oriundo: árvores frondosas, casas baixas de terracota, vendedoras de panos coloridos e de produtos exóticos. Perguntei-lhe o nome da cidade de onde vinha. Disse-me que a sua terra era uma cidade africana como centenas de outras cidades: edificicios coloniais misturados com prédios não muito altos, barracas de chapa. Não havia grande coisa para ver e era muito seca- muito pó no ar, poeirenta. Havia também um irmão e uma cunhada, irmãs mais novas e pais. Depois olhou-me como se de repente se tivesse lembrado que se afastara definitivamente da familia tal como ela subsitia em África. “Se pudesse traria a minha mãe para cá, mas só a minha mãe”. A seguir a ter dito aquilo, despediu-se abruptamente. Mas, no último momento, já um pouco afastado, voltou a cabeça na minha direcção e disse: “Amanhã às cinco da tarde, neste mesmo local”.

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