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Raízes - Lídia Jorge


A Revolução de Abril, 40 anos

2014-06-11

Instituto de História Contemporânea
Da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
Da Universidade Nova de Lisboa

Congresso 25 de Abril, a Revolução de Abril 1974-75

Salão Nobre do Teatro Dona Maria - 11.15-13 horas

Moderação, Maria Emília Brederode Santos, com António Mega Ferreira, José Mariano Gago, Lídia Jorge e Rui Vieira Nery


QUARENTA ANOS VOLVIDOS

Reconstituição de uma intervenção na mesa redonda sobre

Cultura, Educação e Ciência


Escreveu o canadiano Northroph Frye que “O impulso poético e o revolucionário são interdependentes”. Na sua intocabilidade aforística, esta afirmação aplica-se por inteiro ao que aconteceu a Portugal a partir de 1974, em todos os campos, designadamente naquele que é o sistema circulatória mais profundo das sociedades, o domínio invisível da Cultura, da Educação e da Ciência. Entre nós, essa interdependência não poderia ser mais estreita. A revolução portuguesa foi desejada pela poesia, por ela foi antevista e ante escrita, anunciada até nos seus exatos termos como profecia, e passados quarenta anos, para os seus intérpretes e contemporâneos, esse momento de exceção, como tem sido dito de todas as maneiras, mantém intacto o impulso transfigurador que lhe deu origem.

No entanto, junto dos portugueses mais jovens, a ideia de que houve um momento que constituiu um rasgão no tempo, um impulso revolucionário que foi sobretudo um impulso contra o DESTINO cultural do país, carece de ser explicado. Para um jovem de vinte anos, nascido na década de noventa, filho da cultura televisiva, mas que frequentou uma escola já servida pela lei de Bases do Sistema Educativo de 1986, e como tal, leu alguns livros guiado por um professor, que já encontrou em casa uma estante com uma pequena rima deles, que foi aconselhado a lê-los pelos próprios pais, e pelo menos na adolescência terá lido algum do fim ao principio como recreio, o regozijo daqueles que falam desse rasgão no tempo, deve tornar-se pelo menos estranho, se não incompreensível. Um jovem português de hoje, de vinte anos, sempre foi livre de se exprimir e encontrou os meios adequados. Para além dos livros, que leu ou não leu, cedo teve internet, três canais de televisão, cem canais por cabo. Assistiu a mega concertos rock e pop. Fala o inglês suficiente para se deslocar e fazer entender entre estranhos, não fez serviço militar, e se quis e tene os meios, cedo viajou livremente pela Europa, levando alguns euros nos bolsos.

Aliás, não assistiu às discussões sobre a entrada do país na CE, nem se confrontou com os pequenos grandes fantasmas dos nacionalismos latentes. Para os jovens de hoje, felizmente, desde sempre nas suas vidas, a democracia e a liberdade foram os seus campos naturais. Mas é, precisamente, para que se entenda como foi ganho e como se pode perder os benefícios culturais de que dispomos em democracia e liberdade, que devemos ter presente o local cultural obscuro de onde proveio a esmagadora maioria da população portuguesa, e lembrar o esforço, e a longa paciência, que foi necessário inaugurar e manter para se chegar até onde hoje nos encontramos. Lembrar sobretudo que também neste campo nada está conquistado em definitivo. Aliás, contar os pobres sempre foi mais fácil do que contar os analfabetos. E como se sabe, o analfabetismo é um estado de alma mais profundo do que a função de não saber ler.

Regressando ao 25 de Abril e à sua proposta de mudança no domínio sobretudo da Cultura, a minha ideia é de que a nível da produção artística e cultural nos vários sectores, após setenta e quatro, não houve significativos sinais de rotura, para além da chegada dos novos intérpretes e novas temáticas trazidas pelo fim da Guerra Colonial, a Liberdade e a memória livre, enfim, de se expressar sobre o que fora, até aí, a ditadura, a repressão e o exílio. Referindo ainda o campo que me é mais próximo, por exemplo, ao escrever sobre a nova geração de narradores que então surgiam no pós vinte cinco de Abril, Eduardo Lourenço intitulava um dos artigos sobre a nova geração de ficcionistas como “Os filhos de Álvaro de Campos”. Breve exemplo, só para dizer que no mundo da criação, propriamente dita, o círculo de antes da revolução se mantinha, alargando-se, libertando-se, criando novos figurinos, e alcançando novos horizontes, mas numa linha de continuidade renovada.

E mantinha-se praticamente o mesmo público restrito. Público restrito, mas atento, exigente, cultivado, que não estava isolado daquilo que se passava nos grandes centros de Cultura da Europa. Naturalmente que a abertura ao mundo, a partir de 1974, iria iniciar uma nova dimensão que nunca mais parou de crescer, mas a grande alteração iria dar-se, isso sim, na tentativa por vezes desesperada de alfabetizar culturalmente larguíssimos sectores da sociedade portuguesa que nunca haviam lido um livro, nunca haviam entrado numa sala de teatro ou de cinema, não folheavam jornais nem ouviam rádio ou viam televisão, que não fosse para assistirem a uma partida de futebol no domingo à tarde, ou para se divertirem com os filmes com Vasco Santana e Beatriz Costa. Reconstituir o que foi a longa e demorada luta dos poderes públicos e privados para que se invertesse essa situação, com um esforço feito em várias frentes a nível do Estado democrático, será sempre uma tarefa árdua. Mas houve resultados.

Para falar do campo da leitura, aquele a que por contiguidade fui estando mais atenta, enumero a criação da rede de Bibliotecas Públicas iniciada em 1988, equipamento que consegue hoje em dia cobrir particamente todo o país, a partir da coordenação do então Instituto Português do Livro. Simultaneamente, assistiu-se à multiplicação das Feiras do Livro, à criação das Comunidades de Leitores, grupos avulsos de leitura, a multiplicação de livrarias, a que se juntaram os novos conceitos de vendas de livros em grande armazém como as FNAC e os supermercados, e novos meios de aquisição à distância, o que no seu conjunto prefigura a maior tentativa de difusão do livro junto do leitor comum desde sempre. Para não falar das novas bibliotecas escolares criadas na década de noventa, destinadas à utilização diária e contínua, em oposição à antiga biblioteca dos liceus onde os livros se mantinham carregados de naftalina, separados das mãos dos estudantes por firmes redes de metal amarelo. A que se deve acrescentar a acção do Plano Nacional de Leitura, criado em 2006, um benéfico instrumento de difusão do livro junto das crianças e dos jovens do nosso país.

Esforço que as editoras portuguesas acompanharam, como se sabe. Aliás, numa população tradicionalmente renitente aos livros, é de assinalar o facto de em 2008, a APEL ter inventariado a publicação de 19.000 livros publicados por ano, o que significa 356 novos livros por semana – mau grado o desequilíbrio e a disfunção editorial que semelhantes números encobrem - o que revela que o livro surge, hoje em dia, como um instrumento de cultura de relevo no Portugal democrático. Os próprios jornais em papel, em queda continuada de vendas, recorreram à publicação de livros, depois de numa primeira fase terem oferecido pratos e talheres. Os livros e a poesia passaram a ser marcas fortes junto dos portugueses e alguns escritores desaparecidos transformaram-se ao longo das últimas décadas, em ícones internacionais, embora nenhum como o caso extraordinário de Pessoa. É preciso também ter presente que a atribuição do Prémio Nobel a José Saramago em 1998, fundou uma espécie de imagem de prestígio que teve importância na forma como entre nós, se passou a olhar para o sector do livro e da leitura. Poder-se-á dizer que, no nosso mundo culturalmente tão débil e vulnerável, Saramago constituiu-se como uma referência de reconhecimento internacional que, até aí, só por via do futebol tinha chegado aos portugueses, e essa imagem passou a exercer forte influência na consideração da população portuguesa pelos livros e seus autores. Do ponto de vista simbólico, Saramago é a grande aquisição, o herói cultural no imaginário português da era democrática . Para outro país poderia ser irrelevante, para nós, não. O Nobel deu, inclusive, uma espécie de consistência ao espaço linguístico que une os diversos países da CPLP. Aliás, em sentido inverso, vários nomes de autores, oriundos dos diferentes países de Língua Portuguesa encontram entre nós uma aceitação assinalável, e nesse intercâmbio das várias modulações do português que, como língua de cultura, não se desagregou com o fim das guerras coloniais, e o delicado fim do Império, mas se cruzam e vivificam, se encontra uma dos melhores triunfos contemporâneos da nossa democracia, embora nem sempre de nossa autoria.

Mas estes dados de um percurso assim enunciado em síntese, foi muito ou foi pouco? Até que ponto penetraram na população e transformaram uma população analfabeta à altura da revolução, em cerca de setenta por cento, numa população letrada, que estima o livro e através dele exercita as capacidades mais densas e finas do pensamento? Espaço de exercício da liberdade crítica e criadora?

Não o sei responder.

Os últimos tempos, cruzando, por exemplo, o surpreendente número de livros publicados e as escolhas televisivas cada vez mais deprimentes que a população portuguesa faz, e que vem ao arrepio de tudo o que julgávamos inimaginável há uns anos, não encontro resposta para esta questão. Alguma coisa entre nós não bate certo. Ou os fundamentos antigos, os da ditadura antiga, não foram erradicados, antes sobreviveram e voltam a manifestar-se em forna de recidiva, ou nós não nos sabemos acautelar em face de uma nova cultura, sob o impacto de um novo fenómeno que encontra entre nós um campo friável. Também para esta questão não encontro resposta, apenas algum desgosto. E não tem a ver com a crise, tem a ver com opções cruzadas dos multiplicadores de cultura e da população em geral.

Aliás, nos últimos dias, pelas razões que se conhecem, a memória das palavras de Gabriel García Márques escritas na sequência da visita que fez a Portugal em pleno PREC, sobre nós, pressentindo que nos encaminhávamos na direção da integração da Europa, incomodam muito. Como todos sabem, escreveu o escritor colombiano, no já longínquo 1975 – “Portugal está condenado a sentar-se de sapatos rotos e casaco remendado na mesa dos mais ricos do mundo”. Todo este tempo volvido, e no estado em que nos encontramos, as palavras de Garcia Márques soam-nos agora de forma sibilina.

Mas o que eu pergunto é se aquele estado de pobreza de que falava o Gabo, era de facto a pobreza do concreto, ou se ele se referiria ao espírito. Ao municiamento cultural do espírito. A da Cultura, da Educação e da Ciência. A minha ideia é que existe de facto hoje em dia uma despromoção imposta de fora, tão intensa numa área de onde tanto nos custou a sair de um estado de indigência, que receio que aí se regesse rapidamente, agora por meios outros, à solta, no meio da infinita profusão da nova cultura electrónica que está criando um novo mundo. Não queria que assim fosse. Passados quarenta anos sobre uma Revolução que prometeu fortalecer os bens imateriais e criativos de todo um povo, ficaria feliz se soubesse que estamos mais entre aqueles que liderarão o futuro do que entre aqueles que irão recebê-lo de outros, feito sem uma palavra dita ou escrita em português. Não estou bem a par do que se passa no domínio da Educação e Ciência, senão o que ouço aqui e ali, e leio nos jornais. Trata-se de áreas do conhecimento formal e informal que só recentemente acederam a patamares de credibilização nacional e irradiação internacional importantes. O desinvestimento e a desestruturação em nome de poupanças por vezes escassas, põem em risco sectores vitais da nossa sobrevivência como cultura singular e autónoma. Não precisamos, pois, de usar o impulso revolucionário parente do poético de que falava há pouco, basta usar o simples bom senso, para dizermos que é preciso retomar, de novo, o sentido do início. Continuar a investir no campo que produz, por excelência, o progresso e a autonomia intelectual de um povo. E por conseguinte, o seu sentido mais fundo de independência e honra.

 

LJ.

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