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Raízes - Ana Margarida de Carvalho


Dantes de ouro

2014-07-07

Se ao menos pudéssemos voltar à época dos tesouros. Se ainda os pudéssemos caçar, a esgaravatar com as unhas imundas, a terra cinzenta, coberta por cascas de pinhões espirrados pelos pinheiros-mansos, quando lhes dava o vento (deve ser assim que os pinheiros se constipam, vê-se pela aflição nos galhos). E os pinheiros são árvores que queriam ser cactos e não se resignaram e teimaram até fazerem das folhas picos. Mas a mansidão está-lhes na seiva e então lançam cá para baixo pepitas, esmagadas com inclemência e uma pedra de calcário. E a gente a vasculhar entre caruma seca, com as mãos também imundas, à procura dos tesouros. Se ainda pudéssemos arrastar os joelhos pelo chão cinzento, empestado de gordura e beatas, e migalhas e outros líquidos inquinados do fim da tarde, que vertiam das grades de cerveja empilhadas (na altura o vasilhame era só de vidro, as latas não deviam ter sido inventadas). Se as avós, nessas esplanadas de verão, nos fizessem reparos, quando nos desinteressávamos da tosta mista e do leite com chocolate da ucal, e nos escapulíamos para baixo das mesas dos vizinhos, sempre em busca dos tesouros, que não sujássemos os fatos de banho e não mascarrássemos as caras, as avós também desinteressadas de nós, na conversa com as amigas sobre mises e modistas e a nova inquilina do toldo do lado, que tinha uma marido muito mais novo do que ela, que «vai-se-a-ver» nem marido era. E nos enxotavam, que fôssemos antes brincar no mini-golfe, decrépito, despojos de um ex-mini-golfe e que um pauzinho e uma pinha dos benevolentes pinheiros (mansos) serviam muito bem de bola e de taco. Se ao menos pudéssemos voltar à época dos tesouros, mendigá-los de joelhos, esgueirarmo-nos por entre as mesas e cadeiras, estar ao nível dos pés das senhoras com as unhas pintadas de rosa prateado. E fitar o empregado, de baixo para cima, com olhos de súplica, a tentar ver para onde ele lançava a próxima carica com o saca-rolhas, que trazia preso à cintura, espécie de coldre de revólver de cowboy. E ele, desdenhoso, de frente para nós como nos duelos, suspendia o gesto e lançava o tesouro para longe, para o meio da caruma e da terra suja, como se faz aos cães, quando se quer que eles se vão alimentar longe. E nós precipitávamos, e lutávamos por aquele tesouro, ainda brilhante, e com um bocadinho de sorte, e da perícia do cowboy das caricas, ainda pouco amolgado e a cheirar a sumol ananás. Ah, se ao menos voltássemos à época dos tesouros. E tivéssemos sabido quanta felicidade podia conter uma carica.

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