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Raízes - Marta Teixeira Pinto


O Bosque

2014-07-17

Era primavera e o campo palpitava de vida e encanto. As árvores passavam a correr, num lampejo de verdes-vivos e castanhos-suaves, à medida que o carro avançava e o Sol lançava os seus raios matinais dourados e intensos sobre a paisagem. Sentada atrás, com a cabeça apoiada numa das janelas, devia ter sentido que estava prestes a acontecer algo que permaneceria na minha memória para sempre. Com o rosto colado à outra janela traseira, também ele perdido nos seus pensamentos e alheio à conversa dos nossos pais, estava o meu irmão.

O nosso pai conduziu incessantemente até meio da manhã, altura em que avistou um miradouro e nos perguntou se queríamos parar para ver a vista e exercitar as pernas. Passado um momento, observávamos o bosque que se estendia para lá das barreiras de proteção do miradouro semicircular, sentindo a brisa fresca e deliciosa no rosto. Olhei para a direita e reparei num trilho que serpenteava pela pequena encosta até um prado soalheiro, um lugar encantador onde o ondear da erva verde-esmeralda, a melodia dos pássaros e o bailado das borboletas eram um convite à exploração. Fiz sinal ao meu irmão e disse aos nossos pais que íamos descer até ao prado. Assim que os nossos pés tocaram no trilho de terra seca começámos a correr, rindo, gracejando e desafiando-nos mutuamente para ver quem chegava primeiro.

Estávamos a meio do caminho descendente quando ouvimos a voz assustada do nosso pai chamar os nossos nomes. Parámos onde estávamos e ficámos à escuta.

- Mariana! André! – chamou ele.

O meu sorriso esmoreceu quando olhei para os enormes olhos azuis do meu irmão e percebi que ele também se apercebera do pânico na voz do nosso pai. Nenhum de nós falou, mas peguei na mão de André e comecei a subir o trilho, arrastando-o atrás de mim. Apesar da nossa ligeira diferença de idade e do facto de, com apenas treze anos, ele ser muito mais alto do que eu, eu era a mais velha e sempre me sentira responsável por ele.

- Estamos a caminho! – gritei de volta, mas o som da minha voz desvaneceu-se assim que abandonou os meus lábios.

Passados alguns segundos, o céu tornou-se escuro e pesado como chumbo. Subimos o mais depressa que pudemos, mas o monte parecia ter duplicado de altura. A voz do nosso pai já não se ouvia, e muito menos os carros na autoestrada. Os únicos sons que se ouviam eram os dos nossos passos frenéticos sobre o pó do caminho e os das nossas respirações ofegantes sobre o ar estagnado.

Quando chegámos ao cimo do monte, não havia parque de estacionamento nem miradouro à vista, não havia mãe nem pai à nossa espera. Em vez disso, vimos uma longa avenida de enormes carvalhos, os seus troncos escuros erguendo-se acima do solo como gigantes e os espaços entre eles amplos e repletos de sombras. Sem trocarmos uma palavra, voltámos para trás e tentámos reencontrar o caminho de regresso ao local de onde viéramos, um trilho lateral que nos tivesse escapado, uma curva que não tivéssemos visto. Quando esta estratégia falhou, tentámos encontrar o prado mas sem sucesso. Encontrámos apenas carvalhos, vidoeiros, ulmeiros, fetos, sarças e espinheiros, estendendo-se interminavelmente de ambos os lados dos caminhos, forrando o solo para lá dos trilhos e formando um dossel de folhagem que obscurecia o Sol e gelava o ar.

Corremos de trilho em trilho, tendo a sensação que voltávamos sempre ao mesmo lugar. Corremos de mão dada, com medo de nos separamos um do outro e de não nos voltarmos a encontrar. Corremos até as nossas pernas doerem, os nossos pulmões arquejarem e sermos obrigados a parar. Larguei a mão do meu irmão e vi-o afundar-se no solo, puxar os joelhos para cima e rodeá-los com os braços, num gesto de auto conforto. Não sabíamos há quanto tempo nos perdêramos e já desistíramos de chamar pelos nossos pais. Na quietude sobrenatural do bosque misterioso, o silêncio era interrompido apenas pelo ocasional roçagar das copas das árvores quando uma brisa rara passava por entre a sua folhagem densa e escura. Tinha de admitir para comigo que sentia o pânico trepar-me pelos membros com uma rapidez galopante. Estava cansada, tinha fome e sede, e estava à beira das lágrimas. Imaginava que André se sentisse da mesma maneira.

Então, quando me preparava para encorajar o meu irmão a levantar-se para podermos retomar as nossas buscas infrutíferas, ouvi uma voz estranha, de uma beleza comovente e avassaladora, falar-me ao ouvido.

- Ficai. Descansai – murmurou, com uma suavidade infinda. – Tudo irá correr bem.

Estremeci de sobressalto e olhei apressadamente em meu redor. O que vi foram fiapos de uma bruma sinistra a enroscarem-se nos troncos das árvores e a cobrirem o solo atapetado do bosque. Para além do véu de brumas, figures altas e encapuçadas, não propriamente humanas, deslizavam por entre as árvores de ambos os lados do trilho. Por um breve momento, voltaram-se para mim e pude contemplar os seus rostos oblongos, pálidos e arrebatadores, com olhos que reluziam como joias e que escondiam segredos de eras há muito perdidas no espaço e no tempo. Por baixo das suas longas capas cinzentas, os seus corpos esbeltos estavam envoltos em trajos cintilantes e etéreos, feitos com tecidos de delicados e perfeitos fios de seda orvalhada. Pestanejei e, com uma sugestão de riso e um breve clarão, desapareceram.

Fascinada e aturdida, olhei momentaneamente para o meu irmão que continuava com a cabeça apoiada nos joelhos fletidos. Estava prestes a perguntar-lhe se vira e ouvira o mesmo que eu quando, de repente, o caminho começou a alargar-se. As árvores retrocederam, o Sol brilhou, o céu tingiu-se de um azul vibrante, uma brisa fresca tocou-nos o rosto, e um prado luminoso e primaveril surgiu diante de nós.

- O prado! – arquejei, quase sem acreditar no que os meus olhos viam.

Pela expressão abismada de André, percebi que ele também testemunhara a mudança prodigiosa. Podia imaginar a sua cabeça a andar às voltas com uma qualquer lenda urbana que explicasse o que acabara de acontecer. Quanto a mim, a minha mente estava cheia de contos e de histórias da mais pura magia e sabia que jamais esqueceria o meu encontro extradimensional com aqueles que acreditava serem os habitantes encantados dos bosques indomados.

- Mariana! André! – chamou o nosso pai, descendo o trilho a correr.

Caminhámos rapidamente na sua direção, exaustos e desalinhados, e respondemos ao seu olhar assustado com dois sorrisos tranquilizadores.

- Estão bem? O que aconteceu? Viram-no? Falaram com ele? – perguntou ele, esticando as mãos e tocando os nossos rostos, como que para se assegurar de que estávamos realmente ali.

Vimos quem? Falámos com quem?, interroguei-me. Apercebi-me então que aquela história tinha mais do que uma versão.

***

Era uma bela manhã de primavera e ele sentia-se feliz por estar a dirigir-se com a sua família para o destino de fim-de-semana prolongado que tinham planeado com tanta antecipação. A sua mulher estava sentada a seu lado, no carro, e conversavam animadamente sobre as férias de verão seguintes, os lugares que os dois filhos mais gostariam de visitar e as atividades que podiam fazer em família. Mariana e André sentavam-se atrás, nos seus lugares habituais, ela à direita e ele à esquerda. Olhando para eles de vez em quando pelo espelho retrovisor, sentia-se aturdido com o quanto tinham crescido e mudado em tão pouco tempo. Cinco ou seis anos antes, teriam cantado ruidosamente e falado sem cessar, fazendo-lhes todo o tipo de perguntas. Naquele momento, limitavam-se a olhar fixamente pela janela com uma expressão nostálgica no rosto, um misto agridoce de alegria e tristeza que ele não compreendia. A sua mulher costumava dizer-lhe que ele tinha uma alma velha e que já não se lembrava de como era ser-se adolescente. Adolescentes?!, pensava muitas vezes. Têm apenas catorze e treze anos! Observou novamente os filhos pelo espelho retrovisor e admitiu para consigo que talvez a sua mulher tivesse razão.

A meio da manhã, fez uma paragem num local onde a estrada se encontrava com o topo de um monte e onde a vista era deslumbrante. Estacionou o carro no pequeno parque de um miradouro solitário, saiu e pegou na mão da sua mulher enquanto apreciava o bosque que se estendia para lá do sopé do monte. A temperatura estava amena e o vento soprava, doce e suave, do alto dos montes circundantes. Mariana e André pareciam estar a gostar da paisagem e disseram que iam descer ao prado primaveril que jazia mesmo abaixo do nível da estrada. Assim que os seus filhos partiram a correr, sentiu um arrepio de desassossego na nuca.

- O que se passa? – perguntou a sua mulher, que era capaz de identificar a menor alteração no seu estado de espírito.

Enquanto se voltava para lhe responder, reparou num homem com um casaco de ganga azul que olhava fixamente para os seus filhos enquanto estes desciam a encosta. Viu-o passar para o outro lado da barreira protetora e procurar um caminho para descer até ao prado. Por um instante, o desconhecido olhou por cima do ombro e os seus olhos encontraram-se. Não precisou de mais para sentir que os filhos corriam perigo. Talvez todos corressem perigo.

Não era uma pessoa particularmente impulsiva. Considerava-se um homem racional e ponderado, mas se aprendera algo enquanto combatera na guerra fora a confiar no seu instinto. Testemunhara o caos e a devastação, a violência e a crueldade. Reconhecia um predador quando o via.

- Entra no carro e tranca as portas – pediu à sua mulher. – Não saias enquanto eu não te disser. Vou buscar os miúdos.

Sem dizer mais nada, correu em direção ao trilho, chamando pelos filhos.

- Mariana! André!

Pareceu-lhe ouvir a filha responder, mas a sua voz soou abafada e desvaneceu-se antes que ele pudesse perceber o que dizia. Correu ainda mais depressa, sentindo o pânico aumentar dentro de si, interrogando-se, a cada batida do seu coração célere, o que teria acontecido aos seus filhos. Não via qualquer sinal do homem do casaco de ganga azul, nem qualquer sinal dos filhos.

- Mariana! André! – chamou, de novo.

O prado estava apenas a alguns passos de distância. Já conseguia ver as ervas, as flores e os fetos. As borboletas esvoaçavam por toda a parte, os pássaros cantavam e os insetos zumbiam, como se tudo estivesse bem. Mas não estava.

- Mariana! André! – gritou, em pânico, enquanto chegava ao prado.

Para seu alívio, ali estavam eles, caminhando apressadamente na sua direção, com um aspeto esgotado e desarranjado, mas a salvo.

Quanto ao homem do casaco de ganga azul, não o tinham visto. Desaparecera.

***

A soalheira manhã de primavera começara muito bem. Tinham saído de casa e abandonado a cidade quando os primeiros raios de Sol incidiam sobre as ruas adormecidas naquele primeiro dia de fim-de-semana prolongado. Quando o carro se fizera à estrada, ela sentira o seu corpo vibrar de pura felicidade e sorrira abertamente para o marido sentado a seu lado e para os dois filhos aninhados nos assentos de trás. Dirigiam-se para uma pequena aldeia pitoresca, conhecida pelos seus costumes antigos, onde tinham alugado uma encantadora casa de campo para passarem aqueles escassos três dias. Tanto ela como o marido tinham profissões exigentes e cansativas e aquela pequena pausa era muito bem-vinda.

Enquanto conversava animadamente com o marido acerca das férias seguintes, um tópico que ambos encaravam sempre com prazer, não lhe escapou que o seu olhar fugia amiúde para o espelho retrovisor. Observava os dois filhos que, apesar de radiantes com a viagem, se limitavam a olhar fixamente pela janela com pequenos sorrisos nostálgicos nos rostos jovens e frescos. Lembrava-se perfeitamente de quando tivera a mesma idade e temperara os momentos de alegria com uma pitada de tristeza, deleitando-se com a descoberta de um novo sentimento agridoce que era um misto de empolgamento despreocupado e saudade contida. Lembrava-se nitidamente dos períodos de quietude e de silêncio em que olhara pelas janelas da sua vida com o pensamento perdido no que fora, no que era e no que poderia ser. Mas o seu marido, não. Recordava com satisfação os factos, os acontecimentos da sua adolescência, mas não as suas vivências interiores antagónicas. E tinha muita dificuldade em aceitar que o tempo passava célere e que os filhos, que poucos anos antes tinham sido crianças ruidosas e exuberantes, naquele momento eram adolescentes introvertidos e circunspectos e, muito em breve, seriam adultos empreendedores e independentes.

A meio da manhã, pararam no parque de estacionamento de um pequeno miradouro semicircular no cimo de um monte para se exercitarem e para observarem a vista arrebatadora que espreitava a partir dos toros de madeira da barreira de proteção de meia altura. No sopé do monte, para lá de um luminoso prado primaveril, estendia-se um bosque verde e frondoso, aparentemente intocado. Aquiesceu de imediato quando os filhos manifestaram o desejo de descer ao prado e sorriu ao vê-los partir a correr por um trilho lateral, gracejando e brincando enquanto corriam lado a lado.

E foi aí que aconteceu. A nuvem negra, que por vezes sentia instalar-se sobre o estado de espírito do seu marido, surgiu do nada. Sentiu também uma onda de pânico e puro medo emanar dele com uma força inexorável.

- O que se passa? – perguntou-lhe, ligeiramente aturdida.

Quando ele se voltava para responder, olhou por cima do ombro dela e empalideceu.

- Entra no carro e tranca as portas – pediu-lhe. – Não saias enquanto eu não te disser. Vou buscar os miúdos.

- Espera! – gritou, enquanto ele se afastava a correr, mas sabia que ele já não a ouvia.

Olhou para o lado oposto do parque de estacionamento, viu movimento e o que parecia ser as costas de um casaco de ganga azul, e percebeu de imediato o que despoletara a reação do marido. Ao contrário do que parecera quando tinham estacionado junto ao miradouro, não estavam sozinhos. De alguma forma, aquela pessoa desconhecida fizera o marido ativar todas as suas defesas e acordara violentamente o seu instinto paternal.

Incapaz de negar ou de desvalorizar a intuição do marido, dirigiu-se para o carro e fez o que ele lhe pedira. No entanto, em vez de se sentar no lugar do acompanhante, sentou-se ao volante, com as portas trancadas e a mão a pairar junto à chave e à ignição. Se precisassem dela, estaria preparada.

Passados alguns minutos que se arrastaram como se fossem horas, viu-os aparecer no alto do trilho, o marido e os filhos, ofegantes e transpirados, mas bem. Suspirou de alívio, abriu a porta do carro e saltou para fora, correndo ao seu encontro.

- O que aconteceu? – perguntou, intrigada e aflita. – Onde está o homem do casaco de ganga azul?

Não sabiam. Desaparecera.

***

À noite, deitada na minha cama, na pequena casa pitoresca que alugáramos, refleti sobre os acontecimentos dessa manhã. Pensei no tempo aparentemente infindável que André e eu passáramos perdidos no bosque e nos escassos minutos que o nosso pai dissera que demorara a encontrar-nos. Pensei no misterioso homem do casaco de ganga azul que os nossos pais tinham visto, e no povo encantado do bosque que eu vislumbrara por entre as árvores centenárias e a vegetação rasteira.

Poderia o bosque ter pedido aos seus que nos abrigassem e protegessem contra o mal? Teria sido essa a mensagem que a voz melodiosa me quisera transmitir quando sussurrara, Tudo irá correr bem? Teria o homem do casaco de ganga azul sido apenas um transeunte inocente ou o perpetrador frio e calculista que o nosso pai imaginara?

Não sabia. Sabia apenas que me sentia segura e confortável, aconchegada na minha cama, coberta com lençóis que cheiravam a alfazema e a alecrim e com uma manta de retalhos fofa e quente. Tinha a certeza de que teria bons sonhos essa noite – sonhos nos quais dançaria descalça, numa clareira banhada pela luz suave e prateada da Lua e das estrelas, de mãos dadas com os habitantes mágicos do bosque, ao som das mais belas e encantadoras melodias que jamais ouvira. E assim foi.

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