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Raízes - Lídia Jorge


A CASA DOS ANIMAIS

2014-08-06

Detesto dar lições seja a quem for, sobretudo se a matéria se relacionar com geografias, mas duvido que a história que vos vou contar se entenda minimamente, se à partida não conhecerem o local onde tudo aconteceu.

Refiro-me à Avenida 24 de Julho em Lisboa, e seus prédios alinhados ao longo do Tejo. Se caminharem pela margem do rio até à zona onde o estuário faz uma barriga e passa por debaixo da Ponte, e virarem à direita, encontram uma grande casa de vidro. Subam a casa de vidro e vão até ao segundo andar. Contornem as lojas de computadores e vestuário. Parem, escutem, e se ouvirem rumor de pássaros, é nessa direcção que devem caminhar. Logo verão a montra repleta de araras e canários, e ao nível do solo, dormindo em suas jaulas, ninhadas de lindos cachorros e gatos. Por vezes dois ou três coelhos de pêlo cinzento, raramente um lagarto ou uma iguana. Talvez os hamsters tenham acordado e corram nas rodas. Podem parar para ver toda aquela agitação. Foi exactamente isso que me aconteceu no final duma tarde de Outubro do ano passado. Mas aviso-vos - Fiquem aí parados, não entrem, não queiram seguir os meus passos sem antes lerem o que tenho para vos contar.

Eu entrei, sim. Detesto contar a minha vida, mas para se entender esta história, também tenho de vos dizer que eu tinha completado quinze anos e precisava de trabalhar. Alguém me havia dito – “Entra no Shopping de vidro e vai até à Ferreira’s Pet Shop, lá poderão dar-te trabalho…” Como disse, fui, parei diante da montra. Naquele dia, duas ararajubas de penas cor de oiro olhavam-me a partir dum galho, e eu entrei. Disse ao que vinha. O Senhor Ferreira, um homem baixo, esticado, em camisa de punhos com botão de madrepérola, retirou os óculos para me observar.

“Sente-se aí” – disse ele. “Diz que tem quinze anos e quer trabalhar. Diz que adora animais. Todos os animais?”

“Não todos, claro. Gosto sobretudo daqueles com quem mais nos parecemos, os cães e os gatos. Mas admiro todos os bichos. Li numa enciclopédia que entre eles e nós, é só uma questão de grau de alma. A natureza parece que é a mesma...”

O Senhor Ferreira colocou os óculos e começou a rir. Atrás dele, dentro duma gaiola gigante, cantavam pássaros azuis e verdes, vermelhos e amarelos, belos grasnados, uma trinação completa. Parecia que se queriam comer. Disse-me, muito divertido – “Ora essa, então não fomos feitos em último lugar, no final do sexto dia, quando Deus já se tinha treinado?”

Fazendo uso dos meus conceitos enciclopédicos, e parecendo-me que a conversa estava animada, respondi – “Não creio. Segundo li, acho que saímos todos da mesma fornada. Por mim, não vejo razão para dizermos que somos mais perfeitos do que os outros animais…”

O proprietário da loja tinha os olhos fechados de divertimento. Alcançou um papel, mostrou-me o horário e disse-me – “Sendo assim, de hoje a oito dias, às sete. Virá substituir a minha mulher que não passa bem. Entretanto, tratamos da papelada e combinamos um ordenado”.

E assim foi.

A vida iria correr-me de feição. Terminava as aulas por volta das quatro, fazia a minha vida até às sete, das sete às dez trabalhava na Ferreira’s Pet Shop, e não posso dizer que a minha tarefa não fosse animada. Cuidava das gaiolas dos animais, tratava-lhes da higiene, distribuía-lhes a ração da noite, ajudava o Senhor Ferreira a atender os clientes, e ainda saía a horas de dar uma volta pelos bares do porto. Por ali, havia sempre grandes navios pousados na água, gente sempre renovada, amigos a dar com um pau, alegria e algazarra por todo o lado. As minhas amigas, a Lina e a Ana Lúcia, sempre a meu lado, devorando gelados. Boas raparigas. Sempre amorosas comigo, sempre solícitas. Ainda não eram horas de deixar a loja e já elas me esperavam, curvadas diante da montra, a olhar para as ninhadas, ou a admirarem algum bando de aves exóticas acabadas de chegar da Colômbia. “Olhe, já ali estão elas, as suas amigas…” – dizia o Senhor Ferreira. E ele mesmo me dispensava, cinco, dez minutos mais cedo. Eu é que nem sempre aproveitava o benefício.

As três horas que diariamente passava dentro daquela casa enfeitiçavam-me. Adorava cuidar dos peixes vermelhos, tratá-los, vê-los deslocarem-se, sôfregos, na direcção da superfície da água em busca da sua ração. Felizes, nutridos, velozes, e a sensação que eu tinha era de que eu mesma era eles. Isso na zona dos tanques. Na zona das jaulas e das gaiolas, a situação era outra. Enquanto apanhava as sementes espalhadas, limpava as grades, mudava os leitos de aparas dos cães e dos gatos, apaixonava-me pelos animais. Os animais conheciam-me, apaixonavam-se por mim. Até duas iguanazinhas, provenientes do México, se afeiçoaram à minha mão. Só comiam os legumes e a fruta que eu lhes dava. Claro que o Shopping era uma zona de passagem, muita clientela abastada, muita mulher sozinha, por isso os bichos do Sr. Ferreira desapareciam num ápice. Estava habituada a esse vaivém, mas quando sabia que algum dos meus preferidos iria deixar a casa, levava tempo a despedir-me deles. Tinha pena de os ver partir. Mas não podia deixar de ser. “Já ali estão as suas amigas, menina…” – Dizia o Senhor Ferreira. “Já vou, Senhor Ferreira, ainda eu não me despedi dos persas lilases…”

Certo dia, porém, ao chegar ao trabalho pelas sete horas da tarde, a loja estava deserta e o Senhor Ferreira não se encontrava à porta como era seu hábito. Nem tão pouco ao balcão. Encontrava-se ao fundo, todo curvado para o tanque dos peixes. Eu já conhecia o Senhor Ferreira. Aproximei-me - “Então o que se passa por aí?” O meu patrão desencostou-se do vidro, virou-se, e balouçando o fundo do camaroeiro, exibiu no ar o volume de três carpas mortas…” Grande choque! Eram as minhas carpas, as que possuíam pintas escuras no lombo, aquelas que eu tinha evitado vender, de tal forma nos entendíamos bem. Elas vinham à minha mão, bicavam os meus dedos na sofreguidão de comer. Não as tinha vendido. Mas como se a vida quisesse vingar-se da minha sonegação, sobrevinha-lhes aquele destino trágico. Virei a cara para o lado. Assistir à entrega dos três animais ao lixo, não era um momento bom, não. Andando de um lado para o outro, o que o Senhor Ferreira dizia, para me consolar, é que a morte dos peixes sempre foi uma coisa natural. Não precisava de estar escrita nas estrelas.

E no entanto, começaria a estar, quando no dia seguinte, ao chegar à casa dos animais, o Senhor Ferreira me indicou um volume envolvido num plástico - “Adivinhe o que aí está dentro…”

Não era preciso adivinhar, pelo formato se via. E olhando para o aquário das tartarugas, aquela de que eu mais gostava, aquela que eu havia reservado para uma pessoa amiga, aquela que estendia a cabeça mal me sentia próximo, balouçando dum lado para o outro a pesada carapaça, essa não estava no seu lugar. Era Primavera, mas ainda fazia frio. Senti-me enregelar - “Que coincidência, não é senhor Ferreira? Dois dias seguidos, e lá se foram quatro dos meus animais preferidos…”

O Senhor Ferreira retirou os óculos e disse-me – “Minha amiga, você começa a sair-me cara. Alguma coisa tem de mudar…”

“Eu, Senhor Ferreira? Quer dizer que eu lhe mato os animais?”

“Não, não é bem isso…” – respondeu, levando ao colo a minha tartaruga envolta na sua mortalha.

“Então o que quer dizer ?”

Mas como o proprietário da casa não respondesse, tratei das gaiolas dos roseicolli, os inseparáveis. Eram dum verde entremeado de anil, lindo bico cinzento, lindos trinados. Tinham acabado de chegar da Namíbia, ia para uma semana, mas mesmo assim, já nos conhecíamos bem. Mal me pressentiam, aproximavam-se da grade, viravam as caudas e redobravam o canto. Caminhavam e voavam sempre aos pares. Também havia os canários, quase tão cantadores quanto os roseicollis, embora menos encorpados, e também mais baratos, menos vistosos, menos comilões. Eu gostava de todos, naturalmente, e amava demais o olhinho preto dos canários, mas a minha preferência ia para os inseparáveis. Assim como entre as ninhadas de gatos, a minha inclinação ia para os persas lilases. Eram umas ninhadas especiais que ultimamente vinham da Itália. E eu encarregava-me de introduzir nas fichas os dados do pedigree. Alimentava-os. Depois, um a um, desapareciam em regaços que eu sempre achava suspeitos. Mas naquele dia, estava eu debruçada para os hamsters, quando o Senhor Ferreira se aproximou muito sério – “Ouça lá! Passa-se alguma coisa consigo?”

“Comigo, Senhor Ferreira? Comigo não…”

“Pois tome cuidado, olhe que quem a avisa seu amigo é!”

“Mas que cuidado?”

Era preciso não levar o Senhor Ferreira a sério. Porventura quereria o meu patrão incriminar-me da morte dos animais? Aquela insinuação não me parecia justa. Ainda por cima, agora tinha o hábito de não me responder, era como se não me escutasse. Eu também lhe devolvia da mesma maneira. Na verdade, culpar-me pelo óbito dos infelizes seria tão absurdo que, a confirmar-se, só me restaria abandonar aquela função, procurar uma outra saída. Até ali a vida estava a correr lindamente. A Lina, a Ana Lúcia e eu formávamos um trio especial. Estávamos sempre ao telefone. Quando nos sentávamos no Mares do Sul, até as cadeiras rodavam sozinhas para a nossa beira. Rapazes de várias nacionalidades sentavam-se nelas. Percebia-se que nos queriam namorar, mas nós não ligávamos muito. Alguns deles até faziam ofertas generosas - Passear até à Outra Banda, dar uma volta até ao Porto, até ao Algarve, e falavam de part-times num outro shopping, um novo emprego numa firma de roupas caras, numa loja de tabacos. Sendo assim, se o Senhor Ferreira começasse a armar conversa, bye bye, a minha vida seria outra. Isso pensava eu, distribuindo vitaminas pela ninhada lilás. E entre eles havia um exemplar, o de patas brancas, como se tivesse atravessado um riacho de leite, que era lindo de morrer. Mas naquela noite, como os olhos do Senhor Ferreira me rondassem demais, eu corri para a rua. Não estava certa de terminar a temporada sob uma suspeita tão absurda.

No dia seguinte, porém, ideias fixas ocupavam o meu pensamento. Incomodava-me imaginar que voltasse a morrer outra carpa, outra tartaruga, talvez o hamster sírio, talvez uma arara. Mas não, não foi isso que aconteceu. O Senhor Ferreira atendia ao balcão e não me disse nada. Eu é que descobri, quando me aproximei das gaiolas grandes – Dois dos roseicollis mais alegres estavam imóveis encostados ao bebedoiro. Muito juntos, os inseparáveis tinham as cabecinhas à banda, caídas sobre os peitos. À minha aproximação, uma das avezinhas tombou para o lado, com as patinhas no ar, encaracoladas. Seguiu-se-lhe a companheira. Não consegui reprimir um grito – “Senhor Ferreira, é preciso chamar o veterinário!”

O Senhor Ferreira aproximou-se da gaiola, sem os óculos, muito pensativo, e só passado algum tempo, respondeu – “Qual veterinário, nem veterinário! Não percebe que os animaizinhos lhe estão a enviar uma mensagem? Que estão a avisá-la de algum perigo? Não percebe? Então abra os olhos, você que me disse que nós e eles saímos todos da mesma fornada…”

Nada como o ilógico, ou o absurdo, para nos aprisionar o passo. Era isso mesmo que eu sentia, que estava aprisionada por um processo extravagante que eu não conseguia contrariar. Olhava à volta e só me parecia que os animais, todos aqueles animais, podiam morrer dum momento para o outro, sem eu pudesse fazer o que quer que fosse.

Então o Senhor Ferreira retirou de dentro duma gaveta um livro em cuja capa se lia De Amina, cheio de marcas e post-its, e disse-me, balouçando-o na mão - “Ouça, não acredita que os animais nossos irmãos sintam o perigo antes de nós, e sejam capazes de sufocar por nós, morrer em vez de nós?”

“Não, não acredito”.

“Pois acredite. Estes bichos estão a dizer-lhe alguma coisa que só você pode escutar e no entanto recusa-se até a ouvir. Eles avisam-na e você não quer saber. Não me admirava nada que amanhã a coisa subisse de volume, que amanhã se perdesse a águia de cativeiro que ali temos, um animal bem raro, por acaso…”

Eram oito horas da noite, estávamos no meio da casa dos animais, as aves tinham-se calado, os hamsters roíam avelãs, segurando-as entre as patas como se fossem mãos. Duas iguanas roçavam-se no terrário ao fundo. E o último gatinho persa, de patas brancas, dormia a sono solto, estendido sobre as maravalhas sujas, o descuidado. Com muita paciência, acordei-o, lavei-lhe a cauda, cocei-lhe a testa peluda, mudei-lhe a cama. Era o último exemplar da ninhada. Enquanto isso, eu ia ouvindo o Senhor Ferreira barafustar – “Aposto que amanhã vai ser a águia domesticada, ou uma iguana… Você deveria tomar cuidado, deveria prestar mais atenção à sua vida…”

Eu nem respondia. Pensando bem, talvez eu não voltasse mais. A Lina e a Ana Lúcia telefonavam sem cessar. E por acaso, naquela noite, uns amigos recentes viriam encontrar-se connosco no bar. Ultimamente apareciam com cada casaco de cabedal, com cada relógio, com cada espadalhão… Sempre que um deles se aproximava demais, nós dizíamos – “Larga para lá essa mão…” Naquele noite, porém, eles vinham propor que no dia seguinte fôssemos até ao Guincho. E em relação à minha pessoa, falavam de uma nova ocupação, uma coisa em grande, uma coisa em chique, o melhor possível para mim. Prometiam-me um emprego que nunca mais me pusesse aromas de chichi de felino no meu vestuário de lã. Tinham razão. Talvez eu não voltasse à casa dos animais. Mas naquele momento, eu não iria dizer nada àquele homem de raciocínio atormentado que era o Senhor Ferreira, agora que ele estava junto dos peixes, encostado ao aquário, de olhos baixos, a ver-me sair porta fora, abraçada às minhas amigas. Não, não iria.

“Boa noite, Senhor Ferreira”.

“Boa noite, menina Sara…”

O dia seguinte era sábado. Estava combinado que deveríamos encontrar-nos com os rapazes do grande carro, cerca da uma, para irmos nós três e eles dois, até ao Guincho. O encontro prévio seria nas Docas, Bar dos Mares do Sul. Queria ouvir o que tinham para me dizer. Vesti-me, arranjei-me, ia mudar de rumo, ia para longe, com elas e com eles. Ia à aventura, buscar uma nova vida. Mas a morte dos animais não me saía do pensamento. Uma engrenagem inexplicável. Antes de abalar, eu precisava de derrotar aquela teoria. Precisava de passar pelo Shopping de vidro. Não queria abandonar aquela loja sem me despedir do Senhor Ferreira. Queria partir com a certeza de que nada mais iria acontecer aos meus animais preferidos. Queria falar-lhe dessa certeza. Aproximei-me. Na porta a tarjeta de aviso dizia Encerrado, volto já, mas não correspondia à realidade. Empurrei e entrei. O meu coração batia com força. E se fosse verdade? Se acaso fosse verdade? – Se na cadeia das vítimas estivesse a iguana, ou a águia real? Se estivesse o cachorrinho perdigueiro? Pior do que isso, se estivesse o gato persa? – Naquele momento, ele até nem se encontrava na montra onde eu o havia deixado. Dei um passo atrás - Não, isso não seria possível. Seria demais.

Mas não era, não.

A meio da casa dos animais, o Senhor Ferreira estendia sobre o balcão o meu gatinho lilás. O Sr. Ferreira tinha os olhos vermelhos e erguia-os para mim. Entre as suas mãos, agonizava o meu gato preferido. Enquanto o meu telemóvel chamava no bolso. Que chamasse. O meu persa agonizava e eu não conseguia sair daquele lugar. Que fossem eles, os quatro, no grande carro, eu tinha o meu animal para reanimar, para socorrer, alimentar, ou em desespero de causa, para eu mesma, talvez, amortalhar. Que fossem eles. O telemóvel vibrava na minha algibeira. Vibrava sem cessar. Mas não, eu não iria atender. “Senhor Ferreira, o que está a acontecer? Não me dirá?” - O Senhor Ferreira não respondia, deveria achar que já me havia dito tudo o que tinha para dizer. Pousei definitivamente o saco sobre o balcão. Desliguei o telefone. Estava decidido, naquele dia, eu não iria com eles, logo iria duma outra vez. E não fui. Tinha o meu bicho para enterrar pelas minhas próprias mãos.

E aqui suspendo esta narrativa. Suspendo porque não gosto de falar da minha vida, já o disse, nem gosto de me emocionar em público. Basta dizer que a Lina e a Ana Lúcia foram no grande carro, o grande espadalhão. Disseram a um dos empregados do bar que iriam só até ao Guincho. Agora, em vinte e cinco países, estão expostas as suas fotografias, uma ao lado da outra, e numa banda vermelha, pode ler-se a palavra Missing.

Eu continuo a ajudar o Sr. Ferreira, no Shopping de vidro, segundo andar, depois das lojas das roupas, casa dos animais.


LJ

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