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Raízes - Urariano Mota


A paixão desesperada de Maria

2014-10-05

Observando-os há pouco, sob os cabelos grisalhos, Jimeralto vê Maria apaixonada pelo irmão. Ela não se dava conta, percebe. Então ele se fala e penetra o que até então ele não soubera. Existe no coração das pessoas uma vontade irrefreável de amar. Ama-se um gato, ama-se um cachorro, um papagaio, uma flor que ninguém quer ou vê. Talvez esse amor que deriva e vaga por objetos e coisas que não respondem, ou respondem abaixo da fome de amar, talvez sejam sintomas do afeto que procura no mundo um individuo que lhe responda. Ou, quem sabe, o amor elástico, amplo e plástico onde tudo cabe. Em lugar de um pansexualismo, como o vê uma absurda redução, o amor às coisas é antes um panafeto. O carinho e o cuidado com que se toca uma mercadoria, um carro, um revólver, uma faca ou uma caneta, em lugar de um desvio, de um puro desvio daquele coração que se guarda para um amor maior, talvez seja o coração mudado para um afeto camaleão, que se veste da pele do lodo do esgoto ao verde da mata. Camaleão feio, mas camaleão. Iguana de luxo, iguana-afeto que, em vez de saltar os obstáculos à sua natureza, faz da adaptação ao obstáculo a sua natureza. Isso Jimeralto consegue compreender, isso na reflexão liberada como num sonho ele consegue. Enquanto caminhava na rua do subúrbio ele viu um iguana escuro, coberto de lama, surgido de um riacho poluído, e num pensamento que era uma associação lembrou o afeto mimese, o afeto em que se transformava o amor da sua mãe.

Mas ainda aqui, nessa descoberta, havia algo que ele rejeitava. Se o amor que se veste de muitas peles era verdade, ele ainda aqui, nessa generalização, estava longe de alcançar o grão específico da paixão de Maria por Maciel. Quando ela sorri, naquela hora de uma da tarde, ela se entrega a um homem como jamais pôde se entregar ao marido. Aliás, como jamais pôde se entregar a qualquer homem. Não que Maria não houvesse tentado, e tentar para ela era fazer o ato em lugar da intenção, ou seja, não que Maria não houvesse beijado, abraçado, ido para a cama com outros homens antes do marido. Quantos, pouco importava. O importante era que havia, houve em todos um descompasso, essa palavra leve, eufemística, pois em todos houvera uma funda frustração, uma diferença de abismo entre a fome voluptuosa e o que recebera. Os homens queriam sexo, apenas e somente sexo. Em se tratando de Maria, desejavam um sexo pornográfico, escabroso, porque ela não era a musa em vigor do ideal masculino. “Musa em vigor do ideal masculino”, quanta suavidade enganosa em uma frase. Nessa altura, Jumeralto se dividia em dois, no filho que adorava a mãe determinada, com quem sua infância subira ao céu, e no homem que tinha o conhecimento da Maria para outros homens. Era um conflito entre o objetivo e o subjetivo, ele diria numa simplificação triste. Pois antes dessa distância entre o que está fora de nós, independente de nós, e o que está dentro, dependente do que somos, há e havia outros caminhos, desde o quanto o objetivo se torna subjetivo, ao quanto o subjetivo é objeto de introspecção e mergulho íntimo, objetivo. Diabo, ainda não era precisamente isso, e Jimeralto fugia, escapava ele próprio como um camaleão, a se entreter numa dispersão para evitar a crueldade que assaltou e matou a sua mãe. 

De modo mais simples e direto ele deveria ver: Maria não conhecia o beijo. Maria não conhecia o beijo, Maria não conhecia o beijo, ele se atormentava, a rolar na cama de pensão onde dormia sob nome falso, clandestino, como se o próprio de batismo já não fosse um. Ele via a parede do quarto e queria meter a cabeça nela, com força, para expulsar o “Maria não conhecia o beijo”. Essa frase, sentença de condenação para aquela mulher a rir na cozinha, queria apenas dizer: Maria gorda, para os homens, era apenas boceta, uma boceta, a boceta precária de uma Maria precária. Isso era, significava, Maria não conhecia o beijo. Quem pegasse aquela Maria gorda, pegava-a por uma espécie de contrafação, delito cometido por machos, até como prova insofismável de virilidade. “Peguei a gorda”, diriam uns. “Peguei a baleia”, diriam outros. E Jimeralto olhava a parede de tabique da pensão e sabia que o seu mundo e humanidade não cabiam ali. Ele, nela, ela, nele, confundiam-se no mesmo sentimento de uma fundamental, essencial, pecaminosa injustiça: Maria não era a boceta gorda de um animal. Pois assim quando reduzimos uma pessoa a uma coisa, e assim a reduzimos porque somos em essência uma coisa, quem a via como baleia, uma albacora (era sintomática a sua ligação a um ente do mar que não entrava na dieta daquela gente), quem a via assim era um animal. Então Jimeralto sorriria 55 anos depois para a sua Maria a sorrir, pois naquela perfuração, que lhe revelava uma ferida sem cura, havia uma superação mais alta, tão verdadeira quanto o ferimento: quem julgava Maria uma boceta não alcançava a sua graça. Se era fato que não a beijavam, aquele beijo longo em sua boca, aquele beijo de paixão que ele, filho, que ele, irmão, não podiam lhe dar – e naquele então nem suspeitavam do beijo sugado em sufoco voraz -, se esse pecado contra a sensibilidade os homens cometiam, também era fato, verdade, que os objetivos do gênero são tomás não pegassem a graça de Maria, porque era de caráter fluido, delicado e de finura humana. Mas como poderia alcançá-la, no seu íntimo mais além dos grandes lábios, a brutalidade? Como poderiam tocá-la na sua graça? Ver Maria sorrindo, liberta e em lágrimas, liberta e feliz, vê-la no cume do prazer, ainda que sem o beijo fundo, abrasante, de sufocar, era ver uma superação de Maria sobre a violência. Aquela a gargalhar não mais era a albacora, a gorda sem encantos. Era a Maria em sua graça.

O lagarto, o camaleão, o iguana faziam um novo afeto, uma nova pessoa para o amor. Então Jimeralto, ele próprio se assemelhando a um lagarto, mesmo nessa visão de olho de réptil, de ir a objetos onde podia tocar com a sua longa língua de iguana, ainda aqui Jimeralto não via, nem queria ver, e por todos os disfarces evitava – porque na memória, como no sonho, também ocorre a abstração, uma astúcia que abstrai mas não destrói, abstrai por integrar em outro corpo, com uma cauda oculta que não se desprega -, ainda aqui Jimeralto evitava a gravidez de Maria. Ela estava grávida naquele começo de tarde, enquanto se dava a sorrir para o irmão. Estava grávida ao se entregar para o irmão, em mais de um sentido. As razões do pulo, ou do não ver apesar dos seus olhos de réptil, do olhar que vai além do presente até o quadro, até a cena de 1958, se dava por motivo mais forte que o ventre da mãe, que não a deixava se encostar à mesa, que a punha quase suspensa, como se fosse apenas busto e rosto vermelho, inflamado de felicidade. Maria estava condenada naquele 1958. Ela não chegaria ao fim do 23 de dezembro daquele ano.

 



Do romance “O filho renegado de Deus” (Editora Bertrand Brasil), Prêmio Guavira de Literatura 2014.

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