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Raízes - Ana Cristina Silva


Europa

2014-11-21

Tinha trazido consigo as poupanças do pai para pagar o passador, mas ainda sobrava dinheiro para pagar uma pensão barata. Essa era a principal diferença entre John e tantos outros aventureiros africanos que afluíam a Trípoli vindos através do deserto. Para os turistas ocidentais, o deserto representa a fronteira do infinito. Ali onde não há horizonte e onde a neblina do céu não se distingue da neblina da areia, é um dos sítios onde os homens prósperos viajam para resolver crises existenciais. Para os refugiados do Gana, dos Camarões e de tantos os outros países imaginários, o deserto guardava o rasto de milhares africanos que antes dele tinham tentado a sua sorte. Para esses homens, as planícies do deserto tanto podem ser uma estrada como um cemitério.

John não fora forçado a atravessar o deserto, limitou-se a contactar Hartani, o passador, na morada que trazia. Procurou por ele na manhã seguinte a ter chegado. O passador não estava em casa, encontrou-o no café do bairro. Apontaram-lhe uma mesa na esplanada. Hartani era uma figura sinistra a nadar num fato ocidental que lhe ficava demasiado grande. Tinha um rosto macilento, marcado por rugas profundas, uma boca larga e olhos escuros que a toda hora contavam dinheiro.

No momento em que encontrou o passador, a cabeça de John vivia num estranho deambular porque tinha deixado a família e o seu país e ainda não pertencia a nenhum lugar. Mas percebeu de imediato que para prosseguir até à Europa era necessário regatear com aquele homem.

“Tens cá uma sorte”, disse-lhe Hartani. Havia um barco que partia daí a quinze dias. A sua fortuna ainda foi maior porque nessa manhã o passador estava bem-disposto. Se fosse outro dia qualquer, Hartani teria recusado baixar o preço em quinhentos dólares mas, na véspera os pais de uma menina de doze anos tinha aceitado o seu pedido de casamento. John, não podia verificá-lo, mas nunca mais houve mais nenhuma circunstância em que essa atitude se repetisse. Só nesse dia Hartani estava com disposição para perder dinheiro, dando importância à sua imagem junto de Alá para ser abençoado no casamento.

A sua sorte ainda era maior por ter voado diretamente para Tripoli. Mais tarde, nos meses em que esteve no campo de detenção da ilha, contaram-lhe tantas vezes como era a travessia do deserto que a repetição retirava individualidade ao sofrimento. Tudo dependia do passador e do preço que os refugiados podiam pagar. Muitos faziam parte do percurso escondidos no meio da carga dos camiões, mas depois percorriam o deserto a pé em pequenos grupos. Mulheres com crianças ao colo, outras grávidas, jovens rapazes, todos, mas mesmo todos, sentiam os ruídos do medo enquanto caminhavam atrás do guia. Era um rumor que ecoava de forma imprecisa, parecendo-se com pancadas fortes que entravam pelos pés depois de cada passo e que soavam no interior do corpo. Ninguém mencionava o medo de vir a ser apanhado e também ninguém que não fosse da família esperava pelos atrasados. Tinham de caminhar e poupar água, sentindo a queimadura do sol, a sede, o encadeamento do céu excessivamente branco e a poeira que sufocava. Tinham de caminhar, mesmo quando a fadiga estrangulava as gargantas. Ao todo caminhavam durante uma semana, mas era como se tivessem andado desde sempre, avistando as mesmas colinas distantes e as mesmas rochas avermelhadas. A noite era bela e gelada nos acampamentos improvisados, mas não os deixava descansar. Muitos não conseguiam dormir como se a febre da ansiedade lhes devorasse os corpos. Só quando chegavam à primeira cidade da Líbia é que sentiam como estavam extenuados, a roupa nova em farrapos, os sapatos rotos, os lábios e as pálpebras queimados pelo sol do deserto. Sentados nas bermas das ruas poeirentas e nas pedras aguardavam por outras camionetes que os levariam até ao mar.

A história de cada refugiado era quase a mesma, porém ecoava no interior da cabeça de John como uma única voz que se misturava ao vento e ao ranger dos grãos de areia. Isso era importante porque cada narrativa deve de reflectir uma fisionomia concreta. Quando os rostos são muitos e se multiplicam na televisão passam a ter traços indefinidos e já não comovem ninguém.

Na pensão miserável em que se hospedara não havia ruídos familiares. John procurava nas famílias das casas térreas desse bairro os sons que dolorosamente lhe faziam falta: os suspiros da voz da mãe quando adormecia a ver televisão, os gritos da irmã a protestar por ter de cobrir a cabeça só de espreitar à janela, os resmungos do pai sobre a imoralidade do mundo ocidental.

Costumava ir para a praia ou para a zona do porto, porque aí o sol limpava o ar enquanto esperava pelo dia da partida. Além disso, o vento era morno, repleto dos cheiros do mar. Não pensava sobre o que iria fazer quando chegasse a Itália. Deixava apenas as horas voarem demoradamente. Ao longo de 23 anos tinha vivido uma biografia silenciosa sem grandes sobressaltos. Falava fluentemente inglês e francês e tirara um curso de filosofia onde aprendera a pensar pelos modelos dos ocidentais. Agora, o futuro não passava de um encadeamento de acasos sobre o qual não tinha qualquer controlo. Até há poucos dias tinha tido uma vida protegida, agora sentia-se irremediavelmente perdido, como se o nó do destino tivesse sido atado e o fio invisível que o puxava para a Europa o arrastasse para o vazio.

No dia da partida chegou a meio da tarde a uma praia a dez quilómetros de Tripoli como fora combinado. Hartani cumprimentou-o ainda da estrada. Quando se aproximou da falésia, ficou parado, imóvel, quase sem respirar. Em baixo, na praia, estavam uma centena de pessoas, sobre os seus corpos a luz fazia desembocar longas sombras. Hartani indicou-lhe o caminho por onde seria preciso descer até ao areal. Acrescentou que era indispensável percorrê-lo devagar. Sobre aquela vereda a única coisa que existia era um céu tão amplo que qualquer um tinha vontade de voar.

Hartani tinha pago à polícia marítima de modo a que ninguém viesse rondar a praia ao fim da tarde. Mesmo assim havia imposto silêncio aos refugiados. A pequena multidão estava sentada, esperando a noite cair para embarcar. Ninguém falava. O vento fazia o que queria no meio da solidão. O barulho do mar gritava-lhes aos ouvidos, o que era bom para não para não terem de pensar. O silêncio parecia ter vindo com eles do deserto. Muitos tinham familiares à espera na França ou na Alemanha. Outros não tinham ninguém.

O oceano quebrava na praia com grande ruído de rasgão, depois a água retirava-se e a espuma fundia-se com o sol. O vento soprava, empurrando a luz de volta à água, uma luz que chegava de muito longe. Para além da linha da sombra do horizonte havia um ponto negro imóvel e ali ficava a Europa. O tal ponto deslizava devagar nas esperanças de cada um. À volta dele também havia círculos de medo. E se fossem apanhados? E se não fossem, o que iriam fazer?

Ao fim da tarde o barco chegou. Todos sabiam que eram demorados e perigosos os caminhos até à Europa, mas os perigos aumentavam por o barco ser demasiado pequeno para tanta gente. O mar começava a ficar escuro por causa da noite, mas parecia-se com a imensidão do deserto porque também se podia morrer nele.

John foi o último a embarcar. Lembrou-se dos escravos dos navios negreiros. Tal como nesse tempo havia corpos empilhados de contornos esfumados que não se distinguiam uns dos outros. Os passageiros comprimiam-se ainda mais, pernas entrelaçadas, braços estreitando os corpos dos mais pequenos, hálitos misturados. As trevas dentro do mar ressoavam como tambores e todos os passageiros eram vultos negros. John teve sorte. Ficou na proa, encostado à amurada. Dois etíopes ao seu lado comentavam baixinho que o destino não estava assegurado para ninguém.

Hartani tinha ficado em terra, tendo entregado o barco a três marinheiros. A embarcação balançava ao sabor das ondas e a escuridão fazia com que sentissem intensamente o perigo. Mas o escuro também os escondia e protegia. Depois de algumas milhas, veio o nevoeiro, gerando um clamor que era ao mesmo tempo tumultuoso e fúnebre. Os marinheiros pediram silêncio.

O barco seguia tão cheio que corria o risco de afundar. Todos tinham medo de acabar com peixes no cabelo, pairando de olhos abertos no fundo do mar. Todos calavam o medo, deixando o vento assobiar para dentro dos tímpanos. “Não tenham medo, sobreviveremos”, repetiam os marinheiros. O vento tinha amainado e a noite acolhia-os. Eram um punhado de homens e mulheres encolhidos no fundo das entranhas de um barco à espera que o mundo lhes desse uma oportunidade. Porém, quando o sol nasceu, sombras de nuvens treparam devagar pela silhueta de um outro barco ao longe.

Tush, um dos marinheiros, foi o primeiro a vê-lo. Empertigou-se ao pé do mastro em bicos dos pés como um cão à espreita. Os africanos viraram a cabeça para verem uma fragata da guarda costeira aproximar-se. De altifalante na mão, um dos oficiais ordenou ao barco que parasse.

Dois guardas da polícia marítima entraram na embarcação e quiseram controlar as identidades. Os passageiros sabiam que não iam conseguir enganar a polícia, mas o seu sonho de alcançar uma terra de prosperidade continuava estranhamente a desenrolar-se. Eles estavam paralisados, sem reacção, mas a criatura dos sonhos prosseguia a sua existência. Se estivessem em terra, arriscariam tudo, tentando fugir, mas o mar era uma barreira que não se podia escalar. Um dos etíopes ao lado de John rezou para que fossem tragados por uma vaga imensa. Seria preferível à lenta agonia do sonho.

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