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Raízes - Pedro Guilherme-Moreira


Ode a quem ama quem nós amamos

2016-11-25

 

A tua fotografia, as fotografias de todos os que amam quem nós amamos, serão sempre a composição gráfica de uma pietá.
Vais pensar que é ficção.
Depois vais saber que é verdade, porque eu to vou dizer.
Depois vai ser ficção outra vez, para proteger as vozes claras do mundo.
Depois vais ler aquilo que eu estou sempre a escrever:
que a ficção existe pela verdade e a verdade precisa da ficção, umas vezes para temperar o sofrimento, outras para entender o que a transcende.

O amor é sobre-humano. Não se entende de frente, mas em dinamismos que às vezes o fazem parecer o seu contrário. É banal e simples, como a beleza. Olhas a beleza de frente e podes não a entender, podes vê-la transfigurada. Qual é a diferença entre observar uma obra-prima numa fotografia de altíssima definição no ecrã do teu computador ou ao vivo, num museu, pendurada na parede? Se te aproximas demasiado, não vês o quadro, não vês a beleza, vês o detalhe, vês a emoção da assinatura, vês a forma como foi construído, espantas-te como algo aparentemente tão desordenado como são as pinceladas vistas de perto pode dar-te a ideia da perfeição uns cinco ou seis passos atrás. E, antes de começar a explicar-te porque é que o amor é sempre incondicional e, enquanto existe, infinito - e, quando nasce por dentro das coisas e das pessoas, eterno, como o amor dos pais pelos filhos -, falo-te da beleza e de todas as coisas que nos transcendem, porque o amor é assim: sobre-humano. Ainda que a agitação e a imperfeição da vida, o egoísmo e a maldade, possam tornar um pai ou uma mãe incompleto e ausente para o seu filho, eles só morrerão completos com ele ao seu lado.

Deves estar a torcer os lábios, entre o espanto e a incredulidade. Mas afinal o que é que ele quer? Porque é que não deita esta pretensão de grandiloquência por terra e diz ao que vem, de forma tão crua e simples como a que defende para o amor e para a beleza, porque é que não é mais perfeito, como uma manhã de verão antes de o norte se levantar contra ela?

Então eu digo. Esta é uma oração de devoção a quem ama quem nos amamos. Se amas alguém que nós amamos, corres o risco de ser amada por nós. Se cuidas dele, se te preocupas, se o proteges, se lhe dás colo, se lhe exiges para não sermos nós a exigir, se lhe dizes para tomar cuidado, se o abraças, se és maternal e delicada, se te perfumas e o perfumas, se lhe dás sentido e tempo, corres o risco de ser tanto para nós como ele é.

Todas as pessoas boas são vítimas de uma solidão implacável quase desde o berço, porque essa bondade é uma pureza e uma inocência que são facilmente devoradas pelas multidões, mesmo que essas multidões sejam grupos de cinco ou seis estranhos ao núcleo sagrado da pequena família, que é a família sagrada, quando existe. Quando não existe, estás definitivamente por ti e só por ti. Por isso somos sozinhos na nossa intimidade, por isso nos deslumbramos e espantamos desde pequeninos, por isso temos medo de tudo, temos medo de dar aquele passo maior, de assumir aquele risco: porquê sair da concha, porquê sair do ovo, se aqui ninguém nos magoa e ali todos nos podem magoar? Eu respondo:

porque, se não saímos de vez em quando, não nos encontraremos.
E já viste a emoção de encontrar pessoas de bem, que amam quem nós amamos?

Deixa o pequeno risco ser a musculação do corpo para os embates da vida, mesmo que, de vez em quando, corra mal.

O que não corre mal, o que já é palpável, real, o que já aparece na minha mão quando a abro, é o teu amor pelo meu amor. Por isso te digo agora, pela primeira de muitas vezes, obrigado. Obrigado a ti e aos teus que tocam na mesma orquestra ou compõem a mesma sinfonia.

Finalmente, deixa-me acabar com a simplicidade que raras vezes sou capaz de atingir, e por isso é que sou bem pior do que tu:

sabes qual é, para mim, a característica principal deste amor incondicional - o amor é sempre incondicional - pelos que amam quem nós amamos? É ele ser livre e não exigir vínculo, compromisso, correspondência. É uma espécie de monólogo. Serás protegida e amada sem que isso dependa de ti.

Dar-te amor porque o amas e dar nome a isso nestas palavras é uma decisão apenas de quem ama, não de quem é amado.
É um imperativo de justiça nomeá-lo num determinado ponto do tempo.
Mas não depende de o teu amor por ele ser eterno ou passageiro, não te vincula, não admite interferências nossas, podia até já ter acabado, podia ser passado, e eu dir-te-ia que, se o amaste e cuidaste dele, nós passamos a amar quem amou quem nós amamos, porque nunca se passa por dentro dos outros incolumemente.

Basta o vosso amor ter acontecido. Pode acabar, pode aumentar, pode mudar, mas aconteceu.
Assim o nosso.

E, se eu sou pai, é tão paternal como o que lhe devoto.
E, se eu sou mãe, é tão maternal como o que lhe devoto.
E, se eu sou irmão, é tão fraternal como o lhe devoto.
E, se eu sou alguma coisa, é igual para ti, é tanto por ti.

Então eu digo outra vez:

Esta é uma oração de devoção a quem ama quem nos amamos. Se amas alguém que nós amamos, corres o risco de ser amada por nós. Se cuidas dele, se te preocupas, se o proteges, se lhe dás colo, se lhe exiges para não sermos nós a exigir, se lhe dizes para tomar cuidado, se o abraças, se és maternal e delicada, se te perfumas e o perfumas, se lhe dás sentido e tempo, corres o risco de ser tanto para nós como ele é.

Hoje é o dia perfeito para te dizer isto e te agradecer pela primeira vez.

Obrigado, menina.

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