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Raízes - Aida Gomes


A dançarina de Cartum

2017-01-11

No amarelo da sombra nasce o dia e nele aparece o contorno de uma figura esguia na areia. Sombra bailante. A dançarina habita uma construção de papelão, paus e plásticos. Vejo-a todas as manhãs. Mancha viva entre alicerces parados, varandas e andares sem janelas e portas.

A dançarina de Cartum move-se no chão e a sombra curva-se, criando espaço para o vento que arremessa longe um saco de plástico vazio. Ancas e seios imperceptíveis no ritmo ondulante das dunas acossadas pelo jogo de areia e Sol do deserto. A sujidade acumulada no terreno baldio onde a dançarina se esquece da vida que a perdeu entre materiais de construção empoeirados e varões de ferro.

A areia desfaz-se nos escombros dos prédios de uma cidade de mármore, alicerces de petrodólares. Deixaram de construir pirâmides no norte do Sudão a milhares de anos e um dia destes, acertadas as datas do novo milénio, uma nova era se anunciará à dançarina, por agora indiferente a tudo, excepto à força dos tornozelos magros e nus dos refugiados do Sul. (Os do Sul são negros. Chegados a Cartum descalços e vestidos de branco, logo se sujam. Chicoteados pelo vento de Darfur que se alonga pelo Sara até Timbuktu no Mali.)

Está-lhe no sangue, a dança. (Não é isso que dizem dos Africanos?) No sangue está a dança endiabrada do corpo. Deles, os Africanos, o vento não tem mercê. Em Cartum. A dançarina dança passos de um cantar árabe. Tal o vento. Ouço-os lá em baixo. Levantam uma poeira castanha amarelada sobre Cartum. Redemoinho de sombras de moça e areia. O corpo é molde de vento. A música no corpo porque a dança lhe está no sangue.

No norte do Sudão não há pássaros a partilhar o canto e a dança. Há este silêncio de poeira desértica nas primeiras horas do dia.

Vivo a um mês no quarto andar do único prédio acabado nesta rua. É um prédio de paredes colossais, o mármore cor-de-rosa cinzento foi importado da Etiópia. (Existe por aqui uma tendência de adocicar a existência sensorialmente. Prédio cor-de-rosa. Flores de plástico luxuriantes vermelhas. Chá de hibisco, metade chá, metade açúcar. Mel e doces de amêndoa. Incenso árabe. Perfume e sabonetes. O chamamento da mesquita só para os homens. Véus imensos sobre os corpos das mulheres reclusas nas vivendas e prédios.)

Rodeada de prédios inacabados, bebo na varanda o primeiro café da manhã. O desplante dos petrodólares no exterior de mármore cinzento intercalado de cor-de-rosa. O material de construção -torneiras, mantas asfálticas, filtros, formas e moldes de cimento, gesso e telhas de plástico inquebrável -, veio da Arábia Saudita. O rosa cinzento que começa nas escadarias é o único enfeite no palco da dançarina de trapos sujos lá em baixo. Areia e pó levantados.

O vento nunca dá tréguas a Cartum. Traz tempestades de areia que a tempo certo irão cobrir as varadas do prédio. Mas até lá resplandeço neste mármore cor-de-rosa e cinzento. O cheiro de grão torrado de café na minha chávena. O prédio vai ter um ginásio separado para homens e mulheres. Salão de banhos turcos separados. Tapetes persas e bambus verdes no hall de entrada. Mas por agora o construtor, um libanês bem conectado, está refém da indecisão dos petrodólares numa guerra inacabada. (Ontem chegaram-me noticias de Luanda, a cidade anda mais adiantada, a guerra finda, os prédios abandonados pelo pós-independência já não albergam refugiados nas Ruas Salvador Allende e Siad Barre em paredes baptizadas de Chechénia, Iraque e Afeganistão.)

Em Cartum, os refugiados do Sul jamais se atreveriam a ocupar os prédios semi-construídos. Têm medo das forças de segurança, de quem se escondem entre o entulho dos materiais de construção. Ao nascer do Sol, acendem fogareiros onde de dia fervem café e chá e, à noite, atiçam as brasas de carvão por baixo de alambiques improvisados, de forma a destilar nas madrugadas amarelas de Cartum, licor alaranjado de dédalos.

Cartum não é África. Tem prédios de mármore e estradas alcatroadas. Os africanos não vivem aqui.

Alguém acaba de atirar um embrulho de alumínio do andar de cima. Um ruído opaco no chão. O embrulho embate e vaza entranhas cinzentas de cores celestiais. Pouco tarda e um gato branco escapulido de um subterrâneo em construção, aproxima-se receoso, mas com a determinação dos seres que habitam a não existência de prédios inacabados, mede felino o terreno baldio: corpos inertes de ferro e cimento, mais à frente numa construção precária, entre ramos de arbustos sustidos na areia, uma adolescente vestida de trapos brancos, sopra de cócoras o fogo onde ferve água para o café da manhã.

O gato fareja o embrulho e depois o ar, agradece ao vento os cheiros que trouxe. Aquietado, os seus dentes finos e delicados rasgam as tripas caídas do céu.

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