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Folheando com... David Machado


David Machado

2008-12-22

Sabe contar histórias. Em Histórias Possíveis apresenta dezasseis contos onde tudo acontece: amores e desamores, alegrias e angústias. É o autor do romance O Fabuloso Teatro do Gigante. Em 2005 recebeu o Prémio Branquinho da Fonseca 2005, da Fundação Calouste Gulbenkian/ Semanário Expresso, com o livro infantil A Noite dos Animais Inventados. Falamos naturalmente de David Machado.

Em que altura da sua vida teve a convicção de que tinha o dom para a escrita?
Em criança lia muito, mas durante a adolescência o ímpeto para a leitura esmoreceu. Só mais tarde, quando entrei para a universidade, voltei a senti-lo, então muito mais forte e consciente do que antes. Nessa altura, devorava livro atrás de livro e pensava: “Eu também sou capaz de fazer isto. Eu também sou capaz de transpor o mundo à minha volta e, sobretudo, o mundo dentro da minha cabeça para uma página com palavras e frases.” A verdade é que tinha histórias e ideias antigas que queria deitar cá para fora. Apesar de tudo, isso só aconteceu uns anos mais tarde. Como se o simples facto de saber que podia fazê-lo fosse suficiente. Creio que me chegava escrever as histórias apenas no pensamento. Sempre tive a sensação de que enquanto não houvesse ninguém que lesse o que eu escrevia então não havia necessidade de escrever. Claro que o exercício da escrita serve o autor de várias formas, mas no limite não passa de um meio de comunicação com o exterior.


Sente de alguma forma o peso do apelido que transporta?
Antes do peso de um apelido – seja ele qual for – existe o peso de todos os apelidos que ao longo dos séculos fizeram Literatura. E essa é uma carga que todos os escritores deveriam trazer consigo, porque a humildade é fundamental, ajuda a manter os pés no chão e a objectividade intacta. Por outro lado, é necessário alimentarmos a convicção de que o nosso trabalho poderá acrescentar algo aos livros que outros apelidos escreveram. É um equilíbrio complicado.

Os contos que escreve baseiam-se mais na ficção ou na observação do que o rodeia?
Tudo é importante, porque tudo existe. Mesmo aquilo que é considerado imaginação existe, pelo menos na cabeça de uma pessoa. E se for dito, então passa a existir em palavras e em imagens nas cabeças de outras pessoas. Os fantasmas existem, na medida em que é possível interferirem com a vida de alguém que acredite neles. O mais interessante é a sopa que se faz com tudo o que existe, a selecção dos ingredientes, a proporção de cada condimento, a procura de algo com um sabor novo ou inesperado. O mundo real é sempre um bom ponto de partida. Pessoalmente, eu gosto de por em causa o mundo real e a imaginação ou a ficção são óptimos mecanismos para o fazer.


“De modo que, nessa noite maldita, preparava-se para desafiar quem quer que lhe aparecesse pela frente, à espera de conseguir um novo golpe no corpo que precisasse de ser costurado às primeiras luzes da manhã”.

Alguns dos seus contos têm fins tristes, surpreendentes ou são terrivelmente irónicos. Quem o lê fica com a sensação de que o seu olhar carrega algum pessimismo na observação que faz aos tempos que correm. São gritos de revolta, David Machado?
É mais racional e consciente do que isso. Aquilo que pretendo é encontrar pontos de vista alternativos para situações vulgares. Mesmo que possa parecer absurdo, ou irónico, ou triste. Há sempre ambivalência em tudo. Nada possui apenas um lado, muito menos em literatura. Enquanto escritor, eu admiro o nosso mundo tal como ele é, com todas as mortes e todo o sofrimento e todos sorrisos e todas as pessoas que se amam. Porque tudo isso representa o ser humano e não vale a pena escondê-lo. As pessoas são solidárias e alegres, claro, mas também são egoístas e pérfidas. E não há ninguém só mau e não há ninguém só bom, da mesma forma que não há ninguém só triste ou só feliz. Todos somos uma soma destas partes, por isso há sempre mais do que uma forma de olhar para alguém.


Se tivesse de escolher o nome de um autor com quem mais se identifica, quem escolheria? Podemos perguntar-lhe que outros escritores de expressão portuguesa admira?
Durante muito tempo a minha resposta seria Gabriel Garcia Marquez e Mario Benedetti, acrescidos da trupe de escritores sul-americanos da segunda metade do século passado. O cruzamento entre realidade e lenda atrai-me, porque acredito que é assim que as pessoas são em qualquer parte do mundo. A religião é o expoente disso: a partir do momento em que uma pessoa acredita, então passa a ser verdade. Ainda recorro a esses autores com uma certa frequência, mas estou mais afastado. Nos últimos anos tenho lido cada vez mais autores anglo-saxónicos, pela ironia, pela clareza do texto e das ideias, pelo humor.
Quanto aos portugueses, José Saramago encabeça a minha lista.

E já agora, qual foi o último bom livro que leu?
Vou dizer três: “Meio-irmão”, de Lars Saabye Christensen; “Extremamente alto, incrivelmente perto”, de Jonathan Safran Foer; “Velho Gringo”, de Carlos Fuentes.


Quer falar-nos nos seus novos projectos? Quais são os seus objectivos literários?
Tenho um novo livro infantil já escrito, pronto para ser ilustrado e depois publicado. Estou a meio da escrita de um romance e já tenho os primeiros capítulos de um livro para um público juvenil.
Em relação aos meus objectivos, eles são continuar a encontrar palavras e frases que me permitam compreender melhor o mundo. Enquanto puder quero escrever todos os dias, várias horas por dia, porque me custa pensar que não aconteça assim. E quero ser lido.

 

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