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Folheando com... Rui Cardoso Martins


Rui Cardoso Martins

2010-05-28

Entrevista do Portal da Literatura a Rui Cardoso Martins.

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O romance Deixem Passar o Homem Invisível foi eleito um dos livros do ano por várias publicações e críticas, e foi um dos três nomeados nos prémios SPA. Como é que surge este livro?

De várias circunstâncias. A questão que eu queria colocar, o que é que acontece às pessoas quando estão em carência física e psicológica e precisam de sobreviver. De facto o livro tem muitas situações psicológicas e físicas também relacionadas com a cidade de Lisboa. E lembrei-me de um caso muito curioso, muito simples, que foi quando um autocarro caiu e se bem se lembram ficou famoso como “o autocarro do Santana Lopes”, e lembrei-me que talvez fosse possível - em Lisboa há grandes chuvadas periódicas - acontecer uma coisa estranha que seria uma pessoa entrar lá para dentro e então isso transformar-se numa história de sobrevivência. Isso confesso que me diz muito, não só pessoalmente mas também tudo aquilo a que assisti como jornalista, as histórias de sobrevivência dizem-me muito. E pronto, foi isso, particularmente se a pessoa tivesse um problema... um problema de visão, neste caso.


Hesitou na escolha do título?

Não. Foi uma frase que tinha muito a ver com o personagem e foi uma frase que um amigo cego ouviu uma vez e esta transforma-se num trocadilho mas que diz muito sobre a situação dos deficientes e sobre a situação das pessoas que tentando não dizer cego arranjam palavras que dão nisto. A questão de ser invisual ou não ser invisual para um cego certas vezes é um pouco estranho porque invisual é quando não se vê, é como se fosse invisível. E pareceu-me um bom título porque contém assim um paradoxo. Deixem passar... Se ele é invisível, como é que dizemos para o deixar passar? Onde é que ele está? E ele vai. Vai por ali abaixo por um subterrâneo.


Já passaram muitos meses desde a publicação do livro. Como é que os seus leitores têm reagido? Há alguma reacção de que se lembre bem e que queira partilhar com o Portal da Literatura?

Sim, a reacção parece-me boa, isto é, havia uma reacção que me preocupava, que tinha a ver com eu estar a mexer num terreno muito perigoso, no sentido em que é muito fácil uma pessoa que vê, que não tem nenhum problema de visão, é muito fácil e é muito difícil estar a meter-se num terreno que não domina. De maneira que a principal crítica que recebi que me deixou descansado e feliz, foi sentir que os cegos se reviam naquelas personagens, isto é, não ter erros técnicos grosseiros como às vezes acontece. E principalmente a ideia de que não transformei a cegueira numa metáfora. A cegueira é uma doença. É uma doença, é uma fatalidade, é uma coisa que, por outro lado, também se ultrapassa porque o verbo ver passa a ser comum para os cegos, da mesma maneira que nós, embora obviamente não seja da mesma maneira de ver o mundo, mas tentei transformar também (apesar de ser uma história um pouco metafórica sobre a condição de Portugal e sobre a condição humana, por assim dizer), os cegos ali são reais no fundo e os problemas que lá estão são muito reais; por exemplo, nós pensamos sempre que um cego vai com os braços em frente, mas não, um cego avança com os joelhos porque é com as pernas que se cai, não é? Este foi o tipo de coisas que me disseram que me deixou muito satisfeito. Por outro lado, outras pessoas viram uma história de resistência, de amor, uma história de fidelidade, de amor filial também, de coragem, e interessava-me muito que fosse uma história de coragem.


Onde é que nasceu, Rui Cardoso Martins? Eu faço-lhe esta pergunta porque se percebe, lendo o seu livro, a influência que Lisboa exerce sobre si...

Eu de facto nasci no Alentejo, em Portalegre. Este é o meu segundo romance. O primeiro romance reflectia muito o Alentejo. Um romance sobre o fenómeno e o mistério do suicídio, que é um fenómeno que observei de perto quando lá fui estudante até aos 17 anos e chama-se “Se eu gostasse muito de morrer”. Mas a segunda parte da minha vida, fora as constantes viagens que fiz em trabalho, foi em Lisboa. E eu gosto muito de Lisboa. Tive alguma dificuldade de adaptação, mas é uma cidade luminosa, pacífica, onde se come bem, onde tenho bons amigos.


Havia aquela história de Lisboa nunca mais ter sido, por assim dizer, uma personagem de um romance, e apesar de não ser de Lisboa, ela tem aquele código genético, ao mesmo tempo luminoso e de catástrofe. Não só as enchentes periódicas – em 1967 morreram 700 pessoas aqui nos arredores –, mas também toda a questão do regresso do terramoto que está incluído no script do nosso historial. Lisboa está sempre um pouco à espera.
Estamos aqui no Parque das Nações e imagine que, se um dia, houver um violento terramoto, as pessoas terão imediatamente tendência, agora que sabem das ameaças de tsunami, de subir lá para cima para os Olivais. Isto faz parte já da formação do lisboeta e daqueles lisboetas por adopção, como eu.


Como é que surgiu o jornalismo na sua vida?

Foi natural. Entre os 16 e os 17 anos percebi que era isso que eu ia fazer. Fazer bom jornalismo, por assim dizer. Tive a sorte de entrar na Universidade Nova e orientei as coisas para o jornalismo. Depois, quando estava a acabar o curso, conheci o Público e eles escolheram-me. A minha primeira experiência profissional, portanto, foi logo com um jornal como o Público. Foi aí que comecei. Já tinha tido uma experiência na Rádio Comercial, já tinha escrito para jornais, mas realmente a sério foi no Público. Foi uma boa maneira de começar, eram tempos heróicos, onde realmente o jornalismo tinha muito trabalho, muita dedicação e havia também algum dinheiro para viajar. Hoje já é mais complicado, mas vai-se fazendo.


Diz-se que o jornalismo nos moldes em que é feito actualmente está condenado a desaparecer. Sente-se em perigo na pele de jornalista?

Não, eu acho que há muito mau jornalismo e há, infelizmente, muitos jornalistas que, por questões económicas, se vêm obrigados a transigir, isto é, a escrever o que lhes pedem e a procurar histórias que depois não são bem fundamentadas, e a alimentar coisas que não são bem feitas, mas isto em termos muito gerais. De qualquer modo acho que não está em perigo. Não sou um grande defensor do jornalismo como o anti-poder nem o quarto poder...

Agora que é fundamental, isso é, porque sem bons jornalistas, sem bons jornais, boas televisões e boas rádios, é impossível descodificar a realidade. É impossível principalmente desmascarar os corruptos que estão em toda a parte, e portanto, apesar de não funcionar como deve ser, sem nós, isto é, sem as pessoas que fazem o jornalismo – eu não estou propriamente no activo, dedico-me a outras coisas mas a qualquer momento sinto que sou capaz de fazer uma reportagem e isso acho muito importante, acho que não vai acabar. Agora, se acabarem os jornais por falta de dinheiro, acabam. Fica a Internet... Mas não é a mesma coisa.



Está certamente por dentro das muitas facetas da crise que atravessamos. Como é que olha para este turbilhão de acontecimentos? É uma crise económica e financeira ou algo mais do que isso?

Eu acho que é uma crise de mentalidade, quase. Porquê? Porque as pessoas se habituaram a consumir mais que produzem. É uma lei básica da vida. Nós, a Europa em geral e os Estados Unidos, habituaram-se nos últimos anos... muitas vezes explorando... Isto aqui parece quase conversa marxista mas, temos que ser rigorosos, explorando o trabalho, os recursos das nações, de outros continentes, habituámo-nos a ter dois, três carros, ou duas, três casas, sem no entanto produzirmos o suficiente para pagar isso. E recorrendo a créditos cada vez mais elaborados feitos por pessoas que ganhavam milhões para os constrir. Mas são castelos no ar, como sabe. Isto é, vamos todos pagar muito caro porque imagine só as pessoas que neste momento estão cheias de dívidas, não é? Como é que vão pagar? E agora que o desemprego vai aumentar, os bens vão aumentar, como é que se vai chegar a um equilíbrio? Vai ser muito complicado e vão ser anos muito difíceis para a nossa vida e para a Europa.



O Rui Cardoso Martins é jornalista, argumentista e sócio das Produções Fictícias, é autor do argumento e guião do filme Zona J. A pergunta é: sente essa necessidade de fazer várias coisas diferentes em domínios também eles diferentes?

É um pouco por acaso. Isto é, os livros, os dois romances que escrevi (e espero escrever outro em breve), nasceram de uma necessidade muito interna. Interna e interior. Comecei a acordar de manhã com uma inquietação um pouco ridícula, devo confessar, e também fui empurrado à parede por escritores que muito admiro e que me disseram “você vai ter que escrever um livro” e como foram muitos fiquei encostado à parede. A minha mulher a fazer planos (faleceu há um ano e meio), dizia que eu tinha que ter muito cuidado com isso porque sempre achou que para escrever apenas mais um livro mais valia estar quieto. De qualquer modo, fi-los, escrevi-os e descobri que era isso que queria fazer. Mas, primeiro, tenho que ganhar a vida, tenho dois filhos para alimentar, e gosto de jornalismo. Também gosto de escrever humor; nós quando começamos as Produções Fictícias escrevemos para o Herman José, depois começámos a Contra Informação, que ainda está no ar e que eu continuo a escrever. O cinema foram convites que me foram fazendo e que fui aceitando, é uma diversificação natural, foram-me convidando para isto e para aquilo e eu, ou por necessidade ou por gozo, ou por vontade de experimentar, fui aceitando.


Encontrei a sua página no Facebook. O que acha das redes sociais?

No Facebook eu tenho um papel triste, disseram-me para eu fazer, eu fiz e depois fui aceitando e aceito todos os amigos que se oferecem. Mas aquilo está cheio de coraçõezinhos, chocolatinhos, beijinhos... A certa altura comecei a pensar como é possível utilizar de forma passiva e pacífica o facebook. E a experiência é curiosa porque não o utilizo praticamente para nada a não ser para responder a algumas pessoas que me enviam mensagens e tenho muito gosto. Mas não é possível ter 500 amigos como eu tenho, não é? Os amigos que lá tenho são os amigos que conheço pessoalmente, a quem posso chamar amigos. Amigos virtuais. Outros conheço mais ou menos, são pessoas conhecidas, e a quem admiro o trabalho. Eu acho importante para quem precisa disso mas, eu não uso muito, de facto.


Que figuras históricas admira? Quais são as suas referências literárias?

Abraham Lincoln - o presidente dos Estados Unidos -, admiro o Albert Einstein, por aquilo que fez, o Galileu Galilei, pelo trabalho que fizeram na desconstrução dos mitos pseudo-científicos que estavam instalados não só na religião como também na ciência vigente. Nesse aspecto Charles Darwin é um dos meus grandes heróis também, porque realmente construiu histórias extraordinárias com base numa viagem e numa observação... à partida não sabia exactamente onde iria chegar, chega àquelas conclusões extraordinárias que agora ainda estão a ser confirmadas pela matemática. O criacionismo é um disparate completo. Charles Darwin é um dos meus heróis. Depois, gosto de muitos escritores, gosto de Shakespeare, gosto de Tolstoi, gosto dos russos em geral. Ainda hoje estive a escrever uma crónica – Fragmentos de Bravura, chamei-lhe eu –, com referências a Nicolai Gogol, outra do Pushkin e outra do Tolstoi precisamente, e a frescura... a maneira como eles descrevem cenas de violência, de batalha ou incidentes de confronto psicológico entre personagens continua a ser imbatível. Dostoievski também. Quando penso na Literatura penso muito neles. E depois há outros heróis que tenho assim mais, amigos também, pessoas que são capazes de inventar uma nova maneira de escrever e mantê-la, e crescer para o mundo inteiro, como o António Lobo Antunes.


Que análise faz dos últimos anos da Literatura em Portugal?

Eu acho que ainda não se pode fazer... acabei de falar noAntónio Lobo Antunes, acho que sim, acho que é o maior. Já tive a sorte até de ler o próximo livro dele, que ainda não saiu, e acho que vai ser mais um avanço. Ele tem-me dito e eu concordo que a nova geração que está a surgir com nomes melhores que os de gerações anteriores. Isto é, acho que estão a aparecer bons escritores portugueses, com força, sem grandes tiques do passado, com mais cuidado, com mais trabalho, e nesse aspecto acho que vai ser uma boa geração. Acredito mesmo nisso.



A seguir ao Deixem Passar o Homem Invisível o que é que se segue?

Estou neste momento ainda a acabar trabalhos pendentes, de outras coisas, do ramo alimentar, mas estou a pensar escrever um romance a partir deste ano que tem a ver também com uma viagem interior e uma viagem exterior, e tem a ver com uma virtude que eu, por várias questões da vida e do trabalho, dou muita importância, que é a resiliência, que é o homem saber ou não aguentar-se, estar à altura das circunstâncias, porque de facto acredito que há uma conspiração da realidade contra nós e nós temos que estar sempre a lidar com isso. Há uma conspiração da realidade, podem falar que é um destino, podem dizer que é uma vontade de Deus, para mim é apenas um conjunto aleatório de factos que às vezes fazem muito sentido e que nos deixam perturbados mas, eu escrevo um pouco sempre sobre isso, sobre como saber lidar com os choques da vida.

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