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Folheando com... Maria Teresa Horta


Maria Teresa Horta

2011-08-01

Ficcionista, dramaturga, poetisa e jornalista de profissão, muitos livros publicados, vários prémios e figura maior da nossa poesia. As Luzes de Leonor – uma obra sobre a época pombalina e sobre a cultura portuguesa –, é um romance belíssimo que combina narrativa histórica, espírito e poesia.

Se preferir ouvir a entrevista, clique aqui.

Maria Teresa Horta, muito obrigado por nos conceder esta entrevista.

Na página 155 pode ler-se: Porque, mesmo encarcerada por Pombal num convento, não deixa Leonor de Almeida de sonhar ser ela a mudança neste Portugal de Camões, mas também da ignorância e da superstição, do negrume onde a razão não encontra o seu espaço.

Maria Teresa Horta, à medida que fui lendo o seu livro As Luzes de Leonor, lançado recentemente pela Editora Dom Quixote, fui ficando com a sensação de que há muitos traços comuns entre a autora e Leonor de Almeida: na cultura, na poesia, na determinação, na irreverência, na desobediência aos padrões morais dominantes... Concorda?

Concordo, acho que sim. Primeiro, eu considero que todos os livros são um pouco autobiográficos, mesmo que as pessoas pensem que não se puseram, tenham tentado não se por, que não é este o caso. Até nem é este o caso, porque eu penso que é sempre autobiográfico. Mas não é este o caso porque ela é minha avó. Ela era trisavó do pai da minha mãe. E eu conheço a figura da Leonor, desde pequenina, desde que me conheço a mim. O meu pai tinha uma grande biblioteca e eu nasci em casa, e embora tenha nascido no quarto dos meus pais eu acho que nasci na biblioteca. É uma paixão muito grande, é um privilégio nascer-se numa casa que tem uma biblioteca. Mas a verdade é que na biblioteca do meu pai só havia homens. E isso era um pouco estranho para mim, menina que aprende a ler sozinha para conseguir ler a biblioteca. Nessa altura só se ensinava a ler a meninos e a meninas aos sete anos, eu acabei por aprender sozinha a ler com a ajuda da minha avó, aqui e ali. Quando eu olho e vejo em cima da mesa da minha mãe um livro – "O Marquês da Avelha e Bulama" – que ela acabou por me dar, quando eu comecei a escrever o livro sobre a Leonor de Almeida, quando eu vejo aquela fotografia e a minha mãe me dizia "esta é a tua avó... era uma poetisa muito conhecia, ela era escritora”, para mim nasceu talvez o meu primeiro desejo. Se ela é escritora e era minha avó, eu poderei ser escritora, foi logo o que pensei. Sempre quis escrever, achava que era tão espantoso escrever um livro e então dizia “eu vou escrever um livro”. E a Leonor foi sempre para mim a avó que escrevia e que eu admirava porque ela era escritora e eu queria escrever. E isto acompanhou-me toda a minha vida. Toda. Portanto, quando me nasce a ideia de tirar da poeira dos séculos as mulheres portuguesas cultas e espantosas, que existiram e que estavam completamente desconhecidas por serem mulheres, é um projecto muito grande e que eu já abandonei, até porque levei treze anos a fazer uma mulher... A primeira mulher delas todas foi a Leonor de Almeida porque era aquela que para mim era um farol, digamos assim. Eu nunca disse “eu vou escrever porque aquela minha avó escrevia” mas porque ela escrevendo me abriu as portas e me fez pensar que afinal também havia mulheres a escrever. É por isso que você me encontra lá... porque você encontra a minha avó. Quando o meu pai dizia: «A quem é que ela sai, a quem é que tu sais?» Afinal eu saio à Leonor, porque ela tem realmente determinação. Eu sou uma mulher muito determinada, muitíssimo, é talvez a minha primeira característica, ser desobediente e determinada. E a Leonor era essas duas coisas: desobediente e determinada. Mas ela não sabia, Leonor é uma mulher que faz as coisas mas parece até que nem faz. Ou seja, a Leonor tenta cumprir o estereótipo e depois não é capaz e desobedece permanentemente. Mas as pegadas que a Leonor deixa de propósito para nós a seguirmos, porque ela fala muito da posterioridade – essa é a primeira palavra, ela sempre acreditou que havia de chegar muito mais longe que o mundo dela –, eu penso que debaixo dessas pegadas há outra Leonor. E essa Leonor é a Leonor desobediente, a Leonor teimosa, a Leonor vertiginosa, a Leonor que você encontra. Depois você diz que encontra características minhas. Encontra sim, encontra características minhas. Eu sinto-me muito reflectida na Leonor, digamos. Portanto, há a Teresa Horta lá. Até porque há a poetisa Teresa Horta lá. Até porque eu não calo o poeta dentro de mim quando faço ficção.

A Maria Teresa Horta afirmou que demorou 13 anos a escrever o livro? Foi pelo facto de Leonor de Almeida ser sua avó em 5º grau?

Eu levei tanto tempo porque quando se pega nesta mulher as pessoas vão encontrando camadas sob camadas, debaixo de camadas. E eu queria fazer uma coisa: queria pegar nela e trazê-la até aos nossos dias. Primeiro queria situá-la na época dela, e ela não ser apenas uma personagem de papel... Personagem literária de papel, eu queria que ela tivesse carne e osso, queria que fosse uma mulher. E depois ela tinha uma actualidade tão espantosa que eu quis trazê-la até aos nossos dias situando-a na época dela. Ao situá-la na época dela, para ela parecer real – de carne e osso –, eu tive que ir à procura da época dela. Século XVIII. Tive que ler, fazer investigação. Ninguém conhecia a Marquesa de Alorna quando eu comecei a fazer esta investigação há treze anos, quase catorze, ia fazer catorze anos em Outubro. Quase ninguém mesmo. Eu lembro-me de haver escritores até que me perguntavam: «Mas estás a escrever o quê? A história de quem? Marquesa de Alorna? Quem?» A pergunta que me acompanhou nos primeiros três anos era: Quem? Leonor era uma pessoa que estava completamente esquecida nessa altura. Eu tive que a situar. Repare que há um painel muito grande de mulheres neste livro e até de homens, eu tive portanto que ir atrás do Bedford, da Dona Maria, da Carlota Joaquina, do D. João VI, do Príncipe D. José, do Marquês de Pombal, do Pina Manique, e isto leva anos a fazer. Investigar quem é fulano... Eu fiz mapas. Tenho mapas feitos, por exemplo do Pina Manique a espiar toda a gente. Espiava a Dona Maria, espiava o Rei, espiava o Príncipe, espiava toda a gente. Pina Manique espiava o próprio D. João VI. E eu fui atrás deles todos. Depois fui atrás de outra coisa. Não é só as pessoas que fazem uma época... Que transportes? Fui ler transportes. Que comida? Fui ver o que comiam, fui atrás da comida, fui atrás dos doces da época porque há conventos. Ela estava dentro de um convento e as freiras faziam doces. Nós temos doces conventuais hoje que são os nossos melhores doces e os mais portugueses. Fui atrás das freiras, fui atrás dos conventos, fui atrás dos padres, dos poetas da época, voltei a ler tudo e depois quis saber dos cheiros, que perfumes é que havia, que plantas, que flores, quis encher o livro de cor, quis encher o livro de som. Quando no outro dia a Paula dizia no Câmara Clara “ouve-se o sussurrar das saias”, isto é um grande elogio, porque eu realmente quis que se ouvisse o sussurrar das saias. Para escrever isto é preciso muito ano. É preciso uma paixão, porque eu depois apaixonei-me pela própria tarefa. Zanguei-me com a Leonor três vezes. Disse “não continuo”. Claro que depois também tive alguém com quem podia conversar, e que tinha a mesma paixão, que é a professora Vanda Anastácio, que aparece ao 10º ano desta minha epopeia, digamos assim. Porque se o livro é uma epopeia, que há quem diga que sim, há outra epopeia que é escrever a epopeia. E ela ajudou-me imenso, ela tinha a mesma paixão. Nós só falávamos da Leonor quando estávamos juntas. Íamos as duas almoçar, íamos para aqui, ainda fui à Torre do Tombo com ela. Eu passei meio ano da minha vida na Torre do Tombo, meio ano quer dizer manhã sem almoçar até fechar a porta da Torre. Eu li todos os livros da época, eu voltei a poetas da época: ao Bingre, à Catarina de Lencastre, fui atrás de mulheres que as pessoas hoje não conhecem. E isto dá treze anos numa obra. Não sei se é porque ela era minha avó, se eu depois achei características na minha mãe que achei imensa graça. Por exemplo, a mania das doenças que tinham as duas. Repare que a Leonor morre quase aos noventa anos. Tinha oitenta e nove. Numa época em que não há antibióticos, em que não há nada. Ela, com uma saúde de ferro, morre de idade. Oitenta anos no século XIX não são oitenta anos de hoje. E ela aos catorze anos dizia que estava nas vascas da morte, como era o termo. “Estou nas vascas da morte”. Então escrevia ao Rei, fazia poemas para o Rei a deixar sair para ver o pai uma vez. Uma hipocondríaca – e a minha mãe é uma hipocondríaca –, e eu pensava “mas a quem é que ela sairá?”, porque o meu filho também é um pouco, os meus netos... Eu encontrei muitas coisas comuns na família. É muito curioso, foi uma aventura.

 

Na página 161 podemos ler: De súbito, porém, alguém sai da sombra de um pesado cortinado de veludo, toma-o por um braço e diz-lhe: «V.Ex.ª não tem mais nada que fazer aqui!» Pombal estaca e olha sem pasmo o cardeal da Cunha, que ousa falar-lhe naquele modo desabrido. Mas já outros fidalgos se aproximam com as mãos nos punhos das espadas. Rodeando-o, a fazê-lo vacilar. Cheio de regozijo expulsam-no, fazendo-o recuar, atabalhoadamente, a caminho da rua. Só então Sebastião José de Carvalho e Melo se dá conta de que o rei morrera.

Não há dúvida de que o Marquês de Pombal é uma das figuras mais controversas da nossa história. O que pensa dele, Maria Teresa Horta?

 

É! Pergunta complicada, essa. Eu não gosto do Marquês de Pombal, e sei que isto é politicamente incorrecto, não gostar do Marquês do Pombal, hoje em dia. Continuo a dizer que se ele é das luzes eu acho que para luz ele tinha poucas. Ou se tinha não deixava de ser um ditador... Eu não gosto de ditadores. Déspotas, como diria a Leonor, e eu não gosto de déspotas. E mesmo com as luzes, que eu acho que eram bastante enegrecidas. Claro que tem coisas que temos que reconhecer, que são excepcionais, mas tem também coisas terríveis. Eu não gosto de déspotas, eu não gosto do Marquês. E depois tenho que confessar que a minha família foi muito destruída pelo Marquês e sobretudo à maneira da Idade Média. Com grande negrume. Aquilo que se fez aos Marqueses de Távora, naquele cadafalso, é uma coisa que envergonha Portugal. Agora, se você me perguntar se ele não fez coisas boas... Fez! Mas eu de uma maneira geral, no cômputo final, não gosto dele. Sou sincera. Sei que isto não é politicamente correcto, mas é a verdade. Aí tenho do meu lado o Camilo de Castelo Branco, que odiava o Marquês de Pombal. Eu não direi tanto, mas não gosto dele.

 

Há alguma similitude entre o enclausuramento de Leonor de Almeida e a censura e perseguição que a Maria Teresa Horta sentiu no período pré-25 de Abril?

 

Eu acho que são coisas completamente diferentes, embora tenha a mesma origem. Que é falta de liberdade, ausência de liberdade, a liberdade de expressão também, e não só, a liberdade de uma maneira geral, e o ser-se mulher no Portugal de então e no Portugal antes do 25 de Abril. Porque quando o Marquês de Pombal, que tinha a mania de encarcerar as mulheres – quando não gostava de uma mulher, metia-a num convento –, e ele fez isso, já nem direi à Leonor, mas à mãe da Leonor. Em relação à Leonor é mais escandaloso ainda. A ela, à irmã e todas as primas dela, também foram encarceradas noutro convento, que são as filhas dos Atouguia, em que a mãe, a Mariana Atouguia, era irmã da mãe. E desapareceram mesmo. A única que realmente sobrevive é a Leonor. Porque ele deu mesmo cabo de tudo o que era família. Porque é que aquelas mulheres que não fizeram absolutamente nada são encarceradas? Porque são mulheres. Ele já tinha matado a Marquesa de Távora, para ele chegava-lhe... Para ele as mulheres não têm dimensão. Porque a Marquesa de Távora é morta sem ser julgada. Porque era mulher não foi julgada. Nunca lhe fizeram uma única pergunta. Não lhe perguntaram sequer se ela era ou não culpada. Se se considerava culpada, se tinha feito alguma coisa. Ela foi condenada à morte, é o primeiro dos Távoras a ser morto. E não teve julgamento porque era mulher. Porque os outros, embora o julgamento, ou digamos, um pseudo-julgamento porque eles já estavam condenados de princípio, mas mesmo assim tiveram os pseudo-advogados – umas pessoas que ainda faziam de conta que haveria hipóteses –, e disseram que não, não eram realmente culpados. Mas a Marquesa de Távora, porque era uma mulher, foi condenada à morte e nem sequer uma pergunta lhe fizeram. Eu penso que a Leonor, porque era mulher, teve um determinado tratamento, pegam nela e podiam ter dado cabo dela. Tinha tudo para dar mal. Ela entra aos oito anos no convento e sai aos vinte e sete. Naquela altura era para tia. Era uma mulher que estava arrumada. A irmã dela desapareceu. A Maria desapareceu, aceitou o casamento que o pai lhe deu, o marido era realmente um horror, havia muita violência doméstica e ela foi morta. A Leonor é aquela luz, estamos a falar dela hoje. Mas podiam-na ter destruído. Havia a liberdade de destruir, tratava-se as mulheres de outra maneira que não os homens. Agora você pode-me dizer: «Está bem, mas também não foram mortas.» Não é bem assim, houve muitos homens da família que não foram mortos, que estiveram fora disso. Porque é que uma menina de oito anos teve que ser enclausurada? Porque é que um menino de três anos foi enclausurado? O irmão dela não foi, por exemplo. O Marquês de Pombal tomou conta dele. O irmão da Leonor tinha dois anos – o Pedro – e o Marquês de Pombal tomou conta dele, até quis que ele casasse com a filha. E aí ele, com 15 anos, disse aquilo que hoje um menino com quinze anos não diria, porque quinze anos hoje é diferente. Quinze anos era um homem naquela altura. Disse “eu nunca casaria com o filho do algoz da minha família”. E o Marquês de Pombal que o tinha colocado no Colégio dos nobres – ele foi o primeiro nome da lista do Colégio dos nobres –, tirou-o e mandou-o para a Universidade de Coimbra. Foi um castigo. Não era isso que ele queria, ele queria a carreira militar e portanto, até à morte do Marquês, ele ficou na Universidade de Coimbra. Mas repare, ele toma conta daquele menino. Porquê meter as meninas no convento? Porque eram mulheres, pura e simplesmente. Ele desfazia-se das mulheres metendo-as num convento. Eu tenho outra avó, que é a Teresa Margarida Silva Horta, considerada a primeira romancista da literatura no Brasil – ela nasceu no Brasil –, que veio para Portugal; era mais velha que a Leonor, e o Marquês de Pombal meteu-a no convento até à morte dele. Porquê? Porque ela escrevia coisas que ele não gostava... O Marquês de Pombal é uma figura de que eu não gosto muito. As minhas avós foram todas metidas no convento pelo Marquês. E eu iria também para o convento, não tenho dúvidas. A Teresa Horta de antes do fascismo, estava num país fascista sem liberdade, e não é a mesma coisa não ser mulher ou homem, porque a verdade é que eu apanhei uma tareia na rua, onde três homens me esperaram à noite, me deitaram no chão e disseram: “isto é para aprenderes a não escreveres como escreves”. Aqui há uma diferença muito grande no tratamento de uma mulher. Pode-se pegar nessa mulher, pode-se deitar ao chão, pode-se espancar, eu fui parar ao hospital e isto tudo podia-se fazer porque eu era mulher. Há um tratamento diferente sim, dos fascistas e da censura em cima das coisas das mulheres. As mulheres eram mais censuradas ainda porque, por exemplo, escrever uma poesia erótica admitia-se mais a um homem do que se admite a uma mulher. A poesia dele passava mais na censura do que passava a minha, por exemplo. A minha era sempre cortada, a do David de vez em quando passava. E nisto vê-se a diferença, aliás eu falei muitas vezes disso com o David e ele dizia “realmente”; é completamente diferente, mesmo o olhar da censura e da falta de liberdade que há em cima de um escritor ou em cima dos portugueses, de uma maneira geral, mas realmente há uma discriminação maior, porque à mulher não lhe é permitido fazer determinadas coisas. Eles achavam menos escandaloso se fosse um homem a escrever um poema erótico. Se fosse uma mulher era muito diferente.

 

Faz sentido falar de género literário em relação ao livro As Luzes de Leonor?

 

Faz todo o sentido. Eu ainda hoje estava a dizer “quando agora me tornarem a perguntar – porque sou defensora de que há uma escrita masculina e há uma escrita feminina, tal como a Virgínia Wolf já era –, então mas diz lá um livro de uma mulher” e eu digo: “As Luzes de Leonor”. Eu já poderia dizer “A Paixão Segundo Constança H”, ou “A Ema”, mas agora digo “As Luzes de Leonor”. É um livro claramente escrito para uma mulher. Porque é um livro de pormenor. É o livro da vivência feminina. É um livro que se debruça, é um livro que tem uma escrita de uma sensibilidade, de uma asa, de uma procura do pormenor que a vida obriga, entre aspas, a mulher a ter. Em que nós estamos habituadas de pequeninas a ter, ao olhar à coisa, ao cheiro, ao odor, à má disposição das pessoas à nossa roda, à doença, à saúde, o parto, a nossa ligação à natureza, que é completamente diferente. E das duas uma, ou o poeta, o escritor, assim como qualquer artista, coloca tudo o que mais de autenticidade tem ou é um farsante. E isto é tudo uma vigarice. Porque se nós colocamos tudo aquilo que nós temos de mais autêntico por dentro de nós naquilo que escrevemos, se eu fui educada de uma maneira, se eu tenho uma vida determinada porque sou mulher, se eu tenho um corpo diferente, se eu tenho uma sexualidade diferente, e tudo isso aceitam, porque eu digo “a mulher é diferente do homem” e toda a gente me diz “é”, está aceite; quando eu digo “a mulher tem uma sexualidade diferente”, “tem, pronto, já está aceite; quando eu digo “a mulher escreve diferente”, ai que escândalo! “Não”, dizem os homens e dizem as mulheres. Porquê? Porque o parâmetro que se tem na literatura é masculino. O grande escritor é homem. A mulher escreve, qual é o parâmetro que a mulher tem? Ela revê-se na literatura, e quem é a literatura? Masculina, sobretudo. Durante anos e anos foi isso. Como é que publicavam? Com nome masculino. Era a única maneira. Porque ninguém lia um original de uma mulher. Portanto elas tinham que usar o termo masculino. Porque a literatura era uma coisa da pertença dos homens. E ainda há espaços da literatura a que só os homens têm acesso como a escrita do sexo, a escrita da sexualidade, a escrita do erotismo. E isto durante séculos e séculos. As mulheres quando chegam à escrita têm que ser o quê? Tão boas quanto o homem. E quantas vezes eu ouvi isto? N vezes na minha vida. Quando eu digo poetisa e as pessoas dizem “não, poeta. Você é tão boa que parece um homem”, ou seja, você, embora na língua Portuguesa sempre houvesse a palavra poetisa. O ser poeta é quando nós somos bons poetas. Eu também sou tão boa poetisa, quer dizer, eu sou poeta. Eu sempre digo, eu não mudei de sexo, eu sou poetisa, é a minha língua. Permite isto, que as francesas coitadas, andam desvairadas há anos a tentar pôr o feminino nas profissões, pôr o feminino nas artes; em Portugal há isto e eu acho que sou poeta? Não, não sou. E a Natália sempre me disse “Teresa, tenha cuidado com isso porque na realidade nós somos mulheres, nós somos poetisas”. Portanto, eu acho que há uma literatura feminina. Porque é uma literatura... Você sabe o que é ser mulher e o que é ser homem? O que é fruto da nossa educação de séculos, ou o que é aquilo que se descobre hoje em dia e que o Damásio diz que há partes do cérebro do mulher que são diferentes, que diz respeito à sensibilidade... Que hoje se começa a saber que não é só a educação. E eu não percebo porque é que causa escândalo. Eu não digo que a mulher escreve melhor, eu digo que escreve diferente. E escreve tão diferente que eu escrevi a Leonor. E não é possível um homem ter escrito aquilo. Não é possível um homem ter feito aqueles oito partos daquela maneira. Nós temos um contacto com a natureza, a mulher, que o homem não tem. Nós estamos muito mais perto da natureza, para o bem e para o mal. Para as marés, para as luas, para tudo isso. E os partos têm a ver com tudo isso. Com as nossas marés, com as marés femininas da menstruação, com tudo isso. Nós somos tão diferentes dos homens. Não somos melhor nem pior, somos diferentes e escrevemos diferente, pintamos diferente. A Paula Rego... Não vejo nenhum Paulo Rego, não há, a fazer aquelas meninas, a escrever aquelas histórias na pintura. Não existe. É completamente diferente. Agora, se você me pergunta, há homens que têm uma sensibilidade determinada e que o seu lado feminino é mais desenvolvido e que escrevem, parece uma escrita feminina. Há. E há mulheres que fazem exactamente uma escrita masculina, que vão atrás do seu lado masculino, que é muito desenvolvido. Há. E se você perguntar, “o que é que você prefere num homem, a escrita masculina ou a escrita feminina?” A escrita masculina. Porque aí há o outro lado que eu não tenho. Aí há o que me seduz. O que me seduz na escrita masculina, é quando ela é masculina. Boa e masculina. Porque é o lado que eu tenho menos desenvolvido, é o lado que me seduz. E você pergunta: «E nos filmes?» A mesma coisa. O filme da minha vida é “A Dama de Xangai” do Orson Wells. “A Dama de Xangai” é o filme mais misógino que há à superfície da terra, se calhar as pessoas não estavam nada à espera, mas aquilo seduz-me imenso. Não é a misoginia dele que me seduz, ou talvez seja também, mas o que eu acho espantoso é aquela maneira masculina de observar a mulher, de falar dos espelhos em que a mulher é reflectida para os olhares masculinos. É ver como nós podemos ser vistas como perversas, aquilo que em nós, afinal, é naturalmente de mulher quando contrariamos o estereótipo masculino que a sociedade masculina nos impôs. Isto é o que mais me seduz na literatura, no cinema masculino, na literatura masculina, nas excelentes séries de televisão masculinas. Eu não gosto de homens femininos, gosto de homens viris e masculinos. Não gosto de machistas.

 

Com o lançamento As Luzes de Leonor conta já com mais de vinte livros, sendo a maioria de poesia. Encarou a poesia da mesma forma ao longo dos anos, ou houve motivos especiais que a fizeram mudar?

 

Eu sou a minha poesia e eu fui mudando, com o tempo, com a vida, com as pessoas, com as leituras. Fui mudando, e a minha poesia foi mudando. Mas basicamente, a minha poesia é a música, é a musicalidade, é voo, é asa. É aquilo que eu tenho dentro de mim. Eu transporto comigo a poesia. Eu costumo dizer e é verdade, eu sou a minha poesia. Portanto, eu não sei como é viver sem poesia. Eu ao longo da escrita da Leonor, nestes treze anos, eu publiquei quatro livros de poesia. Publiquei o “Só de Amor”, publiquei “A Inquietude”, publiquei “As Feiticeiras”, que é um livro bilingue publicado em França, que ainda nem foi publicado cá, e publiquei “Os Problemas do Brasil”. Mas não publiquei nada de ficção. Publiquei quatro livros porque a poesia vai aparecendo. E tenho um livro pronto, foram poemas que eu escrevi sobre a Leonor durante a escrita da Leonor e que eu queria ter publicado ao mesmo tempo, e que o editor acabou por dar voltas e voltas e acabou por não publicar. Eu penso que a poetisa é a mesma, a poesia é a mesma, mas a mulher que eu sou foi mudando. E portanto a poesia que eu tenho dentro de mim acaba por ser a mesma... Por exemplo, eu olho para o meu primeiro livro e não digo “eu não tenho nada a ver com isto”. Eu tenho tudo a ver com aquilo. Eu tenho tudo a ver com os meus primeiros livros. Eu quando fiz “A Poesia Reunida” não mudei nada. Absolutamente nada, praticamente. Porque respeitei aquela época. Era a Teresa Horta daquela época. Eu tenho a ver com aquilo tudo. Aquilo é o meu passado. Aquilo é a minha vida.

 

Não há portanto um livro seu que considere mal amado?

 

Não. Por mim não. Gosto de todos. Ainda hoje me apetecia voltar à Leonor e dizer “não acabei”. Ainda quero arranjar melhor, burilar melhor, polir melhor. Para mim a Leonor é um cristal imenso, que tem tantas facetas, que dá aquela falsa ideia de ser um livro dividido. Para mim é uno, onde eu vou voando lá dentro. Isto é um projecto uno, embora você possa dizer-me: «Não, você não faz um capítulo de cima abaixo, você vai mudar as regras do romance, não é... aquilo não tem a ver com nada... Aquilo tem tudo. Qual é o género, tem poesia, tem cartas, tem isto, tem aquilo». É verdade. Mas para mim é uma coisa única, e esta coisa única tem a ver com a minha poesia única, embora seja aqui um livro, outro ali. Agora você diz: «Está satisfeita com todos?» Acho que ninguém está satisfeito quando escreve um livro. Cada vez que escrevo um livro sou incapaz de o ler depois. Porque se me ponho a ler o livro sofro imenso e digo “que horror, não podia ser aqui, esta palavra, não podia ser...” Eu quero sempre mais para as coisas que escrevo. Tudo pode ser incompleto. Agora eu tenho é que me respeitar a mim na altura em que publiquei o livro. E então, passado vinte anos, quando eu leio um livro não devo dizer “que horror, esta palavra aqui ou este poema ali”, não. Diria, ou digo, eu hoje faria diferente, não digo que hoje faria melhor. Hoje faria diferente. Provavelmente era melhor mas eu tenho que me respeitar na altura em que o fiz. Eu dei o melhor. Quando publico um livro, é o melhor que eu sei dar.

 

É isso. É o contexto da época.

 

É o contexto da época, aquela que eu sou naquela época. Se não é melhor é porque eu naquela altura não podia, não sabia, não conseguia dar melhor. Como a Leonor. Se calhar daqui a uns anos eu faria melhor. Mas eu dou tudo o que tenho. Agora você diz: «Está satisfeita?» Nunca estou, nunca.

Disse-nos na primeira entrevista que lhe fiz há cerca de dois anos que Simone de Beauvoir mudou o rumo da sua vida. O fio da conversa alterou-se e eu acabei por não lhe perguntar porquê.

 

Desde muito pequena, ao longo de toda a minha vida, contestei muito a situação da mulher, embora de uma maneira, digamos, infantil ou primária. Era ver os primos fazer umas coisas e as primas não poderem fazer, os meus irmãos fazerem umas coisas e nós irmãs não podermos fazer. Os homens tinham uma posição, as mulheres tinham outra, eles iam para as faculdades e elas não... Sempre me meteu muita confusão. O meu pai tinha só homens na biblioteca. Mas afinal havia mulheres que escreviam. E tinha uma avó, mãe do meu pai, que vivia connosco e que era sufragista. Embora ela nunca o tivesse dito, eu ia às reuniões sufragistas com ela, pequenina, ela dizia ao meu pai que ia para casa de amigas lanchar; na realidade elas lanchavam, iam à Suíça, compravam os bolos, iam com o chapeuzinho e tiravam, e eu ouvia coisas que depois não faziam muito sentido mas que ficavam cá. A verdade é que a minha avó tinha respostas diferentes para mim. Eu ouvia dizer muitas vezes “as sufragistas são umas doidas” lá em casa. E a minha avó dizia sempre: «Não Teresinha, não são, são mulheres que lutam para tu teres uma vida diferente e melhor.» Eu sempre ouvi isto. Sempre. Mas estava metida numa família tradicional, católica, que cumpria todas as tradições, todos os estereótipos. E eu era um ser um pouco diferente; eu lembro-me do meu pai muitas vezes dizer: «Ela é estranha.» E a minha mãe dizia: «Não, é diferente.» E ele dizia: «Não, é estranha, esta menina é estranha.» E de repente, depois de ter lido a biblioteca toda do meu pai às escondidas, descobri, já com quinze anos, a biblioteca de pais de algumas das minhas amigas. Elas traziam os livros para ler às escondidas e eu levava os livros para os ler às escondidas. E entre eles o que é que veio? “Deuxième Sexe” de Simone de Beauvoir, em francês. Ela traz-me aquilo, eu li em francês. E eu li aquilo com dicionário ao lado, o meu francês era o francês do liceu e portanto havia coisas que eu não percebi que a Simone dizia, e que eu ficava horas naquilo a tentar entender. Havia coisas que vinham ao meu encontro... E abriu-me o espaço. De repente, tudo aquilo que eu não sabia o que era, aquela insatisfação, aquela coisa estranha de achar que havia uma dissonância na sociedade, que havia qualquer coisa que não colava, porque as mulheres e os homens tinham vidas completamente diferentes; de repente, aquela mulher, aquela escritora, ainda por cima uma mulher escritora, vinha explicar-me, desde o princípio do mundo o que era aquilo. E vinha dizer-me que eu tinha razão. Eu nunca quis deixar de ser mulher, achei sempre que ser mulher é uma coisa lindíssima. Não era isso que eu queria. Aquilo que eu queria entender era porque é que eu por ser mulher era tratada de um modo diferente. Porque é que as mulheres não tinham os direitos que tinham os homens. E isto ia-se avolumando cada vez mais. E de repente a Simone diz-me que eu tenho razão. E dá-me o apoio necessário para eu ir para a frente. Dá-me a explicação. E mais, a partir dessa altura eu podia citar alguém. Ainda por cima o meu pai tinha a Simone de Beauvoir na estante. A partir de uma certa altura – eu teria dezasseis ou dezassete anos –, o meu pai compra a primeira Simone. O meu pai era muito católico e por isso tinha muitos livros de existencialistas católicos. O Merleau-Ponty, os “Mandarins” de Simone de Beauvoir, todos eles li na biblioteca do meu pai. Eu conheço a Simone com quinze, e a partir dos dezassete vejo a Simone na estante do meu pai. Foi a primeira mulher e a única, nunca mais houve nenhuma. E de cada vez que o meu pai discutia comigo eu falava-lhe da Simone. E isto deu-me uma força e explicou-me aquilo que eu não estava a perceber e não entendia o que era. Ela veio dar-me a história da mulher, que eu não tinha tido ainda hipótese de entender. E ela dá-me essa explicação. E eu disse-lhe isso a ela, eu fiz-lhe uma entrevista, eu conheço as mulheres da minha vida, sou uma privilegiada. À Beauvoir. Fiz entrevistas a todas elas, à Marguerite Duras, que mudou a minha escrita de ficção, que me ensinou que poesia, poeta e ficcionista, um poeta não deve prender o poeta quando faz a ficção. Porque a coisa melhor que se pode dizer a um escritor, como ela me disse, e mais tarde também me disse o Paul Auster e muitos homens como o Gunter Grass até, o melhor elogio que se pode fazer a um ficcionista é “a sua escrita é poética”. E portanto um poeta tem esse privilégio, quando vai fazer ficção não tem que prender na cave o poeta que é, amordaçá-lo e pôr-lhe correntes, como eu conheço muitos e em Portugal. Tem mais é que o deixar voar na escrita. E a Simone ensina-me o que é a vida, e a Duras ensina-me o que é a escrita. Fiz entrevistas a todas elas. E isso é realmente um privilégio. E já tem a minha resposta de porque é que a Beauvoir mudou a minha vida.

 

Uma última pergunta: como é que olha para o mundo de hoje, em geral, e para o caso português, em particular, na pele de jornalista?


Pois... E de poetisa e de escritora e de feminista. O mundo de hoje é um mundo muito complexo, porque é um mundo muito desencantado. As pessoas olham com um olhar muito desencantado e eu tenho muita dificuldade em olhar para um olhar desencantado. É uma grande tendência para encontrar algo positivo sempre e ir atrás da luta. Eu tenho um passado de luta muito grande. Não só antifascista como tenho um passado de luta feminina. E um lutador nunca pode cair no desânimo. Eu sou tudo menos uma mulher depressiva. Não sou. A primeira coisa que eu faço ao chegar ao fundo é vir logo cá acima, nem dou por ter estado no fundo. Tenho uma grande tendência em tentar entender aquilo que de vez enquanto me é difícil de perceber. E ao mesmo tempo que digo “que época horrível, que época estranha”, onde os valores não existem, onde o ideal praticamente está diluído no meio de uma grande violência, onde as pessoas já não acreditam em nada, onde os valores são os valores do dinheiro, disto e daquilo, mas depois eu acho que os poetas continuam neste mundo. E eu acredito que enquanto o poeta existir no mundo, o mundo está salvo. O poeta quer dizer o sonho. O poeta é o alquimista do futuro. E é o alquimista porquê? Porque tudo o que o poeta toca, não transforma em ouro, não, transforma em sonho. E enquanto o homem e a mulher sonharem, é possível viver. E isto não é só o que o Egídio Gonçalves dizia. É como poeta. Não, é verdade. O poeta transforma o mundo. Enquanto o homem tiver no seu seio e a mulher tiver no seio da sociedade o poeta, enquanto ele for um ser que existe, enquanto houver asa, enquanto houver possibilidade de se sonhar, há possibilidade de sobrevivência. Mas tem que se ter um grande cuidado. Agora você pergunta-me: «Como é que vê o mundo?» Com um olhar que eu considero sobre o perigo. Há um grande perigo que pesa neste momento sobre a humanidade. Há o grande perigo de realmente o grande poeta desaparecer. Do sonho, do ideal, do sentido da coerência, da dignidade, dos valores não serem só os valores monetários. Há valores muito mais importantes dentro de nós que temos que manter. Porque senão isto pode-se transformar num grande circo romano, onde os mais fracos são completamente aniquilados permanentemente pelos mais fortes. E isso é um grande perigo. Acho que a sociedade está neste momento numa época em que vive no perigo de uma grande fissura, em que na realidade os valores e o ideal estão a desaparecer... É preciso agarrar isso. Agora se você diz “completamente desencantada”, de maneira nenhuma, não sou uma mulher desencantada, para mim existe esperança, porque se não existisse esperança eu já não existia. Não, não pode ser. Nós todos temos que ter esperança. Faz parte do ser humano. Porque senão não é possível viver. Nós vivemos porque acreditamos.

 

E em relação à literatura?

 

Eu acho que a literatura nunca foi tão diversificada, tão boa, tão bonita, tão fantástica, tão maravilhosa. Eu sou completamente o contrário a que só os clássicos é que são bons. Eu acho que todos nós temos que passar pelos clássicos. Como é que era se não houvesse Rilke? Nós somos o produto de tudo isso. Eu não cheguei aqui e de repente sou poetisa. Não, não, sou poetisa porque existiram todos os poetas para trás. Porque existiu tudo para trás. Agora se você me diz “mas hoje em dia é um horror”. Não, eu não considero que os light sejam literatura. Portanto eu arrumo. Não há light. Para mim não existe. Não é literatura, é uma escrita. Não são escritores, não pertence à literatura. No outro dia uma senhora que faz esse tipo de literatura disse-me: «A Maria Teresa é de outro campeonato.» Ora bem, não podemos ver a literatura como campeonato... uma é da primeira divisão, outra é da terceira ou quarta. Para mim eles não são literatura. Portanto, a escrita, hoje em dia em todo o mundo, é uma coisa fabulosa porque já não temos tantas regras que nos prendam. Repare, a poesia hoje é muito mais voada, muito maior, com mais possibilidade de ir mais longe. Voar mais. Nada é proibido, as pessoas podem tentar romper e ir mais longe e isso só se pode fazer porque há o Camões, porque há a Florbela, por mais que se queira continuar a dizer que a Florbela é uma poetisa de segunda ordem, que não era. Isso é preconceito ainda, machismo ainda, misoginia ainda em cima da escrita das mulheres. Não era, era uma escritora de primeira grandeza. Mas porque houve Florbela, porque houve Rilke, porque houve Proust, porque houve Simone, porque houve toda essa gente espantosa atrás de nós, a Louise Labé, a Sylvia Plath, a Emily Dickinson, como é que é possível viver, escrever sem estas pessoas atrás? Não é possível. Agora que há poetas espantosos em Portugal neste momento por exemplo, há, porque se há coisa em que somos bons neste país é na poesia. E o que é triste é dizer-se que a poesia não é lida e que os editores não querem publicar, que não são best-sellers. Porque não sabem vender poesia. Porque eles próprios não gostam de poesia e portanto não querem vender poesia. É falso, portanto. Estava-se à espera que a Leonor fosse um flop. Tem 1056 páginas e não é, já vai na segunda edição. Não é assim. Se há paixão, e se há paixão da escrita e os jovens gostam de poesia – curiosamente os jovens, hoje, gostam mais de poesia que os jovens de antes. Acham uma escrita muito mais perto deles. É uma coisa curiosa. Eu acho que a escrita hoje é maravilhosa. Eu não sou nada daqueles escritores que acham “ai não, só o passado”. Eu não. Eu leio, leio, leio. A Rosa Montero tem uma pergunta sempre para os escritores, que é: «Se tivesse que optar, ou deixa de ler ou deixa de escrever, o que é que você fazia?» Eu disse, para mim são coisas que não se dividem. Eu não escrevia se não lesse. Eu não nasci a escrever mas nasci a ler, digamos assim. E só escrevo, se calhar, porque li. Porque o escritor para escrever tem que ler. E a escrita salva, a literatura salva. Não se esqueça nunca disto da poesia.
Eu fui revisora de provas nos CTT, não tinha hipótese naquela altura de fazer outra coisa. E estive nos CTT quando o meu filho nasceu, eu e o meu marido, que estava a tirar o curso de Direito, e havia muitas pessoas da minha geração e mais novos a fazerem revisão de provas. Porquê? Porque um senhor chamado Vale Guimarães oferecia essa abertura a pessoas que estavam a estudar, eles iam rever provas e podiam estudar porque para estudar precisavam de estar a trabalhar. E eu lembro-me perfeitamente deles lerem pouco, de não lerem e eu entusiasmava-os a ler. E dizia que maravilha que era ler. E a minha paixão contagiou-os. E eles liam e discutiam e falávamos. E aqui há um ano e meio, um desses jovens, mais jovem que eu, eu tinha 25, mas eles tinham para aí dezassete ou dezoito, encontrou-me na Namour. E disse-me uma coisa fabulosa: «Teresa, eu tenho que lhe agradecer a minha vida, porque você veio dizer-me que a literatura salva e eu vou dizer-lhe como a literatura me salvou. Eu acreditei, você ensinou-me a ler. E eu fui para a guerra de África. E só me salvei porque lia. Lia os livros pequeninos de bolso e leva-os comigo para o combate. E à noite, quando ia para a caserna em que nós ficávamos ainda em perigo, eu lia. E eu lia e partia na escrita. E só aguentava aquilo que estava a viver porque eu tinha hipótese de me ausentar para outros lados através da escrita. Eu tinha outras vidas. Porque eram as vidas que eu lia. E as pessoas mandavam-me livros. E eu levava-os comigo.» E isto foi-me dito há um ano e tal. Foi das coisas mais espantosas e que me veio realmente dar a certeza de que a literatura salva. Salva as pessoas quando as pessoas estão mais desencantadas, mais infelizes, quando as pessoas estão mais aterradas, quando as pessoas têm medo, quando lhes sucedem coisas horríveis, quando têm perdas enormes de entes queridos. Aquilo que salva é a literatura.

 

Maria Teresa Horta, muito obrigado por esta entrevista.

 

 

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