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Folheando com... Miguel Real


2012-01-25

Começa-se a perder a conta ao número de livros que já escreveu. Ganhou prestigiados prémios de vários quadrantes. Faz crítica literária. Falamos de Miguel Real, não há quem não o conheça.

Continua dividido ente a ficção, o ensaio e o drama, Miguel Real?

Sim, não me realizo totalmente pela prática de um só género literário. Não sei porquê. Sempre que estou cansado do romance, parto para o ensaio, e vice-versa. Tudo começou pelo imenso material que restava da investigação para o romance histórico – transformava este “resto” num ensaio. Porém, desde há quatro, cinco anos, pratico o romance e o ensaio de um modo independente, sem os unificar num único tema. O teatro é diferente, sou arrastado pela Filomena, que é directora artística e encenadora de um grupo de teatro cultural – a Éter -, cujo fim reside na adaptação ou criação de peças sobre a cultura portuguesa.


Faz ficção histórica mas não se prende à geografia, bastando para isso recordar A Voz da Terra e A Guerra dos Mascates. Qual dos dois exigiu mais investigação?

Ambos exigiram mais ou menos um ano e meio de investigação e prolongadas estadias na Bahia e no Pernambuco. Fiquei esgotado com a escrita destes dois romances, mas satisfeito, são dois romances que não envergonham esteticamente o autor.

O mundo está a mudar vertiginosamente. Como vês as mudanças que estão a ocorrer? É mais fácil escrever hoje, para um jovem que se quer iniciar na literatura, do que há dez ou vinte anos?


Para os autores de romance de mercado, as editoras estão muito abertas e, por isso, pode ser mais fácil publicar. Também existem muitos mais prémios literários a que se pode concorrer. Para romances de autor, está muito, muito mais difícil, embora existam directores editoriais de qualidade que nos garantem que se um romance é deveras bom, ainda que “difícil”, não muito vendável, ele será publicável. Acredito que um óptimo romancista encontrará sempre lugar na casa da Literatura.

Embora já esteja em vigor e muito já se tenha falado, o que acha do novo acordo ortográfico?

É a única forma de revitalizar a língua portuguesa à entrada do século XX, integrando os contributos brasileiros e africanos da história cultural e social da nossa língua. Há boas razões contra o acordo ortográfico, mas há melhores razões ainda a seu favor. Se se pudesse voltar ao princípio, gostaria que o acordo tivesse outros resultados. Não se podendo, que assim fique.

Lemos algures que o seu novo livro Nova Teoria do Mal é uma bomba polémica! Que nos pode adiantar, Miguel Real?

Não imagino onde o Carlos leu essa afirmação. É um ensaio filosófico que postula ser o homem mais naturalmente mau que bom, gozando de subido prazer sempre que humilha ou retira direitos a outrem. Neste sentido, hoje, um ministro, certamente homem de existência a mais normalizada, sem comportamento desviante, de registo criminal impoluto, porventura frequentador dos concertos Gulbenkian ao fim da tarde, o marido mais amoroso, o pai mais extremoso, o crente mais devoto, o colega mais gentil, o cidadão mais pacífico e cumpridor, sente-se habilitado, como Adolf Eichmann, a cometer os actos mais violentos e bárbaros desde que a sua acção se encontre legitimada por um sistema social e político ou uma teoria filosófica ou religiosa – é a “banalidade do mal” (Hannah Arendt), prosseguida por homens normais, sem aleijões psíquicos, entorses sociais de infância ou traumas psicanalíticos. A acção deste ministro evidencia-se hoje como a face do mal – homens “bons”, no Governo, na direcção de grandes empresas, de grandes instituições, praticam o mal com o à vontade próprio de quem está praticando o bem.

O que nos diz a Cultura em geral, ainda que por natureza ela nunca nos esclareça cabalmente, e a Literatura em particular, acerca das dificuldades que atravessamos? O que vêem os olhos do escritor Miguel Real?

Do ponto de vista cultural, Portugal acabou de atravessar uma autêntica década de ouro – na literatura, no cinema, no teatro… Emergiu uma nova geração urbana, de mentalidade cosmopolita, que transformou radicalmente os conteúdos estéticos em Portugal, da publicidade à banda desenhada, do documentário ao romance, da poesia ao ensaio… Ultrapassando uma visão paroquial da cultura, esta geração não escreve já para o restrito público português sobre temas portugueses com conteúdos portugueses, antes para um público europeu e universal, adequando-se assim a novas formas de comunicação presentes este século. Se a economia esteve mal por força da direcção de políticos medíocres, a cultura, essa, nunca esteve tão bem. Pelo menos até hoje…

Três perguntas simples, Miguel Real: O que está a ler neste momento? Que escritor mais o influenciou nos últimos tempos? Se tivesse de eleger o melhor livro de 2011, qual escolheria?

Primeira questão:

a - inúmeros livros sobre a relação Europa-China, tema do meu próximo romance;

b – inúmeros livros sobre a questão da felicidade, tema do meu próximo ensaio.


Segunda questão:

a – António Lobo Antunes e o modo como entretece as relações entre as personagens;

b – José Saramago e o modo como escalpeliza os aleijões podres da sociedade.


Terceira questão:

a – Tiago Veiga. Uma Biografia, de Mário Cláudio, pela síntese como retrata o intelectual português do século XX;

b – As Luzes de Leonor, de Maria Teresa Horta, pela soberba afirmação do lirismo poético num texto em prosa.

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