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Folheando com... Pepetela


2014-09-23

Nasceu em Angola, estudou Sociologia em Argel, foi guerrilheiro do MPLA, político, ganhou o Prémio Camões entre outras distinções. O Portal da Literatura entrevista-o novamente, tendo agora como pano de fundo o seu livro O Tímido e as Mulheres.

Quem lê o romance O Tímido e as Mulheres diverte-se com a ficção criada inteligentemente pelo autor, mas ao mesmo tempo alarma-se com as relações sociais e de poder que caracterizam a actual sociedade angolana, e talvez com o rumo do mundo. Que pressuposto o fez começar a escrever este livro, Pepetela?

É evidente para todos que o Mundo não está muito propenso para os optimistas, no quadro dos quais me inscrevia. Mas não era minha intenção, ao escrever esse livro, entrar por aí. O problema é que a realidade se impõe, mesmo se de uma forma subconsciente. Eu queria contar apenas uma estória que nasce com uma canção de juventude, argentina,”Quando calienta el sol”, que me aparecia quando acordava. Dias seguidos. Era uma premonição. Da canção, que costumava ouvir na rádio numa certa época (há muitos anos), surgiu uma personagem, uma locutora. E os personagens que se ligavam a ela, por necessidade de inventar relações e alguma acção. Umas coisas puxaram as outras e, pela primeira vez, pus em lugar de destaque um escritor. Bem, essas são as fases da escrita, que se foi desenrolando. Foi fácil e até divertido escrever esse livro.


Quando o silêncio finalmente se instalou, ficaram quietos, ela de olhos fechados, ele observando o umbigo, os seios, as coxas, o monte de Vénus. E se mortificava perante o medo. Que faço? Se avançar para uma carícia, ela pode se zangar. Se não avançar, ela vai pensar que sou um merdas, talvez até gay. A mão esquerda de Marisa estava muito perto da sua direita. Dez, vinte centímetros. Bastaria tocar na dela, como por acaso. Logo se veria a reação. Mas ele não era capaz.

O leitor vai sorrindo à medida que vai folheando o seu livro. Por onde andou o Pepetela a cavar estas personagens? São personagens fictícias ou há resquícios retirados de angolanos de carne e osso?


São personagens fictícias, embora nem todas sejam totalmente inventadas, podendo ter um tique de alguém que conhecemos ou observámos nalgum momento da nossa vida. Muitas vezes são coisas que ficam na memória e nem o sabemos. Surgem depois na escrita. Penso que é muito comum, mesmo nos escritores que dizem que têm tudo pensado antes de começarem a escrever um livro. Eu sou o contrário em absoluto. Deixo o rio levar-me e as personagens surpreenderem-me.

A personagem Marisa acabou por sofrer um incontornável desvio em relação às expectativas do leitor. Balançamos numa dúvida: a de saber se o autor se “divertiu” à priori sabendo que iria surpreender o leitor, ou se, pelo contrário, quis alertar para o facto de uma vez lançada a porcaria sobre alguém, nada removerá a dúvida dos espíritos mesquinhos?

As personagens mais interessantes são as que não são totalmente previsíveis. Claro que gosto de provocar os leitores, por vezes pelo humor, outras vezes de forma mais “séria”. Daí achar normal que algum personagem se solte e me pisque o olho. Fico contente. Mas nem sempre o deixo fazer tudo o que quer. Em algum momento entra em jogo o consciente, a razão, o que queiram chamar, e que nada é mais que o superego de Freud ou a autocensura de outros. A sociedade com suas normas acaba por se impor, de alguma maneira. Se isso surpreender de novo o leitor, ainda bem. Obriga-o a pensar, o que não é um trabalho inútil.

O Pepetela diz que se deixa arrastar e até surpreender pelo rio. Os cursos de água são imprevisíveis, pergunto-lhe por isso se houve algum fenómeno estranho durante a criação dos seus livros. O Pepetela escreve todos os dias, ou olha para o rio apenas quando sente necessidade?

São várias perguntas. À primeira, se houve algum fenómeno estranho durante a criação dos meus livros, responderei que sim. Quando escrevia o “Lueji” muito de mau acontecia na minha vida pessoal, desde doenças a avarias de máquinas, como se um mau espírito que tenha desenterrado na antiga Lunda tentasse impedir a progressão do livro. Até que fiz um feitiço literário, integrei o espírito na estória e tudo se compôs. Quanto à outra questão, escrevo todos os dias menos domingo (a praia é sagrada) quando estou em fase de escrita. Mas fico muitos meses sem estar em fase de escrita, sem um livro na cabeça, sem esse mundo paralelo portanto.

Angola é, em grande medida, a matéria-prima da sua inspiração. Suponho que o meio intelectual angolano, em geral, e literário, em particular, seja estimulante para a sua criação. Gostaria que nos falasse desse meio e dos autores angolanos.

Já participei mais do que hoje na discussão cultural angolana, por razões de mobilidade, umas ligadas à cidade de Luanda, outras a condicionalismos físicos, sobretudo da coluna. A ponto de já não acompanhar muitos dos escritores angolanos, particularmente os mais novos. De qualquer modo, é um meio que existe, com a União dos Escritores Angolanos como centro principal e aos poucos a retomar a importância que já teve no passado. E vão surgindo novos valores, os quais infelizmente não têm meios de se fazerem conhecer no estrangeiro. Essa é uma limitação, contra a qual eu próprio pouco posso fazer. Quando é possível, lá dou um empurrãozito, mas sem grandes consequências.

No O Tímido e as Mulheres há personagens para todos os gostos: uma locutora sensual, um escritor em início de carreira, um intelectual numa cadeira de rodas, uma estudante universitária e um irmão delinquente, e até mesmo corruptos nalgumas esquinas. Salta muito à vista a figura dos novo-ricos, figura típica em sociedades de rápido desenvolvimento. Não se surpreende com as alterações comportamentais e sociais de Angola (e de muitas outras partes do mundo), de há dez anos a esta parte? Como é que um autor com um Prémio Camões lida com estas transformações?

Não me surpreenderam estas alterações, já muito presentes num livro de 1992, “A Geração da Utopia” e até podia ir mais longe, ao “O Cão e os Caluandas” de 1985, onde se desenhavam os primeiros esquemas. São tipos próprios de sociedades em mutação, com economias frágeis mas dinâmicas, e enormes diferenciações sociais. Numa fase que Marx definiu como “acumulação primitiva de capital” quando analisou o capitalismo na Europa. Se depois do fim da guerra civil (em 2002) o processo acelerou, ele vinha no entanto de muito antes, como vários escritores tinham anunciado através das obras, não só eu. Destaco por exemplo Manuel Rui Monteiro, com o seu “Quem me dera ser onda”. Um autor (com Prémios ou sem eles) só pode lidar com essas situações de uma maneira: analisando os fenómenos como um sociólogo, mas sem cair na armadilha dos esquematismos, pois os personagens devem ter sangue e osso, como as pessoas; descrevendo com emoção o que vai imaginando baseado na realidade; deixando os personagens correr o seu caminho, mesmo se alguns acabam partindo a cabeça e/ou nos surpreendendo.

Acabou de falar em Manuel Rui Monteiro, mas conhece certamente obras de outros autores angolanos. Quer mencionar algumas?

Algumas obras, embora importantes, são pouco conhecidas fora de Angola. Gostaria de nomear “O Ano do Cão” de Roderick Nehone, “Os Transparentes” de Ondjaki, Os livros de João Tala ou Luís Fernando (“Clandestinos no Paraíso”, por exemplo), para além dos mais antigos e hoje considerados “clássicos”. Há outros escritores desta nova geração que referi, os quais têm dificuldade em editar, mesmo em Angola, revelando no entanto muitas qualidades, imaginação, poder narrativo. Também há mais jovens com essa potencialidade, embora choquem com algum menor domínio do Português escrito, derivado do mau ensino da língua nas nossas escolas, o que é uma barreira enorme.

Na entrevista que lhe fizemos há uns anos atrás disse-nos que gostava bastante da obra de Philip Roth. Passaram alguns anos, os visitantes do Portal da Literatura gostarão de saber certamente que obras tem lido ultimamente.

É difícil sequer lembrar tudo, mas continuo a gostar dos mesmos. Tenho ultimamente lido bastantes policiais nórdicos, mas estou a abrandar. Vou descobrindo alguns autores africanos pouco conhecidos por estas bandas e sempre me interessando pelos latino-americanos (brasileiros incluídos). Começa a conhecer-se mais no Ocidente a literatura japonesa e chinesa, que têm obras absolutamente fenomenais. Começo a ter dificuldade em reter alguns títulos e seria muito complicado procurá-los na minha biblioteca…

A pergunta que se faz habitualmente: o que está a escrever neste momento?

Nada de ficção, por enquanto. Uma ou outra crónica, uma ou outra entrevista, como esta. Mas ainda não tive uma primeira frase arrebatadora. Vai acontecer um dia, não tem maka… Somos nós que inventamos o tempo, devemos saber degustá-lo sem angústias.


Muito obrigado Pepetela por mais esta entrevista.

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