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Excerto de «A Flor Oculta»


«Demasiadamente surpreendida para poder falar, ela olhava-o fixamente, de boca aberta. Era jovem, louro e de bela aparência. Sim, era um belo tipo de rapaz! Os olhos eram azuis como a flor da íris, a tez, clara e lisa. Possuía dentes fortes, brancos, e boca de desenho agradável. Tinha um aspecto robusto e sadio, ombros largos e cintura fina, embora o cinturão de couro estivesse bastante apertado. Com um sorriso nos olhos, indagou:
- E então, fui aprovado?

Josui corou. Estivera a olhá-lo fixamente como se se tratasse de uma estranha aparição. Mas era por ele lhe não ter parecido um estranho que o olhara tão demoradamente.
Lembrava-lhe tudo o que já havia esquecido, os rapazes na escola da Califórnia, aqueles rapazes que mal começava a notar quando seu pai resolveu tão abruptamente abandonar para sempre a América. A voz dele parecia-se com a do irmão, a maneira de falar era tal como ela a recordava.
- Ou por acaso não fala inglês? - prosseguiu o jovem.
- Falo, sim - respondeu Josui com facilidade.
O rapaz tirou reverentemente o quépi.
- Nunca fui tão bem atendido numa prece - disse. - Chega a ser incrível.
- O que é incrível? - perguntou ela.
- Que a única jovem no Japão a quem eu queria conhecer saiba falar a minha língua.
Josui sorriu.
- Como podia querer conhecer-me, se nunca o vi antes?
- Esta manhã você olhou para mim, mas não me viu - disse ele. - Eu, porém, vi-a. Estava parada aqui, debaixo desse arco. No jardim de minha casa há também um arco assim, coberto de glicínias, e hoje de manhã olhei para este aqui porque me fez lembrar minha mãe. Foi então que a vi parada sob ele e... bem, você estava linda.
- Estava à espera que os americanos passassem, nós passámos, mas eu voltei. Os outros estão agora a caminho de Nara. É uma excursão, como sabe. Estamos de licença. Poderei ir a Nara a qualquer hora. Mas calculei que, se voltasse para cá e esperasse o tempo suficiente você apareceria outra vez.
- Estou a caminho da escola.
- Ainda frequenta o colégio?
- A Universidade. E agora tenho de ir, senão chego atrasada.

Ele continuou parado ali, com o quépi na mão e o sol brilhando sobre os seus cabelos louros ondulados; eram de um louro muito claro, e os olhos azuis. O rosto era de forma estreita, o queixo anguloso e as maçãs do rosto um pouco altas. A aparência geral era de limpeza.
- Desejo muito conhecê-la - disse. A sua voz era forte e grave, mas falava com suavidade.
- Não posso - replicou Josui, simplesmente. -Tenho de ir embora, por favor.
- E porque não? - insistiu ele.
Começou a caminhar ao lado dela. Muito perturbada, Josui abriu novamente a sombrinha. Que faria agora? Se algum conhecido a visse acompanhada desse americano e relatasse o facto a seu pai, ele zangar-se-ia terrivelmente.
- Por favor, vá embora - pediu ela, e apressou o passo, sem voltar a olhar para a figura esbelta a seu lado.
- Deve existir um meio de travar conhecimento com uma jovem atraente no Japão - insistiu ele. - Quem sabe se eu vou visitá-la a sua casa, entrego o meu cartão e apresento-me a seus pais?
- Oh, não! - exclamou Josui. - Meu pai ficaria muito zangado!
- Porquê?
- Porque sim - respondeu ela, fora de si.
- Ele não gosta da América? - indagou o rapaz com certa severidade.
- Conhece muito bem a América.
- Sim?
- Já morámos lá. Depois que principiou a guerra, saímos do país para vir morar aqui.

Tinham chegado às portas da Universidade e agora era preciso livrar-se dele. Tivera sorte em ninguém a ter visto àquela hora do princípio da tarde, quando a maior parte das pessoas se entregava à sesta por uma ou duas horas.
- Não continue a acompanhar-me, por favor - disse com desespero. - Terei aborrecimentos se insistir.
- Então vou deixá-la - respondeu o rapaz imediatamente. - Mas amanhã estarei aqui de novo. Este é o meu nome.

Tirou do bolso uma pequena carteira de couro, de onde retirou um cartão. Estendeu-o a Josui até que ela não teve outro remédio senão aceitá-lo. "Segundo-Tenente Allen Kennedy".
- Quer dizer-me o seu nome? - perguntou o rapaz.

Josui quis recusar, mas levantou os olhos para ele. Era tão simpático, pensou, tão cortês, tinha uma boca tão meiga no seu sorriso. Intimamente andava ansiosa por conhecer alguns americanos. Sentia-se só. Era difícil encontrar amigas entre as japonesas, quando nenhuma delas tinha o menor conhecimento da vida que levara por tanto tempo na Califórnia. Até lhe tinham antipatia por isso, invejavam-na, embora fingissem gostar dela.
- Chamo-me Josui Sakai.
- Josui Sakai - repetiu ele. - Não quer dizer-me onde mora?

Ela sacudiu a cabeça, tomada de pânico, mas depois não pôde resistir à expressão suplicante daqueles belos olhos. Sentiu um calor invadir-lhe o corpo, teve vontade de rir e, não atinando com o que fazer, fechou a sombrinha, correu pelo portão aberto e foi esconder-se atrás de uma moita de bambus. O rapaz aproximou-se do portão e pôs-se a olhar para todos os lados. Depois, passado um momento de hesitação, afastou-se, mas deteve-se ainda sob o arco de glicínias. A suave fragrância das flores tornara-se repentinamente intensa. Não se apercebera antes. Como era possível que não a tivesse notado? Aspirou profundamente aquele aroma de inebriante doçura, que ficaria sempre, eternamente, ligado à encantadora jovem desaparecida. Deixou-se ficar, hesitante, tomado de um pressentimento para o qual não encontrava explicação. Porque caminhos iria enveredar agora, envolvido em que fragrâncias de desejo?

Do seu esconderijo, ela viu-o olhar para cima com uma expressão de surpresa na fisionomia, depois afastar-se de súbito. Saiu então de trás dos bambus, quase esperando encontrá-lo escondido na proximidade do portão. Mas ele não estava ali. Sentiu-se decepcionada e experimentou ao mesmo tempo uma sensação de alívio. Convencida de que nunca mais o veria, passou as aulas da tarde relembrando o seu rosto jovem e belo, que, embora em cada um dos seus traços fosse diferente do seu, lhe parecia tão familiar, trazendo-lhe à mente uma parte da sua infância que jamais esquecera.

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