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A Opinião de Paula Mota


Augusta B. Ou as Jovens Instruídas 80 Anos Depois

por Paula Mota
2024-07-17

Creio que Agustina Bessa-Luís, que se queixava de ser mais conhecida do que lida, corre agora o risco de passar a ser um mito do nosso imaginário e não tanto uma escritora do nosso universo literário. Depois de ter ganhado estatuto de lenda por ter derrotado grande parte da Geração X no ensino secundário (liceu para mim), torna-se agora fonte de inspiração do mais recente livro de Joana Bértholo, devido à arrojada ideia de, aos 22 anos, colocar um anúncio no jornal em busca de um correspondente.

JOVEM INSTRUÍDA desej. corresp. c/ pessoa intelig. e culta.

Não tendo propriamente inventado o precursor de uma aplicação de encontros, esta decisão, nos anos 40, serve de base para estabelecer paralelismos com as actuais plataformas digitais através da protagonista de “Augusta B. Ou as Jovens Instruídas 80 Anos Depois”, uma jovem também de 22 anos, Augusta B., “sua quase homónima”, que procura incessantemente um match no telemóvel.

Augusta vivia imediatamente interessada no outro, em sentir-se vista, desejada, pertencer, em entender as sinapses irrefreadas do seu coração e do alheio.

Devido a um desaire amoroso, conhece Raquel, estudiosa, grande leitora, um pouco anti-social, que é basicamente a sua antítese.

Mais inusual que os hábitos de leitura – que nem no século anterior eram inteiramente modernos – era o desinteresse de Raquel pelo sem-fim digital. Tinha, como todas, um smartphone (…) mas não tinha redes sociais, nem interesse nelas, sobretudo não nas plataformas ostensivamente amorosas.

Tal como no conto “Natureza Urbana”, também aqui temos a magia da literatura na formação e acção das personagens e, numa obra fortemente intertextual, há citações da própria Agustina para corroborar ou contrastar as relações interpessoais 80 anos depois.

“A correspondência dava uma expectativa do tipo humano que se ia encontrar. O que é muito mais sólido. A palavra tem uma força que não tem a presença, nem as hipóteses que a presença física pode dar. É muito mais poderosa.”

Augusta compreendia absolutamente esta citação, mas não num sentido epistolar. Tudo se desenrolava num chat, e era no chat que ela avaliava com que tipo de pessoa estava a lidar.

Pressionada por Augusta, Raquel, que até aí apenas usava a aplicação do GoodReads, pondera inclusive abrir um perfil do Tinder totalmente composto por citações de Agustina, sem saber que a amiga…

Esboçava um esquema muito mais à frente, porque atrás; muito mais na vanguarda, porque na retaguarda; totalmente futurista, porque antiquado:

- Qual perfil, Raquel? Temos é de pôr um anúncio no jornal!

- Num jornal…? Ninguém lê jornais…

Raquel parecia não ver o que ela via: a força do gesto de Agustina.

Mais fácil dizer do que fazer e segue-se, então, a autêntica saga da protagonista para publicar um anúncio semelhante ao original. Porque os tempos de facto mudaram, o resultado não é brilhante e depois de ver a folha de anúncios do único pasquim a que tiveram acesso, fico a pensar no que será pior, se isso ou a algaraviada de termos ocos que caracterizam o mundo amoroso digital.

Não se deixava perturbar pelo aranzel de anglicismos que mapeavam a crescente possibilidade de situações desagradáveis, e muito disseminadas, do ghosting ao zombieing, passando por todas as formas de breadcrumbing, benching, orbiting, stashing, a agressiva ambiguidade do love bombing aos ardis criminalizáveis do catfishing.

Não me acontece muito, mas hoje sinto alívio por não ter 22 anos.

Augusta B. Ou as Jovens Instruídas 80 Anos Depois, de Joana Bértholo, Caminho, Junho de 2024

Puro

por Paula Mota
2024-07-05

Imagina se toda a gente tivesse os dentes sadios de um negro? Os ossos dessa gente são valiosos. Mas da pele, a gente não precisa.

“Puro” é, pelo seu cariz histórico mas mais pelas imagens que evoca, uma história de terror. Baseando-se num execrável movimento real do início do século XX no Brasil, o seu conteúdo só podia ser chocante e arrepiante, no entanto, Nara Vidal cria episódios grotescos que são geralmente aplacados por uma escrita apurada e uma técnica narrativa original e eficaz.

Olavo explica

sou louco pelo meu filho. Ícaro é um menino bom, mas tem muitas limitações. (…) Fomos abençoados com Ícaro.

(…)

Olavo pensa

como essa criança baba, tropeça, me dá vergonha. Voa, Ícaro, voa.

Santa Graça é uma cidade definida pelo racismo e pelo capacitismo, onde levam à letra o Artigo 138 da Constituição de 1934 (“Incube à União, aos Estados e aos Municípios estimular a educação eugênica”) numa altura em que se seguia com entusiasmo o movimento eugénico no Brasil, que visava alcançar a pureza da raça branca, impedindo a miscigenação e a deficiência.

Lázaro fala

Ícaro, sai dessa janela, retardado. Deixa só eu crescer mais um pouquinho e vou virar político. Vou levar você lá pra casa do pinel. Manda a Íris acabar logo o serviço aí porque tem chão pra ela lavar aqui. Quem sabe hoje ela lava direito aquela mão preta dela e fica limpa e pura? Íris preta e suja. Ícaro retardado.

Num casarão sinistro vivem três velhas irmãs que um dia encontraram um bebé abandonado, a quem deram o simbólico nome de Lázaro, que “nasceu de ninguém querer”. Em frente, mora Ícaro, um rapaz que vive com as sequelas neurológicas de ter sido abanado pelo pai em bebé, numa casa em que a única pessoa que o acarinha é a empregada negra, Íris.

Íris pensa

lá se foi esse menino pra cama, amarrado e cheio de remédio. (…) Não queriam de jeito nenhum que eu ficasse com o menino. O menos contato possível era a recomendação médica conforme explicitavam uns papéis vindos de São Paulo. A gente aceita porque a vida é assim, mas dá vontade de matar essa gente, isso dá.

Gostei muito de “Puro” por retratar uma corrente social no Brasil que eu desconhecia por completo, ainda que o considere um pouco maniqueísta, em que as únicas personagens boas eram o menino deficiente e a empregada negra, já que todos os brancos fisicamente aptos eram seres hediondos, com a agravante de os membros da Igreja, por mais críticas que a instituição mereça à luz das notícias dos últimos anos, serem todos depravados.

Só mais 30 segundos para apreciar a capa desta obra de Nara Vidal. É esteticamente bonita num contraste entre branco e preto, tão essencial a esta história, e remete para uma imagem comovente de Íris, a mãe de um nado-morto, fruto da esterilização forçada.

Um anjinho de cara preta.

Puro, de Nara Vidal, Relógio d’Água, Dezembro de 2023

Baumgartner

por Paula Mota
2024-06-17

Viver é sentir dor, disse para consigo, e viver com medo da dor é recusar viver.

Tudo começa com uma simples caçarola esquecida ao lume, o ponto de viragem nos últimos nove anos que Baumgartner viveu no estado de torpor que se seguiu à morte inesperada da sua mulher, Anna, poeta e tradutora de francês, espanhol e até português.

Dou graças a Deus por todas aquelas belas sonatas matinais quando era acordado pelo som dos dedos de Anna a martelar as teclas, ou seja, pelo som da mente de Anna a cantar através dos dedos enquanto martelava as teclas, e depois de um mês a viver sozinho na casa vazia tinha acabado de sentir tanto a falta daqueles sons que de vez em quando entrava na sala dela, sentava-se diante da máquina silenciosa e dactilografava alguma coisa – qualquer coisa – só para voltar a ouvi-los.

A dor é tão intensa e paralisante que a compara a uma amputação.

Agora é um coto humano, um meio-homem que perdeu a metade de si que o fizera completo, e sim, os membros em falta continuam no sítio, e ainda doem, doem tanto que por vezes sente que o seu corpo está prestes a pegar fogo e consumi-lo imediatamente.

Os dois primeiros capítulos caracterizam-se por um olhar restrospectivo imbuído numa enorme apatia e nostalgia, em que vemos como o protagonista ainda não foi capaz de superar a perda da mulher. Baumgartner está preso ao amor da sua vida, indeciso entre a eliminação de todos os vestígios de Anna e a cristalização da vida em comum.

Até então, não tinha compreendido quão dividido tem estado relativamente a tudo quanto diz respeito a Anna, como desde o princípio a tem repelido e ao mesmo tempo se tem mantido preso a ela expurgando a casa de todos os resquícios dela e no entanto mantendo a sua sala de trabalho intacta.

Depois de um sonho revelador, há uma mudança de engrenagem no terceiro capítulo, com um olhar que agora se torna prospectivo, com a presença de um novo amor e a ideia para um novo livro, “Os Mistérios do Volante”.

E é assim que Baumgartner redescobre os prazeres estimulantes, propriocetivos, do movimento, o simples ato de pôr um pé à frente do outro e propulsar-se através do espaço, a totalidade do seu corpo alinhada pelos ritmos paralelos da batida do coração, da expansão e contração dos pulmões, do movimento firme das pernas, esquerdo-direito-esquerdo-direito e quando começa a agir naturalmente nos dias que se seguem, sente uma confiança cada vez maior em si mesmo para continuar a atravessar o vasto prado interior que se estende à sua frente.

Em chegando aos últimos capítulos, ambos os olhares confluem. Baumgartner dá um pulo ao passado recordando a história de vida dos pais mas projecta-se para o futuro com a chegada de uma estudante que pretende fazer uma tese sobre a obra de Anna, culminando num final à la Paul Auster, obviamente.

Desde que li “O Livro das Ilusões”, o meu preferido do autor, que procuro outro que me cause uma sensação parecida, e “Baumgartner”, de facto, esteve lá quase. Atrevo-me a dizer que Paul Auster partiu em grande estilo.

Quando chegar o fim que ao menos lhe seja concedida a dignidade de o seu coração parar em pleno esforço de produzir uma última frase da sua lavra, de preferência as palavras finais de um sonoro vão-se foder dirigido aos loucos famintos de poder que governam o mundo.

Baumgartner, de Paul Auster, ASA, Outubro de 2023, Tradução de Francisco Agarez

Eu Matei um Cão na Roménia

por Paula Mota
2024-06-06

Todos os animais falam – disse eu. O que é que estás a dizer? – riu-se Ovidiu. Claro que falam, outra coisa é nós não os conseguirmos entender – disse eu. Tu de certeza que os entendes, porque és professora de línguas e vens do continente dos papagaios que falam – disse ele.

Para a leitora que se insurge sempre com episódios de crueldade contra os animais, este livro poderia parecer um contrassenso só pelo seu título, mas garanto que nenhum animal foi maltratado no decurso desta história passada na Roménia, com a excepção daquela que também é a nossa realidade: animais praticamente ao abandono nas zonas rurais e vítimas de atropelamento em estradas.

Foi sobretudo a curiosidade e o espanto que me trouxeram a esta obra que marca o regresso da editora Europa-América depois da declaração de insolvência em 2019. Quem cresceu nos anos 80 e 90, como eu, teve acesso a muitos clássicos a preço acessível graças a livros de bolso em edições baratuchas, de papel manhoso e traduções discutíveis, mas o novo proprietário desta chancela deu-lhe uma volta de 180 graus, a avaliar pela estreia, “Eu Matei um Cão na Roménia”, da peruana Claudia Olloa Donoso, uma edição floppy de bom papel e vertida para português por dois tradutores respeitados, Cristina Rodriguez e Artur Guerra. “Eu Matei um Cão na Roménia” divide-se em quatro capítulos (cão morto, matilha, latidos e matacães) e é, em grande parte, uma road trip pela Roménia levada a cabo por dois amigos, uma professora de línguas latino-americana e um motorista de autocarros romeno, ambos imigrantes na Noruega.

Como não hei de eu falar de forma estranha se tenho uma confusão mental na cabeça com as línguas, há anos e anos que penso em espanhol, trabalho em norueguês e a única coisa que faço em romeno é sonhar.

Mihai precisa de resolver uns assuntos na tua terra natal, pelo que convida a professora, de baixa médica por depressão, para o acompanhar, na tentativa ingénua de que mudar de ares a fará largar os antidepressivos, mas não é esse o intento dela…

Tive a sensação de que me estava a preparar para morrer e fiquei envolvida por uma certeza. Uma espécie de satisfação estranha, quase festiva, mas simultaneamente cinzenta e silenciosa, sem serpentinas nem excitações, como a tranquilidade que chega ao ter concluído algo próprio e conhecido, algo entediante como um trabalho de anos, um ritual de passagem, a cessação do labor, pôr um ponto final, um apagar a luz e fechar.

…e uma vez na Roménia, desaparece a cumplicidade entre eles e Mihai passa a ser Ovidiu, um emigrante arreigado nos costumes do seu país de origem, um homem tacanho. Inesperadamente, rodeada de falantes de uma língua que não compreende, é a mítica bondade de estranhos que vale à professora, que comunica com eles através do espanhol e do italiano que estes aprenderam a trabalhar no estrangeiro, pelo tradutor do telemóvel ou, quando tudo mais falha, por simples gestos e sorrisos. Nesta obra sobre a dificuldade de comunicação inerente ao isolamento da depressão e às diferenças linguísticas, levantam-se valores nobres como o respeito pelas outras culturas, a simbiose com os animais…

E vem-me então com o porque é que não a deixo levar um cão romeno, e diz-me que leu uma notícia sobre vários turistas que vieram à Roménia para levar cães, e que a ela não lhe parece mal (…) e vem-me com esta de que o cão a tranquiliza, que lhe faz bem, que é como usar um saco de água quente.

…e a sororidade.

A minha língua leu o relevo da imagem sagrada enquanto imaginava que beijava todas as mulheres, as da Roménia e todas as outras, todas aquelas que a minha memória tinha registado ao longo da minha vida, todas aquelas mulheres com nomes e imagens. Eu nunca tinha beijado uma mulher, mas quando pus os lábios em cima do ícone, beijei todas as mulheres: Eva, Salomé, Miriam, Abigail, Marta, Débora, Madalena.

E quando a protagonista se retrai para um silêncio definitivo, a narração passa a capítulos alternados entre a verborreia obscena de Ovidiu e os monólogos internos cada vez mais líricos da professora.

O silêncio dessa tarde era uma membrana, o verniz selante de um quadro de museu, um grupo de bichos paralisados para a eternidade numa resina transparente, a mica de plástico que protege as fotografias de um álbum de fotos cheio de mortos.

Eu Matei um Cão na Roménia, de Claudia Ulloa Donoso, Europa-América, novembro de 2023, Tradução de Cristina Rodriguez e Artur Guerra

Eu canto e a montanha dança

por Paula Mota
2024-05-29

E agora dirá algumas coisas. As que se podem dizer de enfiada, como uma corda. (…) As que têm de se arrancar como se fossem cebolas. (…) As que queimam. As que têm de se dizer a olhar para as árvores, e as que têm de se dizer a olhar para as ervas e as que têm de se dizer a olhar para as nossas próprias mãos.

“Eu canto e a montanha dança” é um livro original e lírico, uma ode prodigiosa aos Pirenéus catalães, à simbiose que existe entre as suas gentes, os seus fantasmas e a sua fauna e flora.

Eu vejo tudo; os caminhos e as árvores, o céu e o Sol, as manhãs e as noites e as pedras e as urtigas e a bosta das vacas e os cumes, e as rochas, e o fumo ao longe, e os sendeiros de javali… tudo a rimar. Trago a poesia no sangue. E conservo todos os poemas dentro da memória, como numa cómoda arrumada.

Nesta obra, a catalã Irene Solà escolhe a cadeia montanhosa que separa a Espanha da França não só como cenário mas também como protagonista, incluindo até um capítulo extremamente criativo da sua formação geológica…

O terrível despertar.

… sendo os seus habitantes os intervenientes que com ela contracenam numa vida dura ditada pela geografia acidentada e pelo isolamento dos povoados, sem esquecer os seus costumes, as suas lendas e até o seu papel na fuga dos republicanos após a derrota na Guerra Civil.

Os camponeses sempre encontraram armamento e coisas que os soldados que batiam em retirada deixaram para trás. E sabes o que é que fazem os camponeses, que são os sábios destas terras? Sabes o que é que é que fazia o teu avô e o que é que fazia eu próprio quando encontrávamos uma coisa destas? Olhar para o outro lado.

Nas montanhas, seguimos perspectivas tão inusitadas como a das nuvens, a dos cogumelos ou a dos corços, que contribuem para a atmosfera mágica e para o desenrolar da narrativa que segue várias personagens, ainda que se centre sobretudo na família que vive na casa de Matavaques, massacrada em diferentes momentos pelo infortúnio…

Embora às vezes uma mulher queira deixar de viver. Quando o nosso marido é atravessado por um raio como se fosse um coelho. Quando uma mulher fica com o coração esburacado por um ramo, mas não morre. Uma mulher quer deixar de viver. Mas então obrigam-na a viver. As crianças gritam e obrigam-na a viver. O velho tem fome e reclama. As pessoas da aldeia levam-lhe feijão e curgetes para a obrigar a viver. E ela deixa de ser mulher e converte-se em viúva, em mãe. Deixa de ser o centro da sua vida, deixa de ser a seiva e o sangue, porque a obrigam a renunciar a tudo o que queria.

…mas também nos seus vizinhos, uns reais, que não resistem ao apelo do regresso às montanhas ou nelas se refugiam, outros mais incorpóreos, como as mulheres de água, um grupo de mulheres  enforcadas por suspeitas de bruxaria.

E quando a Eulália lhes disse que a Joana era a mestra que trazia os fantasmas e preparava os unguentos com que nos besuntávamos, e a mestra que fazia os venenos de todo o país, e a que invocava o bode da Biterna e urdia todas as outras maldades que as bruxas fazem, e nós a três éramos as suas discípulas, a Joana não mexeu uma única palha.

“Eu canto e a montanha dança” é uma composição polifónica e luxuriante sobre uma natureza ora agreste ora delicada, a das montanhas e também a daqueles que a habitam.

A maior parte dos homens são mentirosos. Os homens que inventam histórias e os que as contam. Os que nos recortam, e nos comprimem e nos enfiam dentro das palavras, para que sejamos como a história que querem contar, com a moralidade que querem contar. Recortadas e empequenecidas e metidas nas suas cabecinhas. Não é por serem mais idiotas e diminutas que são menos cruéis.

Eu canto e a montanha dança, de Irene Solà, Cavalo de Ferro, Abril de 2024, Tradução de Rita Custódio e Alèx Tarradellas.

O Estucador Assobiador

por Paula Mota
2024-05-08

O mundo está cheio de visões que esperam ser vistas. As presenças estão lá, mas falta o nosso olhar.

Vivo na zona antiga de um subúrbio, o bairro mais arborizado numa cidade caracterizada pelo betão, onde, por isso, muitas pessoas passeiam os seus cães, mas fico sempre desiludida e um bocadinho crispada quando as vejo de trela numa mão e de telemóvel na outra, quando há tanto para olhar em redor e mesmo para o alto, visto que os prédios são baixos e espaçados entre si. Se também eu andasse de nariz colado ao telemóvel na rua, não veria a exuberância da passagem das estações, não veria os cogumelos no outono, os jacarandás floridos na primavera, o ninho de falcões sobre uma caixa de estores, um pica-pau de passagem, uma garça no descampado ou até um ouriço-cacheiro a sair do seu esconderijo ao anoitecer. E como isso alegra o meu dia! Para a maioria, esse olhar sobre a natureza e esses avistamentos são ninharias, mas para pessoas como Christian Bobin são momentos preciosos que enriquecem a vida.

Contemplar é uma maneira de cuidar. É romper com tudo o que em nós se assemelha a cobiça, expetativa ou projeto. Olhar e emocionar-se com a semelhança entre o que temos diante e nós próprios.

Bobin é geralmente conotado com a religião e a espiritualidade, mas não creio que seja isso que revista a contemplação que refere nesta obra que pouco mais é do que um panfleto. Bobin não fala como um filósofo nem como um monge num retiro, porque não se refere a nada de transcendental mas sim às coisas banais do dia-a-dia, àquilo por que passamos habitualmente sem enxergarmos, sem interiorizarmos.

Os contemplativos, sejam eles quem forem, podem ser poetas reconhecidos como tal, ou pode ser um estucador a assobiar como um melro numa sala vazia ou uma jovem a pensar noutra coisa enquanto lava a roupa.

O “Estucador Assobiador” é um livro ambivalente: perante o ódio, a voracidade do avanço tecnológico e a crise de valores, o autor é optimista…

Voltaremos às coisas vivas e verdadeiras. (…) O homem não é mais malvado hoje do que ontem, apenas está mais perdido.

…mas há uma enorme dose de fatalismo na sua visão, advogando a necessidade de bater no fundo para se poder fazer tábua rasa.

É preciso que a escuridão se acentue ainda mais para que as primeiras estrelas – as primeiras, isto quer dizer que haverá outras – apareçam. É possível que uma crise económica seja uma graça, uma sorte. Isso vai desolar-nos, vai arrancar-nos da embriaguez, do irreal, da avidez, do consumo. Mas ainda não estamos aí.

Bobin foi premiado pelo conjunto dos seus escritos pela Academia Francesa, em 2016, somente seis anos antes da sua morte, exactamente na mesma região onde nasceu 71 anos antes.

É um dogma atual que a vida deve ser fácil. Quem disse que a vida deve ser fácil e prática? É prático amar? É prático sofrer ou esperar? A técnica afasta-nos destas coisas e fazer crescer uma lepra  de irrealidade que invade silenciosamente o mundo.

 

Estucador Assobiador, Christian Bobin, El Gallo de Oro Ediciones, Tradução de Maria de Azeredo, Novembro de 2023

Lenços pretos, chapéus de palha e brincos de ouro

por Paula Mota
2024-05-03

“As Mulheres do Meu País” de Maria Lamas é o ponto de partida de “Lenços pretos, chapéus de palha e brincos de ouro”, é o GPS de Susana Moreira Marques ao percorrer os mesmos caminhos que a obra publicada em fascículos entre 1948 e 1950...

Talvez todas as viagens – no país ou fora do país – sejam feitas para termos a certeza de onde vimos.

...é o texto que compôs depois de ter acompanhada a cineasta Marta Pessoa na realização do documentário “Um Nome Para o Que Sou”, é um livro escrito com a sensibilidade que já lhe reconhecera em “Agora e na Hora da Nossa Morte”, desta vez sobre a condição feminina de hoje em contraste (ou não) com aquela época, a “história passada” recordando a sua avó, a “história futura” pensando nas suas filhas.

Muitas das mulheres com quem Maria Lamas fala não sabem ler. Algumas apenas sabem escrever o nome. Algumas foram à escola mas não chegaram a fazer a quarta classe. (...) Não escrevem cartas de amor. Não escrevem cartas a parentes distantes, a não ser por mão alheia. Não escrevem diários. Não escrevem impressões. Não escrevem histórias. Não escrevem poemas de juventude. Não escrevem memórias. Não escrevem nada para que depois fique.

E em paralelo temos a voz intimista de Susana Moreira Marques.

Embora não possa escrever por ela

Tudo o que escrevo

É para compensar o que a minha avó não escreveu

A avó de Susana Moreira Marques, também ela pouco escolarizada, é um dos eixos desta viagem, ainda que a neta não passe na terra onde ela nasceu, mais uma das mulheres silenciosas e invisíveis, praticamente sem registos fotográficos da sua presença, que como muitas avós de então, e dos dias de hoje, são um complemento ou até mesmo um substituto total das mães na rotina diária das crianças.

Algumas mulheres preferem, ainda agora, não falar. Reconhecem, de entre tantos direitos conquistados, o direito à continuação da invisibilidade. (...) O livro de Maria Lamas não terá chegado à minha avó. Os livros onde pessoas como a minha avó apareciam não chegavam às pessoas como a minha avó.

O que leva a autora a concluir: “Será que é isto que quer dizer que o pessoal é político?”

Eu acredito que sim, no fundo, tudo é político, e isso é flagrante no facto de o livro de Maria Lamas não estar disponível para que eu pudesse conferir as suas palavras e visualizar as inúmeras fotos que tirou a mulheres de todo o país há mais de 70 anos. Teria sido um cotejo sem dúvida enriquecedor, se não existissem menos de seis exemplares na maior rede de bibliotecas do país, a de Lisboa, quase todos eles de acesso reservado ou de somente consulta nas instalações. Porque são edições muito antigas, poder-se-ia pensar. Mas não, já que houve uma reedição em 2002. Onde estão portanto essas raridades? Foram guilhotinadas. Política editorial portanto.

A mesma política editorial e de perseveração de acervos que sempre divulgou e guardou os livros dos contemporâneos de Maria Lamas, mas não o seu. Nem na biblioteca municipal mais modesta faltam decerto os clássicos modernos de Alves Redol, Fernando Namora, Manuel da Fonseca e Soeiro Pereira Gomes entre outros, e no entanto...

Ela tem também afinidade com o movimento neo-realista mas os neo-realistas são todos homens. Escrevem romances épicos, maioritariamente sobre heróis masculinos, sejam eles pescadores, camponeses, meninos operários ou homens feitos que emigram para terras distantes. Ela tem a intuição de não fazer o mesmo: para escrever um romance épico sobre as mulheres, talvez fosse preciso primeiro provar que elas mereciam o épico. 

Lenços pretos, chapéus de palha e brincos de ouro, Susana Moreira Marques, Companhia das Letras, Abril de 2023

As Primas

por Paula Mota
2024-05-02

E choviam Pássaros

por Paula Mota
2024-04-18

Gabo e Mercedes, de Rodrigo Garcia

por Paula Mota
2024-04-17

O meu pai queixava-se de que uma das coisas que mais odiava na morte era o facto de que seria a única faceta da sua vida sobre a qual não poderia escrever. Tudo o que tinha vivido, presenciado e pensado estava nos seus livros, convertido em ficção ou cifrado. “Se podes viver sem escrever, não escrevas”, costumava dizer. Eu estou entre aqueles que não podem viver sem escrever, por isso confio que me perdoaria.

Começando pelo fim, pelos últimos dias de vida de Gabriel García Márquez, esta obra apresenta-se como uma leitura altamente emotiva, particularmente para quem admira este fabuloso escritor e tem noção de como é avassalador uma pessoa sofrer de demência, sobretudo tratando-se de alguém que necessita de uma mente aguçadíssima para exercer o seu ofício.

O meu pai estava plenamente consciente de que a memória se lhe esfumava. Pedia ajuda com insistência, repetindo uma e outra vez que estava a perder a memória. O preço de ver uma pessoa naquele estado de ansiedade e de ter de tolerar as suas intermináveis repetições uma e outra vez é enorme.

Rodrigo García, filho mais novo de Gabriel García Márquez e Mercedes Barcha, um nome que me era desconhecido mas que está ligado a séries de culto da HBO, escreveu esta “bela despedida a duas pessoas extraordinárias”, segundo Salman Rushdie, “um pequeno livro de memórias [que se] lê com um sentimento de profunda gratidão”, acrescenta Juan Gabriel Vásquez. É realmente disso que se trata e, apesar das dúvidas do autor em violar a intimidade de uns pais que sempre lhe incutiram a discrição como um valor, é um livro repleto de afecto, de respeito e de franqueza…

Os meus sentimentos pelo meu pai, se bem que amorosos, foram mais complexos, devido ao facto de a sua fama e talento o terem convertido em várias pessoas diferentes que tive de me esforçar por integrar numa única, ressaltando sempre de um lado para outro entre emoções contrárias. Também tenho sentimentos arrevesados sobre a longa e dolorosa despedida que foi a sua perda de memória, e a culpa de encontrar uma certa satisfação em sentir-me intelectualmente mais capaz do que ele.

…sem nunca perder de vista o bom gosto, o qual se vê inclusive nas fotos da família incluídas no final; uma delas, no entanto, não totalmente isenta de ironia na sua legenda: “Em finais dos anos 60, quando ainda era saudável fumar”, tendo Gabo morrido de cancro dos pulmão ou do fígado e tendo “La Gaba” sido vitimada por problemas respiratórios seis anos depois. E se García Márquez é uma lenda, Mercedes, “uma mulher da sua época, sem estudos universitários, mãe, esposa e dona de casa” é igualmente uma figura mítica.

Perto do final do seu discurso, aliás bastante bom, o presidente mexicano refere-se a nós como “os filhos e a viúva”. […] Revolvo-me na cadeira, com a certeza de que a minha mãe não o verá com bons olhos. (…) As suas últimas palavras a esse respeito são: “No soy la viuda. Yo soy yo”. (Eu não sou a viúva. Eu sou eu.).

Gabo e Mercedes: Uma Despedida, de Rodrigo García, Dom Quixote, Setembro de 2023, Tradução de J. Teixeira de Aguilar

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