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A Opinião de Paula Mota


A Universidade de Rebibbia

por Paula Mota
2026-05-26

Goliarda Sapienza é uma figura apaixonante e carismática que fez da sua passagem pela cadeia, local de “fusão entre experiência e utopia”, uma catarse, um período de introspecção, um tratado de sociologia e uma ode à solidariedade entre mulheres, independentemente da proveniência. O facto é, Goliarda, que nós, mulheres, suportamos melhor o sistema carcerário. Isto é possível, bem entendido, porque temos um passado de coerção e aqui, no fundo, encontramos um estado de coisas que para nós não é novidade: o colégio, a família, a casa…

Se a situação é dostoeivskiana, como a caracterizou Elsa Morante, “Universidade de Rebibbia” não se prende com o crime nem com o castigo. Como sempre, é Angelo Pellegrino, seu último companheiro e maior admirador, quem contextualiza o sucedido no posfácio de “Carta Aberta”, o primeiro volume de memórias da escritora:

“Depois de ter roubado o cofre com as jóias a uma amiga rica de origem aristocrática, também com o intuito de se vingar do mau acolhimento desta e do seu grupo à minha entrada na sua vida, Goliarda procura vendê-las a vários joalheiros […]. Os proventos da venda permitiram-lhe escrever ‘Io, Jean Gabin’ e saldar as rendas em atraso da sua querida casa na Via Denza, de onde a estavam a despejar.” Apesar de, em 1983, o editor italiano lhe ter dado o sugestivo subtítulo de “A traumática experiência prisional de uma senhora respeitável”, a publicidade não poderia ter sido mais enganosa, pois os cinco dias que Goliarda passou na cadeia não só não a marcaram negativamente, como assinalaram o seu renascimento. O escândalo da sua detenção impulsionou a sua carreira literária há muito estagnada, a convivência com presas pertencentes às Brigadas Vermelhas e de delito comum serviu de mote a um romance posterior e trouxe-lhe novas amizades, já que várias das reclusas, entretanto libertadas, compareceram ao lançamento de “Universidade de Rebibbia”. Lembrar que, por razões políticas, também ambos os seus progenitores tinham passado pelo cárcere, pelo que, para ela, seria não só um motivo de orgulho, mas também uma forma de chamar a atenção para o facto de não conseguir publicar “A Arte da Alegria”, que levara 10 anos a escrever, razão por que tentou prolongar o período de detenção, mesmo quando os amigos se mobilizaram para a sua libertação.

A autodegradação gerada pela longa descida e, em seguida, pela passagem por um grande cancelo, e depois, ainda – cada vez mais baixo-, pela visão de uma dezena de pequenas portas metálicas trancadas em redor de uma praceta escura é tão poderosa que me surge como uma espécie de prazer a que podemos abandonar-nos para pôr fim às minúsculas angústias da vida, aos dilemas éticos, ao orgulho, à respeitabilidade. O que leva Goliarda Sapienza a chamar universidade à cadeia de Rebibbia não é aquela expressão descabida das pessoas que dizem que andaram na faculdade da vida, mas o local privilegiado que prima pela diversidade de classes e culturas, em que a partilha de diferentes realidades e a troca de vivências díspares enriquecem o convívio entre as reclusas e contribuem para a bagagem de cada uma delas, sejam novatas ou reincidentes.

Escapei há tão pouco tempo da imensa colónia penal que vigora lá fora, prisão perpétua social dividida em rígidas secções de profissões, classes, idades, que a possibilidade repentina de estar em união – cidadãos de todos os estratos sociais, culturais, nacionalidades – não pode senão parecer-me uma liberdade incrível, insuspeitada. De início, Goliarda, que tinha fobia a portões fechados e à falta de cigarros, fica na solitária, num silêncio aterrador, onde não tem sequer uma caneta ou um livro para passar o tempo, tentando controlar o riso fácil, que cedo percebe ser deslocado naquele local, concluindo que a imaginação, o seu maior trunfo como escritora, ali só a poderia prejudicar. Pouco tempo depois, passa a partilhar uma cela com outras duas reclusas e, após o choque inicial, começa a integrar-se e a conhecer todo o género de mulheres, na sua maioria acolhedoras e generosas que acabam, muitas vezes, por encontrar ali o lar e a aceitação que lhes falta no exterior.

Agora ando muito impaciente por sair porque faz um ano que estou dentro, mas ao fim de dois ou três meses em liberdade no anonimato - liberdade cuja única vantagem é deixarem-te morrer sozinha - sei que o desejo de voltar para aqui vai novamente tomar conta de mim. Não há vida sem comunidade, como se sabe: tens aqui a contra-prova, não há vida sem o espelho dos outros...

“A Universidade de Rebibbia”, que viria a dar origem ao Prémio Goliarda Sapienza que publica anualmente 20 contos escritos por reclusos, é uma leitura que reserva muitas surpresas e me faz ansiar pela próxima obra da autora que a Antígona tenha na calha.

-[…] Este trouxe-mo a minha irmã. É possível comprar tudo menos livros.

Aquele ‘Segundo Sexo’ da Simone de Beauvoir na mão da minha companheira deixa-me sem palavras.

- […] Para ser franca, ver-te com esse livro na mão deixou-me abatida!

- Não gostas?

- Não, não, gosto… É só porque ao cabo de 30 anos nunca mais o tinha visto nas mãos de ninguém… Foi preciso vir para a prisão…

A Universidade de Rebibbia, de Goliarda Sapienza, Antígona, Novembro de 2025, tradução de Manuela Gomes

A Correspondente

por Paula Mota
2026-05-03

Passei o resto da tarde a rever algumas das cartas que guardei. São centenas, aliás, imagino que cheguem aos milhares, e de pensar que cada uma delas tem um par algures, nem que seja no meio do lixo.

No final do ano passado, vi uma notícia que me deixou boquiaberta: depois de 400 anos, o serviço postal público dinamarquês iria deixar de entregar cartas, visto que essa forma de correspondência se tornou rara e obsoleta. Eu, que tive correspondentes nacionais e internacionais durante a adolescência, que me pelava por receber cartas da minha mãe e das minhas amigas durante as longas férias de Verão numa vila do interior, onde o telefone disponível era, precisamente, no posto dos correios, tive uma pequena crise existencial e literária. É, no entanto, a questão literária que interessa num espaço de partilha de leituras. Toda a troca de correspondência - entre escritores ou entre escritores e pessoas das suas relações - que foi editada em livro, que tantos leitores prezam e coleccionam, vai deixar de existir ou começou a tornar-se inviável já nos últimos anos, porque a troca de missivas e mensagens deixou de ter suporte físico. Quem vai imprimir e-mails e guardá-los em gavetas e baús como terão provavelmente feito os escritores até aqui? E as mensagens de SMS e de WhatsApp que irão todas desaparecer no éter sem deixar rasto?

As cartas todas que mandamos, e as que recebemos em resposta, são como as peças de um puzzle fantástico, ou uma metáfora melhor, ainda que datada, os elos de uma longa corrente; e mesmo que esses elos nunca voltem a ser ligados, e é quase certo que não voltarão a ser, mesmo que permaneçam espalhados pelo planeta até ao fim dos tempos […], não há também nisso algo de maravilhoso, na ideia de que a história da nossa vida está preservada de alguma forma, de que até esta carta pode um dia vir a significar algo, mesmo que não seja muito para alguém?

Abarcando uma década de cartas e já alguns e-mails, o que alia a paixão e teimosia de uma mulher de idade aos sinais dos tempos, “A Correspondente” é um romance epistolar perfeito na sua concepção e bastante eficaz na manipulação emocional do leitor, o que neste caso não é um defeito, é a natureza do bicho.

Virginia Evans é uma escritora competente que consegue um verdadeiro passe de magia ao organizar as cartas que a septuagenária Sybil escreve religiosamente à sua melhor amiga, aos filhos, ao irmão, aos autores dos livros que lê e ao filho de um amigo, de forma a contar a história da sua vida sem parecer forçado nem fazer do leitor um tontinho, provando que aprendeu uma coisa ou duas no programa de mestrado de escrita criativa ministrado, entre outros, por Claire Keegan.

Sybil Van Antwerp, reformada depois de uma intensa vida profissional na área da advocacia, é uma mulher metediça e rabugenta, com um carácter adstringente e opinião formada sobre tudo, cujas atitudes só compreendemos em grande parte na derradeira carta, pelo que viramos as páginas com a mesma antecipação com que, em tempos se aguardava a passagem do carteiro, numa edição portuguesa irrepreensivelmente traduzida.

Quando era pequena, descobri que escrever cartas me dava uma estrutura que tornava a vida mais fácil, e isso nunca mudou. Contudo, pergunto-me se, ao ter tido as relações mais íntimas da minha vida, por correspondência, me terei, desde criança, afastado dos outros. Acho que é verdade que as cartas me isolaram como um campo de forças, tal como o exercício do direito me isolou do contacto direto das ações humanas, e eu não mudava isso se pudesse, mas agora dou por mim, com esta idade a querer proximidade.

A Correspondente, de Virginia Evans, Casa das Letras, Janeiro de 2026, tradução de Sebastião Sousa

A Ilha e os Demónios

por
2026-04-08

Assustada, viu, como a luz de um relâmpago, aquilo que os pais carinhosos, os bons professores e as amigas ternas nos ocultam sempre: a grande e desolada solidão em que se move o homem. Fechou os olhos como se algo estivesse realmente a feri-los. Depois, voltou para casa, séria. Tornou concretos os seus pensamentos na frase que repetia sempre a si própria: “Isto é crescer, estou a crescer.”

Oito anos depois da sua celebrada estreia com “Nada”, Carmen Laforet publicou este livro com laivos autobiográficos que é impossível ler sem estabelecer paralelos constantes com o seu antecessor. Ambos são romances de formação, ambos são protagonizados por jovens raparigas órfãs ou praticamente órfãs que querem prosseguir com os estudos, vivendo com parentes que as antagonizam e tentam cortar-lhe as asas, convivendo com casais tóxicos em ambientes que provocam claustrofobia, numa Espanha em plena Guerra Civil ou no período imediatamente a seguir.

De início, os demónios referidos no título parecem ser somente as divindades guanches adoradas pelo povo berbere originário das ilhas Canárias, que servem de base às lendas redigidas pela jovem Marta Camino, que aspira a ser escritora, mas, com o avançar da narrativa, damo-nos conta dos vários demónios que habitam cada uma das personagens de “A Ilha e os Demónios”. Para a mãe de Marta, Teresa, praticamente catatónica, é a perda do marido; para o seu irmão José, é o desejo de dar provas a quem o humilhou e a ânsia de ficar com a quinta da família; para a sua cunhada, são os ciúmes doentios; para a fiel criada da casa, os bruxedos que tem fama de lançar por vingança. Quando chegam à ilha os parentes de Madrid e um amigo pintor, fugidos da guerra civil, conhecemos uma nova espécie de demónios: a luxúria, a soberba, a resignação, o cinismo.

Marta, com apenas 16 anos, conhece apenas o afecto das amigas desde que o avô morreu…

Marta não concebia a vida sem consultar o seu grupo de amigas a respeito das suas preocupações. Sentia-se muito mais ligada a elas do que à sua família. […] Também se sentiam unidas e metidas numa espécie de círculo mágico a partir do qual viam a vida de uma forma diferente das outras pessoas.

…pelo que busca instintivamente agradar a toda a gente, depositando nos outros toda a fé que a sua inocência lhe permite, sendo constantemente rechaçada sem perceber porquê.

Muitas vezes, enquanto crescia, pensara que estaria mais próxima dela se Teresa tivesse realmente morrido. Então, ter-lhe-ia falado de uma grande solidão, tal como falava com o seu pai e com os autores, e até com as personagens dos seus livros favoritos.

O dom desta obra é dar-nos a perspectiva da rapariga durante os dois primeiros terços para, no final, a confrontarmos com a vivência das personagens com quem ela entra em conflito, percebendo, deste modo, as suas motivações e o peso da sua bagagem, aplacando um pouco o repúdio do leitor.

Olha, vou dizer-te porque é que não quero ler as tuas coisas. Não sei se tens talento ou não. O mais provável será não teres; mas, ao fim e ao cabo, é a mesma coisa… Repugna-me ver-te todo o dia sem fazeres nada a não ser pensar em ti própria. […] Muitos dos meus melhores amigos morreram, outros estão a passar fome, outros no desterro. Queres que fique extasiada perante uma adolescente cheia de problemas falsos e literários?

Apesar de se terem passado apenas alguns meses, a Marta que encontramos nas últimas páginas, exposta aos demónios dos outros e com mais maturidade para lidar com os seus, já não é e já não se sente a mesma.

Ali, junto à janela, ouvia o murmúrio de todas as mulheres como água que corre distante: um zumbido surdo do qual ela prescindia. Imóvel como uma estátua… Não voltaria a ser a criatura cega e feliz de antes, depois de ter sido mordida pelos demónios.

A Ilha e os Demónios, de Carmen Laforet, Cavalo de Ferro, Setembro de 2025, Tradução de Virgílio T. Viseu e Sofia Castro Rodrigues

Uma sociedade, de Virginia Woolf

por Paula Mota
2026-03-23

Em linguagem corrente, o que Virginia Woolf faz neste extraordinário e cáustico conto é um roast ao patriarcado e às suas instituições. Já sabia que ela era uma excelente ensaísta, palestradora e contista, mas esta vertente de humorista surpreendeu-me.

Ó Cassandra, pelo amor de Deus, inventemos um método para que os homens possam dar à luz! É a nossa única esperança. Pois, se não lhes arranjarmos uma ocupação inofensiva, não teremos nem gente de bem nem bons livros.

No início do século XX, um grupo de jovens mulheres reúne-se para tomar o chá e tecer elogios aos homens e aos seus feitos, até que uma delas quebra o feitiço. Poll tem, a fim de receber uma herança, de ler todo o recheio da Biblioteca de Londres, aquela que decerto muitos leitores gostariam de ter como missão na vida, mas, na verdade, o pai ofereceu-lhe um presente envenenado, pois agora ela apoderou-se de uma informação chocante: os livros, maioritariamente escritos por homens, são execráveis. Esta constatação indigna o grupo que até ali aceitara o tradicional acordo tácito entre homens e mulheres.

Ao longo de todo este tempo, sempre acreditámos que os homens eram igualmente laboriosos e que as suas obras tinham igual mérito. Enquanto dávamos à luz os filhos, eles, julgávamos nós, davam à luz os livros e as pinturas. Nós povoámos o mundo. Eles civilizaram-no.

Como o conhecimento é poder, conscientes desta informação avassaladora, decidem, quais Lisístrata e suas companheiras dos tempos modernos, fazer greve até apurarem responsabilidades.

Jurámos solenemente que não traríamos ao mundo uma única criança enquanto não estivéssemos satisfeitas.

Com esse propósito, formam uma sociedade para indagar, realizar actividades culturais e, sobretudo, observar o espécime no seu habitat natural, apresentando os relatórios cinco anos depois. Entre resultados pouco conclusivos e muitas contradições, chega-lhes a notícia do início da Primeira Guerra Mundial, o que as leva a perguntar-se se a ignorância não trará realmente felicidade, dando, no entanto, também voz às preocupações pacifistas de Woolf, que considerava os conflitos bélicos indissociáveis das estruturas patriarcais.

Já sei o que vais dizer sobre a guerra – atalhou – e sobre o horror de dar à luz filhos para os ver morrer, mas foi o que fizeram as nossas mães, e as mães delas e as mães destas antes delas. E não se queixavam. Não sabiam ler.

Finda a guerra, duas das amigas encontram-se para rever as actas das antigas reuniões, o que leva uma delas a desabafar sobre a angústia que lhe causa a curiosidade crescente da filha que acabou de aprender a ler.

- Certamente poderias ensiná-la a acreditar que o intelecto masculino é, e sempre será, fundamentalmente superior ao feminino? – sugeri.

[…]

- Ó Cassandra, porque me atormentas? Não sabes que a nossa crença no intelecto masculino é o maior de todos os enganos?

Recorrendo à ironia para expor a verdade subjacente aos mitos que têm servido de alicerce à humanidade, “Uma Sociedade” ilustra o poder do sentido crítico, mesmo que este traga dissabores, optando por um tom mais sério e esperançoso na passagem do testemunho à geração seguinte.

Assim que aprender a ler, só há uma coisa em que podes ensiná-la a acreditar, e é em si mesma.

Uma Sociedade, de Virginia Woolf, Penguin, Junho de 2025, tradução de Gonçalo Neves.

A Nossa Hora

por Paula Mota
2026-03-06

A escrita talvez me ajude a compreender. Não quero voltar a Kramatorsk, só escrever sobre Kramatorsk. Não sei o que mais fazer. Nada. Sento-me e escrevo. Mesmo que não queira. Obrigo-me a escrever. Que mais posso eu fazer?

Quando chega a nossa hora? É algo que está escrito ou depende de nós? No dia 27 de Junho de 2023, às 19h28, a alguns quilómetros da frente de batalha no Donetsk, se não tivesse trocado de lugar com a escritora Victoria Amelina por ouvir mal do ouvido direito, talvez tivesse chegado a hora de Héctor Abad Faciolince, quando um míssil russo atingiu uma pizzaria, matando 13 pessoas.

Nos últimos anos, depois de sofrer um achaque atrás do outro, tendo padecido de doenças relativamente sérias, sentia cada vez mais que a velhice era horrível e que me estava a despedir da vida aos poucos, sentido a sentido. Sempre que me faziam o célebre questionário de Proust, eu respondia a mesma coisa na última pergunta: Como é que quer morrer? Percebendo que estou a morrer, pois a morte é a última experiência da vida.

O que instiga um escritor colombiano de 65 anos, com alguns problemas de saúde, a visitar a zona mais massacrada da Ucrânia depois da passagem por uma feira do livro em Kiev? Passei dois terços desta obra incrédula, quase indignada por Faciolince, num gesto puramente simbólico de solidariedade, basicamente em resposta a um desafio de outro homem, ter arriscado a sua vida desta forma. Eu sei que os homens jovens morrem mais do que as mulheres por actos impensados, mas pensava que a idade trouxesse um certo bom senso. Das cinco pessoas que formavam o seu grupo, era ele o mais inexperiente e incauto em situações de conflito. Dima, o motorista, era já um guia calejado neste teatro de guerra; Sergio Jaramillo, além de Alto-Comissário para a Paz e vice-ministro da Defesa da Colômbia, foi o conselheiro de segurança nacional responsável pelas negociações com as FARC, o maior grupo de guerrilha do país; Catalina Gómez, calejada repórter de guerra, tinha nervos de aço; e Victoria Amelina, escritora e activista ucraniana, achava que era sua obrigação não só levar uma vida tão normal quanto possível, como documentar as atrocidades causadas pelas forças russas.

A Victoria intitulou o seu diário, que tencionava polir e terminar em Paris, “Olhando para Mulheres que Olham para a Guerra”. Então, eu vejo, com os olhos da imaginação – e com uma fotografia que a Catalina enviou na qual estava a dar a mão à Victoria, que tinha um oxímetro no dedo indicador -, as duas mulheres a viajarem juntas numa ambulância, uma a morrer e a outra a ver morrer a amiga. A Victoria não fugia e a Catalina não foge da guerra. São mulheres como elas que nos ensinam a vê-la, a perceber a sua dor, o seu sofrimento inaudito, a terrível injustiça que os homens fortes (anteontem Estaline e Hitler, ontem Putin, hoje Trump e Natanyahu, amanhã e depois de amanhã não sei quem) tentam fazer passar por algo heroico, necessário e, até, paradoxo dos paradoxos, pacificador.

Sendo “Somos o Esquecimento que Seremos” um dos meus livros de memórias preferidos mas tendo desistido de “Salvo o Meu Coração Tudo Está Bem”, sou tentada a concluir que o forte de Faciolince é o registo autobiográfico, sobretudo no que toca a terceiros. Ainda que exprima de forma honesta e condoída o stress pós-traumático e a culpa de sobrevivente que assola tantos que escapam a catástrofes e atentados à vida, enfadou-me um pouco seu solipsismo e os seus queixumes, enquanto as suas palavras sobre a morte estúpida de Victoria, que deixou um filho de 11 anos, me tocaram profundamente.

“As histórias devem salvar-se a todo o custo, saltar de um corpo quase morto para outro vivo. É a sua última oportunidade.” – Victoria Amelina

Apaziguei-me, no entanto, com esta decisão precipitada do autor quando ele próprio se interroga acerca das suas motivações, evocando recordações dolorosas e nunca saradas.

O mistério é precisamente este, o único motivo pelo qual comecei a escrever no meu caderno preto, para tentar compreender a justiça, mas também o absurdo, da minha decisão: eu, que não fizera nada quando mataram o meu pai e me limitei a fugir; eu, que não fora ativista político no meu país, porque é que agora decidia armar-me em ativista a favor de uma nação muito longínqua.

Ainda que eu encare com cepticismo a presença de Victoria Amelina que afirma que o acompanha desde a sua morte, “A Nossa Hora” é uma belíssima homenagem a essa mulher de coragem e também uma confissão extraordinariamente humana e franca, onde Faciolince abre a sua alma com uma vulnerabilidade que admiro e entendo.

Creio que fui à Ucrânia, e depois ao Donbass, para tentar demonstrar, sobretudo a mim próprio, que não era um cobarde. E já no coração do Donetsk e das trevas, em Kramatorsk, a vida voltou a mostrar-me o que sou, o que não posso deixar de ser e o que não perdoo a mim próprio.

A Nossa Hora, de Héctor Abad Faciolince, Alfaguara, Outubro de 2025, tradução de Margarida Amado Acosta

Dei-te Olhos e Viste as Trevas

por Paula Mota
2026-02-02

[Esta resenha poderá revelar mais do que alguns leitores desejam se gostam de avançar e interpretar à vossa maneira. Se se encontrarem nesta perigosa encruzilhada, façam a escolha acertada.]

“Mulher peluda, o diabo ajuda”, “Quando o demónio não pode, envia a mulher”, “Quando hesita, pergunta à mulher”, “Onde não há mulheres, o diabo as trará” […]. “Quando o diabo quer aprender, toma a mulher por mestra”, “Quando o diabo e a mulher vão jogar, ela vai ganhar.”

Esta sucessão de provérbios resume a dinâmica de Dei-te Olhos e Viste as Trevas: o movimento de atracção e repulsão entre o demónio e a mulher, que fazem destes dois seres ontologicamente ligados a perfeita dupla satânica. Irene Solà pega no mito fáustico, pelo qual não nutro nenhum apreço, celebrizado por autores do sexo masculino como Christopher, Joahann von Wolfgang Goethe, Thomas Mann e Mikhail Bulgakov, e adapta-o aqui ao universo feminino. Joana, a matriarca da Casa de Clavell, faz um pacto com o diabo para arranjar marido, mas como é ladina, recorre a um estratagema para não cumprir a sua parte. Por vingança, o diabo lança-lhe uma maldição que se estenderá a toda a sua descendência.

A menina tinha dor no coração. Faltava-lhe um pedaço. […] Depois de Margarida, Joana deu à luz Blanca, que nasceu sem língua. A boca como um ninho vazio. E Joana sentiu novamente o ferrão da suspeita, mas não ligou as pontas soltas. Depois veio Esperança. A sua esperança, pequena, coitadinha sem fígado e morreu amarela como um pintainho. […] Mas Joana ainda não quis acreditar. E então teve o herdeiro. […] Nasceu sem buraco lá atrás e morreu.

Expedita, Joana toma medidas.

À força de salgueiro, hera, raízes de aveleira, poejo e cânhamo estrangulou aquele fluxo de parir crianças a meia cozedura.

Numa família de linhagem exclusivamente feminina e de sucessivas mães solteiras com as suas filhas defeituosas, é a mais velha quem a seguir assume a chefia, com mão de ferro e temor a Deus.

Margarida tinha dito que naquela casa nunca mais voltariam a entrar nem ladrões, nem almocreves, nem homens do vice-rei, nem roders, nem moços, nem mestres lobeiros, nem soldados, nem pretendentes.

A sexualidade destas mulheres, no entanto, não pode ser reprimida e encontra outras formas de se expressar…

E desde aquele dia que Blanca e Elisabet se tinham amado. De todas as maneiras que se podia amar. Como os corços. Com delicadeza. Como as galinhas. Encolhidas. Como os patos, com força bruta. Como as cabras, impacientes. Como as lebres, brincalhonas.

…culminando no acto sacrílego em que o círculo se fecha.

Dentro dos olhos de Margarida só havia o touro e a mulher e as nádegas e as barrigas. E no seu nariz só cabia o fedor infecto de sexo, de cabra, de pés, de rabo, de água estancada, de zonas íntimas. Resfolgava.

É, pois, a velar a concubina do diabo no seu leito de morte que encontramos Margarida no início da obra, enquanto o resto do conventículo prepara um banquete em grande azáfama e algazarra.

As mulheres da cozinha enlouqueceram. Dolça ria-se como uma cabra. Elisabet, como um furão. Àngela, como um javali. Joana, como uma égua. E Blanca abria a boca como uma vitela e batia com os pés e as mãos para arranjar confusão.

É entre estes dois espaços que a narrativa se desenvolve, misturando igualmente dois planos, o real e o sobrenatural, bem como dois frisos cronológicos com referências que de início causam alguma perplexidade mas resultam lindamente, apesar de satanás continuar a ser uma personagem muito fraquinha no meu cânone, sobretudo rodeado por esses ícones da libertação feminina que são as bruxas.

E, em vez do Céu e dos anjos e das mãos de Deus a enxugar-lhe a face, a sua mãe, Joana, como uma égua desdentada, a sua irmã Blanca, que foi a única que gostou de ver, embora não muito, a sua sobrinha Ángela, a quem a morte tinha conservado a expressão de javali, e Elisabet, a quem, se Margarida não tivesse tido os sentidos fraquíssimos e atordoados, teria arrancado todos os cabelos da cabeça, rodearam-na. Mas estavam mortas! As quatro. Virgem Santíssima, algumas estavam mortas há muito tempo. Almas condenadas!

Dei-te Olhos e Viste as Trevas, de Irene Solà, Cavalo de Ferro, Setembro de 2025, tradução de Rita Custódio e Àlex Tarradelas

Não Dormir

por Paula Mota
2026-01-13

Os que nasceram antes dos anos 1990 lembram-se do tédio. Para viver, era preciso sair do quarto a todo o custo. […] O tédio é substituído pela impaciência.

O verdadeiro sono dos justos é, decididamente, uma coisa complexa, frágil e mutável, e é sobre isso que discorre Marie Darrieussecq, de quem só tinha lido Estranhos Perfumes, uma das obras mais incómodas de horror corporal que habitam nas minhas estantes e que calculo que seja fruto de um pesadelo ou da sua mente insone.

Ocultando-se nas nossas águas furtadas, escondida debaixo dos nossos colchões, enfiada entre as ripas do tempo, de onde vem a insónia? Dos fantasmas? Do cérebro? Das dores da alma? Do mundo? Quem é que não dorme quando eu não durmo?

Não Dormir é um relato que abrange 20 anos de insónias, a busca de soluções através de tentativa e erro e noctívagas viagens pelos livros de outros insones, cujo patrono é Franz Kafka. Darrieussecq polvilha o seu texto com citações literárias…

A literatura é toda ela formada por paraísos perdidos e insónias. O erro dos insones é acreditar que se pode, não reencontrar o sono, não sonhemos, mas recuperar o sono perdido. Ora, o sono perdido nunca se recupera. O sono perdido, tal como o Paraíso, é uma Idade de Ouro e uma nostalgia.

…mas também referências cinematográficas e musicais, mais precisamente com os nomes daqueles que combateram insónias e outros demónios com a artilharia pesada:

Quantas estrelas morreram assim, na esperança de adormecer? Michael Jackson (Lorazepam e Propofol), Prince (Fentanil), Jimi Hendrix (álcool e 9 cápsulas de Seconal), Judy Garland (álcool e 10 cápsulas de Seconal)… E depois, puros produtos do matadouro hollywoodesco, um número infinito de starlettes.

Até lhe ser diagnosticada a hipervigilância por uma sonologista, Darrieussecq tentou todos os recursos pensáveis e impensáveis para invocar o sono: um cão para caminhadas, tisanas, acupunctura, osteopatia craniana, psicanálise, ioga, jejum, hipnose, álcool, ASMR, gravity blanket e outros métodos com nomes estranhos, dois casamentos (teve graça aí), a literatura (infalível comigo) e, obviamente, o álcool e os soporíferos. Obedecendo, então, a uma rígida higiene do sono que implica usar a cama com um único propósito e num único horário, a autora menciona um facto histórico que sempre achei curioso.

Na Idade Média […] as pessoas iam para a cama ao pôr-do-sol. Era a primeira noite. Acordavam algumas horas depois, acendiam o fogo, comiam, faziam amor, conversavam. Depois, tornavam a adormecer para a segunda noite. Era um ritmo normal.

Não Dormir é uma obra bem pensada e consubstanciada, ainda que pudesse ser mais curta, já que a inclusão dos últimos capítulos parece um tanto forçada. Abordando causas (muito meritórias) que lhe são caras também por formação, visto que é psicanalista, aborda o assunto do sono em situações de sem-abrigo e de trauma, bem como os problemas que podem tirar-nos o sono, como a nossa relação predatória com os outros seres vivos.

É preciso amar profundamente a Capela Sistina, a Pirâmide de Quéops e o som de Coltrane e o traço de Shi Tao e toda a literatura para continuar a amar os homens. […] E não nos tira um pouquinho o sono dispor dos animais como objectos? Ou fingir que há nós e os outros? Não nos impede isso de dormir, de agir como se eles não existissem?

Não Dormir, de Marie Darrieussecq, Livros Zigurate, Julho de 2025, tradução de Diogo Paiva

Quem Matou o Meu Pai

por Paula Mota
2025-12-09

Hollande, Valls, El Khomri, Hirsch, Sarkozy, Macron, Bertrand, Chirac. A história do teu sofrimento tem nomes. A história da tua vida é a história dessas pessoas que se foram sucedendo para te abater. A história do teu corpo é a história desses nomes para o destruir. A história do teu corpo acusa a história política.

Se Édouard Louis tem como cartão-de-visita a frase “toda a minha escrita é política”, não é de admirar que não tenha pejo em apontar o dedo a presidentes e ministros franceses, tanto à esquerda como à direita, pela debilidade física, psicológica e até moral do seu pai.

Já não podes conduzir, já não te é permitido beber álcool, já não consegues tomar banho ou ir trabalhar sem correres um enorme risco. Tens pouco mais de 50 anos. Pertences àquela categoria de seres humanos a quem a política reserva uma morte precoce.

Quem Matou o Meu Pai foi publicado um ano depois de um artigo que surgiu na primeira página do “New York Times”, na véspera das eleições presidenciais francesas de 2017, “Why My Father Votes for Le Pen” [“Por que Razão o Meu Pai Vota em Le Pen”].

Sabia pelos livros dedicados à mãe que Louis escreveu mais recentemente que a relação com os pais até sair de casa aos 16 anos, para ir estudar noutra localidade, foi complexa e tensa, sobretudo por o considerarem efeminado, mas ainda mais conflituosa com o pai, que era um alcoólico, um pequeno déspota no seio da família e um exemplo acabado da masculinidade tóxica.

A masculinidade - não te comportes como uma rapariga, não sejas paneleiro - equivalia a sair da escola o mais depressa possível para se provar aos outros que se era forte, o mais cedo possível para se mostrar que se era insubmisso, e, portanto, pelo menos é o que deduzo, ao construir-se a própria masculinidade era-se privado de uma outra vida, de um outro futuro, de um destino social diferente que os estudos poderiam tornar possível. A masculinidade condenou-te à pobreza, à falta de dinheiro. Ódio da homossexualidade = pobreza.

Talvez por se ter munido de outras ferramentas, como os amigos que formam agora a sua nova família e o curso de Sociologia que lhe expandiu os horizontes, talvez por se ter conseguido realizar profissional e pessoalmente, talvez por ter percebido que não é a única vítima do sistema, tenha conseguido sublimar o seu rancor e substituir parte dele pelo afecto que algumas pessoas maltratadas conseguem recuperar pelos pais quando chegam a adultos. Um dos mecanismos de que Louis se socorreu foi, sem dúvida, o redireccionar a sua raiva do indivíduo para o Estado.

A tua vida prova que não somos o que fazemos, mas que, pelo contrário, somos o que não fazemos porque o mundo ou a sociedade nos impediram. Porque aquilo a que Didier Eribon chama “vereditos” se abateu sobre nós – gays, transexuais, mulheres, negros, pobres -, e fez com que certas vidas, certas experiências, certos sonhos se nos tornassem inacessíveis.

 Quem Matou o Meu Pai, de Édouard Louis, Elsinore,  Setembro de 2025, Tradução de Luísa Benvinda Álvares

 

Transgressões

por Paula Mota
2025-11-24

Apesar da minha paixão assolapada pela Irlanda e pelos autores desse país, demorei algum tempo a ceder à leitura deste livro, mesmo abordando uma das épocas que me atrai como um íman, os Troubles, o conflito que grassou entre protestantes e católicos, na segunda metade do século XX, na Irlanda do Norte.

Rebentou uma bomba em Belfast, anunciou.

Ele diz isto todos os dias, comentou o Jonathan, que se sentava ao lado dele. Pois, e hoje é verdade. Obrigada, Davy, rematou Cushla.

Jonathan levantou-se. Não foi em Belfast, declarou. Foi uma bomba-relógio destinada a uma patrulha a pé do Exército Britânico que explodiu antes do tempo, matando dois rapazes junto à fronteira. Os rapazes tiveram morte instantânea.

Bomba-relógio. Dispositivo incendiário. Gelenhite. Nitroglicerina. Bomba de petróleo. Balas de borracha. Carro de combate. Detenção. A Lei das Competências Especiais. Vanguarda. Era este o vocabulário das crianças de sete anos.

“Transgressões” tem no seu âmago a relação de uma jovem professora católica com um homem mais velho, protestante e casado, e era isso que, de facto, me afastava desta obra, o cliché explorado na ficção como se fosse novidade. Só que Cushla é uma protagonista magnífica, com um sentido de justiça muito apurado, e Louise Kennedy não permite que ela seja definida pela sua história de amor, se é realmente disso que se trata naqueles encontros clandestinos na garçonnière de Michael Agnew e naquele sexo patético à la Sally Rooney.

O caso entre estas duas pessoas de mundos em constante conflito no Ulster está enquadrado pela cena inicial, que decorre num museu em 2015, em que vemos uma Cushla envelhecida a encontrar-se inesperadamente com alguém cuja identidade só é revelada no capítulo final, num desfecho confrangedor que dá conta que as boas intenções podem trazer consequências inesperadamente nefastas.

“Transgressões” é muito mais do que uma obra sobre um amor proibido, pois ao existir num ambiente de cortar à faca, em que a população católica tem de conviver com o invasor protestante, sucedem-se os episódios de subjugação e de humilhação de uma comunidade, em que se reúnem as condições perfeitas para a revolta e para o terrorismo. Seja na Europa, no Médio Oriente, ou noutro local do mundo onde a autodeterminação é uma impossibilidade, é fácil perceber também aqui como são os jovens recrutados por movimentos independentistas.

Valha-me Deus, exclamou Cushla. Quer dizer que ele ia apenas a andar pela rua?

Nesta cidade, o relevante não é o que a pessoa faz, é o que a pessoa é, fez-lhe notar ele.

Cushla contou-lhe o que estava escrito no muro [“Fora com os católicos”], que os vizinhos lhes atiravam fezes. Contou-lhe que os colegas se metiam com Davy porque a roupa dele cheirava a fritos, que, para o miúdo, o facto de o pai ter arranjado trabalho era uma notícia.

Transgressões, de Louise Kennedy, Porto Editora, Março de 2025, tradução de Maria José Figueiredo

O Sentido da Náusea

por Paula Mota
2025-11-01

Os seus espasmos vinham sozinhos, voluntariosos, como se regressassem a casa. Eu não precisava de enfiar os dedos na garganta, porque vomitava com a cabeça, não com o estômago. Um vómito inteligente.

Michela Murgia foi uma escritora muito completa e audaciosa, intensa no romance (“Acabadora”), frontal na não-ficção (“Ave Mary”) e, com a leitura de “O Sentido da Náusea”, comprovo a sua lucidez e capacidade de empatia nos contos. Digo “foi” porque Murgia morreu em 2023 devido a um carcinoma renal, tendo concluído o seu derradeiro livro, publicado postumamente, três dias antes da sua morte. Mesmo com a sentença de morte já passada, a autora e activista não deixou de provar que era uma mulher de fibra em relação não só à doença, mas também ao panorama político no seu país.

«A escritora disse ainda que "a guerra pressupõe perdedores e vencedores" e, como já sabe o final da história, não se sente uma perdedora. "Tanto faz se não me sobrar muito tempo: o importante para mim agora é não morrer fascista", declara Murgia, que se define como de esquerda. Por fim, a italiana enfatizou que não tem medo da morte, mas espera morrer somente quando Giorgia Meloni deixar de ser a primeira-ministra da Itália, porque o seu governo é fascista.»

Fiquei ainda mais impressionada com a força de Murgia quando percebi o carácter autobiográfico do primeiro conto, “Expressão Intraduzível”, onde introduziu a sua experiência com um tratamento de imunoterapia, bem como a visão que assumiu publicamente de o cancro ser uma parte de si e não um inimigo a combater.

A culpa era do médico, obviamente. As palavras que aquele homem tinha usado alteravam o cenário simbólico e obrigavam-na a mover-se em direção a um objetivo que não lhe era familiar: o pacto de não-beligerância. O que devia ser um adversário a destruir acabara de lhe ser descrito com um cúmplice da sua complexidade, uma parte desorientada do seu corpo sofisticado, um curto-circuito do sistema em evolução, nada mais do que um companheiro a enganar-se. Não estava habituada a perder com as palavras. Qualquer batalha que tivesse imaginado travar contra a doença soava agora como um projeto de autodestruição. Não tinha forças nem vontade de entrar em guerra consigo mesma.

Ao abdicar-se na versão portuguesa do título original deste conjunto de histórias,"Tre Ciotole, Rituali per un anno di crisi", perde-se o fio condutor das mesmas, pois o que as une é a ideia de se chegar a um limite ou um ponto de viragem devido a alguma situação trágica ou de tensão, como a pandemia, a morte, uma amizade tóxica, o fim de um relacionamento ou a síndrome do ninho vazio.

Tens de compreendê-lo, disseram-me, está desorientado, já não te reconhece, estás sempre nervosa, descarregas nele. Toma as gotas para a menopausa e aproxima-te dele, coitadinho, já fez tanto. Esse “tanto” deve ser ele ter casado comigo embora eu já tivesse um filho, e é por essa graça, imagino, que o facto de eu estar em sofrimento só importa porque o faz sofrer a ele. Não dou ouvidos a estas tolices. Elas que tomem as gotas, que façam terapia para processar as emoções, que se inscrevam no ioga ou em cursos de iquebana, que marquem sessões de acupuntura, que se convertam ao budismo, que engulam todos os comprimidos que queiram, nunca as julguei por nenhuma das suas anestesias.

- Boneco Animado –

Além destas crises pessoais que afectam os protagonistas, Murgia ainda consegue unir alguns dos contos com participações especiais de algumas personagens em enredos alheios, sendo isso evidente e muito bem conseguido na dupla “O Sentido da Náusea/Recalcular a Rota”, em que, primeiro, conhecemos uma mulher que perde peso a olhos vistos porque desde que o namorado a deixou ganhou aversão à comida…

Continuei a aprender com o vómito e as suas razões. Por exemplo, aprendi que as coisas que não se podem esconder não são três, mas quatro: um espirro, a beleza, a pobreza e o facto de que alguém é um merdas.

…e, em seguida, lemos a perspectiva do “merdas”, que pede a um amigo que lhe faça um mapa para poder navegar na cidade sem o risco constrangedor de poder reencontrá-la.

Estava certo de a ter deixado porque já não a amava, mas amara-a o suficiente para compreender que as recordações são mais persistentes do que as pessoas. A verdadeira armadilha era a memória, não o amor. Havia lugares a que não ia só porque aí se lembrava de a ter lembrado.

O Sentido da Náusea, de Michela Murgia, Elsinore, Junho de 2025, tradução de Ana Cláudia Santos

Como Animais, de Violaine Bérot

por Paula Mota
2025-10-14

Depois dos Pirenéus espanhóis de Irene Solà em Eu Canto e a Montanha Dança, chega Violaine Bérot, que se refugiou no lado francês dessa cadeia montanhosa quando tinha 30 anos.

Como Animais tem no seu cerne uma espécie de parábola contada através de um conjunto de depoimentos prestados à Polícia, com uma componente de tragédia grega dada pela existência de um coro, que permite a esta obra escrita num estilo coloquial passar uma mensagem vigorosa e inequívoca: quem se comporta como um animal, afinal?

Não, não estou a idealizar. Mas, para o senhor, que veio da cidade, isto não é fácil de compreender. Já não vê grande relação entre os animais e os humanos. Suspeito que tudo isso já não seja o seu mundo.

Ao povoado de Ourdouch afluem polícias e jornalistas depois de um caminhante ter sido atacado por um jovem eremita conhecido por Urso, que se fazia acompanhar por uma menina, ao que tudo indica, selvagem. Ao longo de 14 entrevistas recolhidas pelo comissário encarregue da investigação, juntam-se as peças do quebra-cabeças que permitem ao leitor perceber quem é este jovem e a sua reservada mãe, como se isolaram numa cabana de difícil acesso nas montanhas e qual é a sua rede de subsistência. Começando pela professora primária, que nos dá a perceber que o rapaz está provavelmente no espectro do autismo…

Se o deixássemos ao fundo, sozinho, se o esquecêssemos  - enfim, quero dizer, se procedêssemos como se o tivéssemos esquecido -, era mais fácil. A verdade é que podíamos perfeitamente tê-lo esquecido. Ele não fazia barulho, não falava. Nunca falou. Penso que era de nascença.

…até às declarações da mãe desesperada…

É que me explicaram, era ele recém-nascido, que seria psiquicamente muito atrasado e que, por isso, teria de ser seguido toda a vida. Vivíamos na cidade, tudo o fazia gritar, o ruído dos motores e das buzinas […]. Se ouvia o canto de um pássaro, sorria. […] Foi por isso que viemos embora. Porque percebi que fechá-lo num hospital, digam os especialistas o que disserem, não era solução. […] Tinha necessidade de liberdade, e a professora propunha-me o contrário, fechá-lo.

…passam pelos nossos olhos os interrogatórios realizados a vizinhos, ao carteiro, a um caçador, a turistas, a pastores e, num desfecho dilacerante, à farmacêutica, pintando no geral uma imagem de tolerância e respeito pela diferença, desmistificando preconceitos infundados.

Ao observarmos a miúda que ele protegia, tínhamos invadido de novo o seu território, estávamos em falta, cabia-nos a nós sair dali. Reagimos simplesmente como diante de um animal selvagem que defende a sua cria. Ora, não podemos recriminar um animal por ter instinto, não é verdade?

E no discurso dos habitantes, as constantes referências a esse coro grego que são as fadas, a lenda local que até os mais cépticos reproduzem.

Os velhos insistem nessa tecla. As fadas, se tivermos a infelicidade de lhes tirar uma criança, tornam-se piores do que as bruxas. Dizem que o que se vai passar será terrível, que a aldeia nunca recuperará da maldição. Estou a repetir-lhe aquilo que oiço. Para eles, é preciso libertar o Urso e levar de novo a criança para a gruta.

Bérot leva-nos a meditar sobre o nosso lado animal: o que tem de primordial, como o cérebro reptiliano que nos traz o instinto de sobrevivência; e o que tem de brutal, quando nos deixamos levar pelos impulsos mais irracionais. Como Animais não precisa de muitas palavras elogiosas, tal como não precisa de muitas páginas para meter o dedo na ferida, por isso, é preferível o salto no escuro. Não se arrependerão.

Nós

as fadas

adivinhamos

o que pode significar

no mundo de baixo

ser menina

ser rapariga

ser mulher.

Como Animais, de Violaine Bérot, Antígona, Junho de 2025, tradução de Luís Leitão

Porque escrevo

por Paula Mota
2025-09-23

A opinião de que a arte nada deve ter a ver com a política é em si uma atitude política.

A escrever do outro lado do Canal da Mancha sensivelmente na mesma época, Orwell mostra outra faceta da icónica frase de Simone de Beauvoir: “O pessoal é político.” E dos quatro motivos apresentados pelo autor britânico, parece ser o propósito político aquele que levava a primazia quando decidia escrever. Dado ao prelo um ano após o término da Segunda Guerra Mundial e da publicação de A Quinta dos Animais, o seu célebre libelo contra o estalinismo, como poderia o autor não ter, antes de mais, um olhar político sobre o que o rodeava?

Numa época pacífica poderia ter escrito livros ornamentais ou meramente descritivos, e poderia ter ficado quase sem ter consciência das minhas convicções políticas. Mas fui forçado a tornar-me uma espécie de panfletário.

Orwell conta em Porque Escrevo como o facto de ser uma criança solitária lhe estimulou a veia literária que, embora tenha tentado reprimir durante parte da juventude, ganhou força com a sua experiência na Polícia Imperial Indiana, nos tempos de penúria em Londres e Paris e na vivência como combatente voluntário na Guerra Civil Espanhola ao lado dos Republicanos.

O meu ponto de partida é sempre um sentimento de militantismo, um sentido de injustiça. Quando me sento para escrever um livro, não digo a mim mesmo: “Vou produzir uma obra de arte”. Escrevo porque há uma mentira qualquer que quero denunciar, um facto qualquer para que quero chamar a atenção.

Não obstante a preponderância da sua consciência social, Orwell afirmava escrever também por puro egoísmo, por impulso histórico e por entusiasmo estético, o qual me parece ser ainda um chamamento muito forte na sua obra.

Não sou capaz de abandonar completamente, nem quero, a mundividência que adquiri na juventude. Enquanto estiver vivo e de boa saúde continuarei a ter fortes sentimentos quanto ao estilo de prosa, amar a superfície da Terra e a retirar prazer de objectos concretos e de pedaços de informação inútil.

Que pena ter tido apenas 47 anos para pôr em prática esse programa de vida tão decente.

Porque Escrevo, de George Orwell, Relógio d’Água, Agosto de 2005, tradução de José Miguel Silva

O Outro Lado dos Livros

por Paula Mota
2025-09-05

Quando se leem memórias, há que ter em conta que o respetivo autor pode inconscientemente fantasiar sobre aquilo que recorda ou esquecer episódios que para outros foram determinantes. Felizmente, há um texto judaico que diz que “se não soubermos esquecer, nunca estaremos livres da tristeza”.

Manuel Alberto Valente, de quem já conhecia a poesia, foi editor em várias chancelas de renome, como Dom Quixote, Asa e Porto Editora, onde conheceu e, como ele próprio refere, lidou com o ego de muitos escritores portugueses e estrangeiros, alguns muito famosos, outros mais irreverentes, como Carmen Posadas que, para afugentar a exagerada atenção masculina nas Correntes d’Escritas avisou de imediato que não gostava de intelectuais e que preferia camionistas musculados, ou como Marie Darrieussecq, que abandonou um jantar dado pelo embaixador francês em Lisboa porque estava mais interessada em conhecer o Bairro Alto.

 O Outro Lado dos Livros surge como uma compilação de crónicas publicadas na “Revista do Expresso” durante quase dois anos, as quais, por uma lógica qualquer que me escapa, não são apresentadas por ordem cronológica, o que provoca absurdos temporais como, por exemplo, falar de Milan Kundera ora como autor morto, ora como candidato ao Prémio Nobel, sem sequer uma nota de contextualização. Com a excepção dessa pequena irritação, trata-se de uma leitura muito agradável para quem goste de fait divers e bisbilhotices sobre escritores/escritoras, uma espécie de cedência possível à imprensa cor-de-rosa para snobs literárias como eu, ainda que contenha reflexões muito pertinentes sobre o mercado editorial ao longo das décadas.

Quando, nos anos 80, publicámos na Dom Quixote A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera, decorreu uma eternidade entre o momento em que soubemos do livro e a assinatura do contrato que nos permitia a sua tradução. […] Carta para lá, carta para cá, quase um mês depois chegou-nos a informação de que, em correio separado, o livro estava a caminho. Quando chegou, demo-nos o tempo necessário para uma leitura consistente […]. Carta para lá, carta para cá, o contrato foi assinado tinham decorrido praticamente seis meses. […] A prática é hoje habitual: receber-se por e-mail um original e, meia dúzia de horas depois, chegar um novo e-mail a informar que já há uma oferta portuguesa.

Se esta situação aponta para os muitos tiros ao lado que surgem nas livrarias portuguesas, também a ausência de uma exigente caneta vermelha na mão dos editores explica a falta de filtros que noto em muita da má ficção nacional.

Tais provas [de Paul Auster] vinham anotadas a tinta vermelha pelo seu editor americano; e, quando digo anotadas, quero dizer com longos excertos cortados, pontos de interrogação por todo o lado e comentários que ajudariam o autor a resolver melhor certas passagens. Habituado à prática então vigente em Portugal de que não se podia mexer nos textos de um autor consagrado, nem sequer tive coragem de transmitir o meu espanto.

Estas memórias de um editor com forte sotaque do Norte - formado em Direito mas com o coração nos livros, que se desenvencilha melhor em francês do que em inglês, que evita andar de avião até mesmo em trabalho e que é casado com a também editora e poetisa Maria Rosário Pedreira, o que dá origem a uma casa forrada de livros muitas vezes em duplicado - estão recheadas de episódios divertidos, mas reflectem também o panorama social e cultural de Portugal nas últimas décadas.

Figuras recorrentes nestas crónicas, de quem fala com uma saudade imensa, são Rosinha (Rosa Lobato de Faria) e Lucho (Luis Sepúlveda), sendo os episódios mais caricatos aqueles que se relacionam com jantaradas, com destaque para as caras de bacalhau para Julian Barnes e o linguado grelhado para Paul Auster. Especialmente bonita é a passagem sobre a posição digna de Amos Oz, que vale a pena recordar agora, em pleno genocídio.

Amos Oz combateu na Guerra dos Seis Dias e na Guerra do Yom-Kippur e, talvez por isso, foi um dos fundadores do movimento Paz Agora, que defendia a solução de dois estados (israelita e palestiniano) convivendo pacificamente lado a lado. Ele sabia que não seria fácil: numa entrevista que deu em 2014 […] dizia: “A ansiada paz não deve ser entendida como uma lua-de-mel, mas como um divórcio justo, similar ao de checos e eslovacos.” Lutou por isso até ao fim da vida e morreu sem ver esse sonho concretizado.

O Outro Lado dos Livros - Memórias de um Editor, de Manuel Alberto Valente,Quetzal, Maio de 2025

Artigo 353

por Paula Mota
2025-07-08

O rosto cada vez mais ilegível, como se agora me tivesse deixado a sós com a palavra, com a desordem da palavra e mil pensamentos embocassem num funil cujas leis internas de selecção ele tentava compreender.

De início, “Artigo 353” não estava a prender-me pelo seu estilo expositivo. Recorrendo a um huis clos muito semelhante ao de “O Quarto Azul” de Georges Simenon, vemos Kremeur, antigo operário do arsenal de Brest, a prestar declarações a um juiz de instrução pelo crime de que nos dá conta nas primeiras páginas.

Por vezes, o juiz, quando me olhava, quase se diria que tinha um machete nos olhos e que, com ele, abria caminho dentro de mim, como se visasse um ponto central que eu próprio não conhecia, qualquer coisa a que simplesmente teria chamado “os factos” e porque pensava que no interior destes “factos” estava a verdade. Como se ela, a verdade, viesse à superfície por si própria, seca e sem rugas.

Em traços largos, já que se trata de uma obra muito breve, um dia chega a uma pequena cidade estagnada do litoral da Bretanha um especulador imobiliário, o típico pato-bravo…

Talvez baste um tipo chegar com bastante energia e um livro de cheques mais gordo do que a média para que toda a gente diga que é ele o enviado de não se sabe que deus para nos tirar do pântano.

…que com falinhas mansas e um projecto de encher o olho, convence meio mundo a investir num empreendimento que, passada meia dúzia de anos, não passara ainda do papel. Com o avançar do relato sobre esta “banal história de vigarice”, “Artigo 353” começa a tornar-se mais introspectivo e com uma prosa mais reflexiva e estilisticamente interessante. Sempre na primeira pessoa, Kremeur transmite a frustração que sente e tenta disfarçar fechando-se sobre si mesmo, de como isso criou uma barreira entre ele e o filho, que cresceu e se foi apercebendo do mal provocado por esse forasteiro que exibe mais sinais de riqueza a cada dia que passa.

E então, lá no fundo, descobre a única coisa que necessariamente o preocupa: que o pai dele sou eu e só eu. É isso que descobrimos aos 18 ou 20 anos. Que teremos o mesmo pai toda a vida. Que passaremos toda a vida com os mesmos fantasmas. Os mesmos cantores de rádio. Os mesmos políticos. A mesma infância às costas.

É só quando o jovem comete um acto tresloucado de vingança que Kremeur decide fazer justiça pelas próprias mãos, pois “nem sempre podemos esperar séculos por uma qualquer justiça natural que se calhar nunca chegará”.

É um revoltante caso de toda uma população ludibriada por um homem sem escrúpulos que o juiz, que em toda a narrativa mostra ser uma pessoa empática, tem em mãos; mas é na lei, no artigo para que aponta o título do livro de Tanguy Viel, e não no crime, que se encontra o desenlace desta obra. O artigo 353 não existe no código penal francês, mas interpreto-o como o símbolo da subjectividade e controvérsia de muitos veredictos que, por vezes, parecem depender da vontade e da capacidade de alguns interpretarem as leis como lhes convém. Aquele que parece ser potencialmente um final feliz, dependendo do nosso sentido de justiça, é também matéria para cogitação.

E o facto é que certas pessoas são desprovidas disso, como outras nascem sem um braço, outras nascem com atrofia de, não sei, de…

E o juiz disse: De humanidade?

Sim, no fundo talvez seja isso, de humanidade.

 

Artigo 353, de Tanguy Viel, Antígona, Maio de 2024, tradução de Luís Leitão

O Desencanto

por Paula Mota
2025-06-25

Fake it até que as pessoas te deixem em paz. Não podemos mudar o mundo, apenas tentar que o mundo não nos mude demasiado.

Não tenho problemas em confessar que desconfio sempre de escritores que vêm do jornalismo, apesar de algumas boas surpresas, sobretudo pela tendência para explorarem a contemporaneidade, o que vai bem com a lei do menor esforço, mas Beatriz Serrano toma o pulso à sociedade actual, a do digital, a do capitalismo, a da saúde mental frágil, a do consumismo desenfreado e do mercado de trabalho doentio. Neste zeitgeist que bem conhecemos, temos Marisa, de 32 anos, solteira, com um amigo colorido, que trabalha mais do que contrariada numa agência de publicidade há oito anos, que sofre de ataques de ansiedade e de choro mal o despertador toca de manhã e que tenta anestesiar-se com tranquilizantes.

Sei que o mundo seria um lugar melhor se não existissem trabalhos como o meu. Sei que me aproveito das inseguranças das pessoas e da sua vontade de prosperar numa sociedade em que não se pode melhorar. E sei disso porque eu própria, depois de uma jornada de 8 horas e várias conversas de elevador que me provocaram uma série de ideações suicidas de baixa intensidade […], acredito com frequência que a solução para todos os meus problemas está feita à minha medida num vestido florido da Zara fabricado no Bangladesh.

Não espanta, portanto, que o seu mantra seja “Heaven knows I’m miserable now” dos Smiths.

Morrissey cantava sobre a insatisfação que os trabalhos de merda provocam e a obrigação de pagar faturas, sobre a alienação que as horas no escritório causam e o pouco tempo para desfrutar dos verdadeiros prazeres da vida. À medida que fui crescendo, amadurecendo e trabalhando, a canção tinha em mim um efeito balsâmico e curativo, como quem ouve cantos gregorianos.

Marisa odeia tanto a sua profissão que o ponto alto do seu dia é imaginar acidentes que poderia sofrer para ficar uma temporada de baixa médica ou mesmo incapacitada. É humor negro que escorre destas páginas, mas, como se costuma dizer, a brincar se dizem as verdades, e “O Desencanto” tem tanto de exasperante como de lúcido, até para os que “se julgam a ovelha mais esperta do rebanho”. Esta autora espanhola compôs uma personagem hilariantemente descompensada que vai ficar na minha galeria das preferidas pelo que diz, pelo que pensa e pelo que ouve e processa com um sarcasmo perfeito.

Põem-me sempre a trabalhar nos projetos que incluem a palavra ‘empoderamento’ e perguntam-me se determinada frase de determinado anúncio pode ser ou não machista. Perguntam-me sempre se um tema poderia “incomodar as mulheres”, como se as conhecesse a todas. […] Pensam que sou a sua Mary Wollstonecraft particular, sempre de serviço para lhes tirar as dúvidas.

Quando a sanidade de Marisa já está presa por um fio e pensa que não há nada pior do que trabalhar com gente desmiolada e hipócrita, engolindo ansiolíticos como Smarties e trocando a terapia por visitas ao Museu do Prado, onde contempla o quadro de Hieronymus Bosch, recebe a notícia de uma iminente viagem de team building, que se revelará a gota de água.

A empresa como família. A ideia de que os nossos colegas de trabalho são algo mais do que colegas de trabalho para que nos custe horrores levantarmo-nos da nossa cadeira às 6 da tarde porque sentimos que estamos a abandonar o nosso irmão mais novo numa bomba de gasolina. Como não tenho filhos nem pais doentes e fui apanhada tão de surpresa que nem tive tempo de inventar uma doença rara, sou obrigada a ir.

Quer tenham um emprego que odeiem ou adorem, quer tenham um emprego em que se sintam com um hamster na roda ou tenham liberdade de horário, este livro é para vocês… se tiverem uma ponta de cinismo que seja. Se não tiverem, sorte a vossa, a vida tem-vos tratado bem.

Afinal, precisamos de poucas coisas na vida: alguém que nos ame, uma cama com grandes almofadões, umas latas de cerveja bem frescas e uns tomates que saibam a alguma coisa.

O Desencanto, de Beatriz Serrano, Bertrand Editora, Outubro de 2024, tradução de Rita Custódio.

Mudar de Ideias

por Paula Mota
2025-06-11

Não creio que, aos 65, sejamos leitores mais inteligentes do que aos 25; apenas e tão-somente mais subtis, bem como mais capazes de estabelecer comparações com outros livros e outros escritores, tendo como pano de fundo o acréscimo de conhecimento adquirido com o acréscimo de vida.

Como diz o nosso Camões, “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, mas mudar de ideias é falta de carácter ou é prova de adaptabilidade? Nós mudamos de ideias ou são as ideias que nos mudam a nós? Neste charmoso conjunto de ensaios sobre a mutabilidade, uma das primeiras citações de Julian Barnes aponta para o dadaísta Francis Picabia: “As nossas cabeças são redondas para que as nossas ideias possam mudar de direção”, o que sugere de imediato que a inconstância faz parte da natureza humana.

Dividido em cinco temas, Memórias, Palavras, Política, Livros, Idade e Tempo, Barnes expõe neste “Mudar de Ideias” os seus pensamentos e dá exemplos de como tem mudado de ideias ao longo de quase 80 anos de vida, com a típica fleuma britânica, parecendo uma pessoa moderada e razoável nos seus pareceres, mas rematando inesperada e contundentemente que tem “opiniões fortes fortemente sustentadas”, como convém que seja.

E como não ter opiniões fortes se temos consciência do que nos rodeia? Isso torna-se flagrante no capítulo Política que, embora enverede demasiado pelas eleições locais para quem não é britânico, permite ao autor deixar bem clara a sua ideologia e mundividência, aquela que aplicaria na República Benigna de Barnes, para a qual me mudaria já.

Imediata candidatura a regressar à União Europeia, autorização dada à Escócia para fazer o referendo sobre a independência, se os escoceses assim entenderem; encorajamento à ilha da Irlanda para se reunificar. […] Pelo menos um dos palácios reais seria transformado em museu dedicado à memória do tráfico de escravos, com uma completa explicação dos proventos gerados e dos beneficiários. A educação (e re-educação, re-re-educação) dos homens na juventude para fazer diminuir a violência e a coerção sobre as mulheres.

Na secção dedicada às palavras, identifiquei-me com a indignação de Barnes em relação à forma como os falantes assassinam a língua e, tal como ele, partilho com Evelyn Waugh “a ânsia senil de escrever cartas aos jornais” quando isso acontece. A parte sobre os livros é talvez a que ressoe mais fortemente nos leitores, ainda que a das Memórias permita o cruzamento com obras de ficção deste escritor:

Sabemos que a memória se degrada. Acabamos por perceber que a cada vez que a recordação é tirada do cacifo e exposta estamos a fazer-lhe uma alteração minúscula. E por isso as histórias que, na maior parte dos casos, contamos sobre as nossas vidas são provavelmente menos fiáveis, porque as fomos subtilmente emendando sempre que as contávamos ao longo dos anos.

Então, se “todo o mundo é composto de mudança”, não há nada a que Julian Barnes se mantenha ainda fiel? Claro que muitas das suas convicções se mantêm, mas delas cito a minha preferida:

À primazia da arte e à convicção de que a literatura corresponde ao melhor sistema que temos para compreender o mundo.

Mudar de Ideias, de Julian Barnes, Quetzal, Maio de 2025, tradução de Salvato Teles de Menezes

A Praça do Diamante

por Paula Mota
2025-05-15

Em casa vivíamos sem palavras e as coisas que eu tinha dentro faziam-me medo porque não sabia se eram minhas…

Mercè Rodoreda (1908-1983) admirava Katherine Mansfield, Virginia Woolf, Marcel Proust e James Joyce, e isso é flagrante tanto no estilo modernista da escrita, como no uso de certos leitmotives e na urdidura da vida interior das personagens.

A minha mãe nunca me falara nos homens. Ela e o meu pai tinham passado inúmeros anos a discutir e muitos anos sem dizerem nada um ao outro. Passavam as tardes de domingo sentados na sala de jantar sem se falarem. Quando a minha mãe morreu, este viver sem palavras ainda se acentuou mais. E quando ao fim de alguns anos o meu pai voltou a casar, não havia, em minha casa, nada a que eu pudesse agarrar-me. Vivia como deve viver um gato: de um lado para o outro, com a cauda baixa, com a cauda levantada, agora são horas de ter fome, agora são horas de ter sono, com a diferença de que um gato não tem de trabalhar para viver.

“A Praça do Diamante” é um livro complexo e profundo de uma autora paradoxal que me suscitou várias dúvidas. Devemos levar as declarações de um escritor à letra ou ignorá-las interpretando uma obra a nosso bel-prazer? Vale mais o percurso ou o discurso de um escritor? Quando devemos parar de ler nas entrelinhas de um texto só para satisfazer a nossa tese? Apesar de ser considerada protofeminista por alguns, Mercè Rodoreda deixou a sua posição bem clara:

“Acho que o feminismo é como o sarampo. Na época das sufragistas tinha um sentido, mas na época atual, onde todos fazem o que quiserem, acho que o feminismo não tem sentido.”

E, no entanto, há tanto na sua vida e na leitura de “A Praça do Diamante” que contradiz este seu comentário. Com apenas 20 anos, Mercè casou com o seu tio, de quem teve um filho, tendo pouco depois retomado os estudos e começado a escrever com o intuito de se tornar autossuficiente. Em 1939, dois anos depois de se ter separado do marido, com a derrota dos republicanos, para os quais trabalhara como revisora de catalão, optou pelo exílio até 1972, tendo deixado o filho aos cuidados da avó.

Se se torna difícil ignorar a problemática do casamento e da maternidade na biografia desta mulher independente e determinada, não há como contornar a forma como estas duas instituições são postas em causa em “A Praça do Diamante”. Desde o primeiro encontro, quando Quimet decide unilateralmente que a protagonista será sua mulher, passando por cada interacção no namoro e atitude na vida de recém-casados, tudo aponta para a submissão de Natalia…

Disse-me que se queria ser sua mulher tinha de começar a achar bem tudo o que ele achasse bem. Fez-me um grande sermão sobre o homem e a mulher e os direitos de um e do outro e quando consegui interrompê-lo perguntei-lhe:

- E se não gostar mesmo nada de uma coisa?

- Tens de gostar, porque tu não percebes.

…que culmina na anulação da sua identidade ao passar a chamar-lhe Pombinha, pois Quimet desenvolve uma obsessão tal com estas aves que acaba por transformar o apartamento do casal num autêntico pombal onde, a dada altura, vivem 80 pombos. Visto que o dinheiro que o marido ganha como marceneiro e com o eventual negócio dos pombos não é o suficiente para o sustento do casal e dos seus dois filhos, Natalia vê-se obrigada a fazer limpezas por fora, até que o marido se junta aos milicianos durante a guerra civil espanhola e a situação se torna dramática.

Seria neste ponto da narrativa que teria de concordar com o desprezo de Rodoreda pelo feminismo. Natalia é uma personagem totalmente passiva, a quem a vontade alheia é imposta sem que ela lhe ofereça muita resistência, que anda à mercê dos homens; o primeiro que é a sua perdição e o segundo que é a sua salvação. Há, porém, alguma rebeldia fatalista nesta mulher que, acossada pela força das circunstâncias, tende a agir como um anjo da morte, tanto em relação aos pombos como aos próprios filhos.

Essa pulsão de morte acompanha a protagonista até ao final no que parece ser uma espiral de loucura, na qual ela entra e sai em passagens de cortar a respiração.

Virei-me de costas para a porta e descansei e havia muita escuridão dentro de mim. E virei-me outra vez de frente para a porta e com letras de imprensa escrevi Pombinha bem gravado e, sem saber como, comecei a andar e eram as paredes que me conduziam e não os passos e entrei na Praça de Diamante. […] E com os braços a tapar a cara para evitar não sei bem o quê, soltei um grito infernal. Um grito que devia haver muitos anos que trazia dentro de mim e com aquele grito, tão comprido que lhe tinha custado a passar-me pela garganta, saiu-me da boca um bocadinho de coisa, quase nada, que parecia uma bola de saliva… e aquele bocadinho de coisa, quase nada, que tinha vivido tanto tempo fechado dentro de mim, era a minha mocidade que fugia com um grito que não sabia muito bem o que significava… desamparo?

A Praça do Diamante, de Mercè Rodoreda, Dom Quixote, Fevereiro de 2025, tradução de Mercedes Balsemão

Orbital

por Paula Mota
2025-04-28

O passado chega, o futuro, o passado, o futuro. É sempre agora, nunca é agora.

Este seria um livro que, em princípio não me puxaria, já que não tenho praticamente interesse pelo espaço. Não vi os clássicos baseados na obra de Arthur C. Clarke (“2001-Odisseia no Espaço”, “2010-Ano do Contacto”) nem sequer a mítica série televisiva de Carl Sagan, “Cosmos”. Fascina-me, no entanto, um céu estrelado longe das luzes artificiais das cidades e também a estranheza de viver fechado dentro de uma nave, de que tive um vislumbre na exposição “Cosmos Discovery” em 2017.

Numa missão de nove meses, há um total de aproximadamente quinhentas e quarenta horas de exercícios matinais. […] Quinhentas e quarenta vezes de ter de engolir pasta de dentes. Trinta e seis trocas de t-shirt, cento e trinta e cinco mudanças de roupa interior (roupa interior lavada todos os dias é um luxo a que não se podem dar), cinquenta e quatro pares de meias limpas.

Foi esse fascínio e essa curiosidade que satisfiz com “Orbital”, o improvável vencedor do Booker Prize de 2024 face aos grandes preferidos: “Os Meus Amigos” de Hisham Matar e “James” de Percival Everett.

No fundo, não é um livro sobre o espaço, mas uma belíssima e singular meditação sobre a periclitante vida no Planeta Azul mas vista de fora, na perspectiva privilegiada da Estação Espacial Internacional, ao longo de um único dia de órbita em torno do globo, em que esta “família flutuante”, constituída por quatro astronautas e dois cosmonautas, assistirá 16 vezes ao nascer e ao pôr-do-sol.

Olham para baixo e compreendem o porquê de lhe chamarem Terra-Mãe. Todos o sentem de vez em quando. Todos fazem uma associação entre a Terra e mãe, o que, por sua vez, os leva a sentir-se crianças. No balançar andrógino de rostos escanhoados, com os calções regulamentares, a comida de colher, o sumo bebido por palhinhas, as bandeirinhas de aniversário, as madrugadas, a inocência forçada de dias diligentes, todos têm, lá em cima, momentos de uma aniquilação repentina dos seus eus de astronautas e de uma sensação poderosa de infância e pequenez.

É neste contraste entre a insignificância dos humanos e a vastidão do universo que “Orbital” se torna um romance existencialista…

Há pessoas assim (gosta ele de dizer), que complicam as vidas interiores por sentirem demasiado ao mesmo tempo, por viverem em nós, e que por isso precisam que o que lhes é extrínseco seja simples. Uma casa, campo, algumas ovelhas, por exemplo. E há quem consiga de alguma maneira, por algum milagre de ser, simplificar a vida interior de forma que as coisas que lhe são extrínsecas possam ser ambiciosas e ilimitadas. Essas pessoas são capazes de trocar uma casa por uma nave espacial, um campo por um Universo.

…onde impera a contemplação das diferentes paisagens sobrevoadas, sem descurar a componente ambientalista…

Quem será capaz de olhar para o ataque neurótico do homem ao planeta e achá-lo bonito? A soberba do homem. Uma soberba tão poderosa que só a estupidez a pode emular. E aquelas naves fálicas lançadas para o espaço são seguramente as mais soberbas de todas, os tótemes de uma espécie que o amor-próprio ensandeceu.

Esta posição vantajosa, em que o planeta é visto como um todo, serve também para questionar as divisões que separam os povos, tanto na Terra…

Uma sensação de amizade e paz prevalece, uma vez que mesmo à noite só há uma fronteira feita pelo homem no mundo inteiro, um longo rasto de luzes entre o Paquistão e a Índia. É a única amostra que a civilização tem para lhes dar das suas divisões e, durante o dia, até isso desaparece.

…como quatrocentos quilómetros acima dela.

APENAS COSMONAUTAS RUSSOS, diz na porta da casa de banho russa. Da mesma forma, na porta da casa de banho norte-americana, APENAS ASTRONAUTAS AMERICANOS, EUROPEUS E JAPONESES. Devido às disputas políticas atuais, use a sua própria casa de banho nacional.

O facto de “Orbital” ter sido classificado como ficção científica pode afastar alguns leitores mas também desiludir outros, pois decorre nos dias de hoje, pouco mais de 50 anos depois da primeira alunagem, como se refere a dada altura, em que o momento mais futurista é a passagem de uma nova missão à lua e a referência a planos de chegar a Marte e povoar esse planeta caso destruamos a Terra de vez. O passado, porém, está também em destaque quando Samantha Harvey refere o momento histórico vivido pelo cosmonauta Sergei Krikalev em Dezembro de 1991, aquando do desmembramento da URSS, muito significativo para uma leitura mais profunda desta elegante composição.

O homem […] que, antes disso, foi enviado para o espaço pela URSS e esteve em órbita na Mir durante quase mais seis meses do que o planeado, porque, enquanto lá estava, a URSS deixou de existir e ele não podia voltar para casa.

Orbital, de Samantha Harvey, Particular Editora, Fevereiro de 2025, tradução de Nuno Carvalho

O Caderno Proibido

por Paula Mota
2025-04-07

Compreenderá, tenho a certeza, porque todas as mulheres escondem um caderno negro, proibido. E todas têm de o destruir. Agora pergunto a mim própria em que terei sido mais sincera, se nestas páginas ou nas acções que pratiquei.

“O Caderno Proibido”, escrito em 1952 pela italo-cubana Alba de Céspedes, é um pedaço de literatura introspectiva e muito realista, fruto do seu tempo, que poderá agradar a muitos leitores, mas pressinto que ecoará de uma forma mais retumbante em mulheres com uma idade e uma vida semelhantes a esta protagonista, divididas entre o emprego, a organização da casa, o marido, os filhos e a sua própria individualidade.

Alba de Céspedes foi uma escritora arrojada que, em 1939, se estreou com um livro que causou escândalo e não escapou à comissão de censura, que lhe retirou o prémio que ganhara com “Ninguém Volta Atrás”, a história de oito raparigas cuja autodeterminação não se coadunava com o retrato da boa dona de casa do fascismo. Dezassete vezes haveria de ser chamada à dita comissão, a quem respondeu sempre um lacónico “não” quando lhe perguntavam se não se envergonhava do que escrevia.

“Caderno Proibido” não tem nada de vergonhoso nem de escandaloso pelos padrões actuais, mas ganha desde logo essa carga negativa, primeiro, porque foi comprado impensadamente num quiosque ao domingo, quando estava vedada a venda de artigos de papelaria e, depois, em chegando a casa, Valeria, uma mãe de família de 43 anos, sente a pressão de o esconder...

Afinal não tinha, em toda a casa, uma gaveta, um cantinho que fosse meu.

...porque, neste seu primeiro lampejo woolfiano, não tem como justificar a necessidade de deitar para o papel os seus pensamentos e os acontecimentos do dia e, ainda para mais, mantê-los privados.

Mas tenho 43 anos e parece-me vergonhoso recorrer a pueris subterfúgios para escrever num caderno. Assim, é absolutamente necessário que confesse a Michele e aos pequenos a existência deste diário e afirme o meu direito de me fechar num quarto a escrever sempre que me apeteça.

Há, desde logo, a culpa incutida às mulheres de que, quando estão a fazer algo por si mesmas, estão a ser egoístas, a roubar tempo à família e aos seus deveres domésticos...

Há uma coisa que me impede de confessar que escrevo: é o remorso de perder tanto tempo a escrever. Muitas vezes lamento-me de ter muito que fazer, de ser escrava da família e da casa, de nunca ter a possibilidade de ler um livro, por exemplo. Tudo isto é verdade, mas em certo sentido esta escravidão tornou-se também a minha força, a auréola do meu martírio.

...e isso martiriza muito a protagonista, uma mulher educada à antiga, proveniente de uma família aristocrática caída em decadência, para quem trabalhar fora de casa ainda é uma indignidade. Valeria, que já se sente velha mas tem uma enorme ânsia de provar que ainda é uma mulher desejável e vibrante, vive entalada entre uma geração retrógrada do pré-guerra e outra que procura um corte a nível social e moral.

Ainda me lembro do dia em que anunciei a minha mãe que ia começar a trabalhar. Fitou-me demoradamente, em silêncio, antes de baixar os olhos;  só por causa daquele olhar senti sempre o meu trabalho pesar sobre mim como uma culpa. Bem sei que Mirella não aprova o meu sentimento: decerto até o despreza e pretende fazer uma revolução contra mim, com a sua maneira de ser. Não compreende que fui exactamente eu que a tornei livre, eu com a minha vida dividida entre velhas tradições tranquilizadoras e o imperativo de exigências novas. Sou a ponte de que se aproveitou, como os jovens se aproveitam de tudo: cruelmente, sem sequer se darem conta do que estão a receber.

Embora abarque um período de apenas seis meses, de Novembro de 1950 a Maio de 1951, este diário é, mais do que um desabafo, um percurso de autodescoberta e também uma reflexão sobre o casamento...

Agora começo a perguntar o que significa para mim a palavra “amor” referida a Michele e a que sentimentos pretendo aludir ao dizer “Amo o meu marido.” Sinto-me angustiada. Era melhor deixar de escrever porque receio que o cansaço me impeça de ser objectiva. Às vezes imagino que há já muitos anos que não amo Michele e que continuo a repetir esta frase por hábito.

...em que nem sempre se simpatiza com Valeria, que amiúde parece mesquinha, invejosa, preconceituosa e injusta com os filhos, protegendo Riccardo e condenando Mirella.

Nunca compreendi Mirella embora compreenda sempre Ricardo. Às vezes penso que, se não fosse minha filha, me seria difícil gostar dela. (...) Eu nunca pensaria em ser advogada: estudava Literatura, Música, História da Arte. Só me ensinavam o que era belo e doce na vida. Mirella estuda Medicina Legal. Sabe tudo. Os livros foram para mim uma fraqueza que tive de vencer pouco a pouco, com os anos: a ela, pelo contrário, dão-lhe aquela impiedosa força que nos separa.

O Caderno Proibido, de Alba de Céspedes, Alfaguara, Maio de 2024, tradução de Ana Cláudia Santos

Inyenzi ou as Baratas

por Paula Mota
2025-03-26

Desejaria escrever esta página com as minhas lágrimas.

Nunca nenhuma africana negra recebeu o Prémio Nobel da Literatura, e creio que Scholastique Mukasonga o merece, como magnífica memorialista que é, como sobrevivente de um povo perseguido e massacrado durante décadas, até mesmo por justiça poética, como homenagem ao milhão de tútsis chacinados pelos seus concidadãos hútus durante 100 dias, em 1994.

Em parte, esta é a mesma história que já tinha lido em “The Barefoot Woman”, dedicado a Stefania, a sua mãe, mas a verdade é que o massacre do Ruanda é o alicerce de toda a produção literária de Mukasonga, porque está intrinsecamente ligado à sua vida e à sua psique, à sua culpa de sobrevivente.

Eu contava e voltava a contar. Dava um total de 37.

É em honra desses 37 membros da sua família, pais, irmãos, irmãs, cunhados, cunhadas, sobrinhos e sobrinhos-netos, que a autora erigiu este “túmulo de papel”, na falta de muitas campas individuais e identificadas, visto que milhares de corpos foram enterrados em valas comuns, enquanto outros ficaram à mercê dos elementos e dos animais selvagens ou foram atirados aos rios. Quem, na altura, viu as imagens dos rios tingidos de sangue com cadáveres estropiados a boiar nunca poderá esquecer.

Houve, é claro, sobreviventes. Nenhum genocídio é perfeito.

Mukasonga abre “Inyenzi ou as Baratas” com um pesadelo recorrente e inicia a narrativa dos acontecimentos de forma cronológica, em 1959, com os primeiros pogroms dirigidos aos tútsis, quando tinha apenas três anos de idade, altura em que a família teve de abandonar a sua aldeia com uma panela de ferro fundido como única bagagem, para se exilar em Nyamata, uma zona de savana quase desabitada, infestada de moscas tsé-tsé.

Em 1962, o Ruanda tornou-se uma nação independente depois de décadas a ser administrado por potências europeias, tornando-se um símbolo dos efeitos de um colonialismo salobro e de um pós-colonialismo irresponsável, em que a Igreja Católica desempenhou um papel pernicioso, instigando umas etnias contra as outras, e a ONU, mais uma vez, não deu uma resposta atempada nem eficiente.

Bertrand Russell estava completamente só quando denunciou “o massacre mais horrível e mais sistemático desde o extermínio dos judeus pelos nazis”. A hierarquia católica, a antiga autoridade mandatária e as instâncias internacionais não tiveram mais nada a dizer sobre o caso a não ser condenar o terrorismo dos Inyenzi.

O terrorismo dos oprimidos e acossados, um cenário demasiado familiar e actual. Foi no início dos anos 60, com a subida dos hutus ao poder que surgiu o termo “Inyenzi” (barata), uma forma de desumanizar aqueles que se quer exterminar, como Hitler fez aos judeus, como Putin faz aos ucranianos, para conseguirem o apoio da população em geral. Apesar da discriminação e do sistema de quotas no ensino, Mukasonga e alguns dos seus irmãos ainda conseguiram estudar. A temporada passada num colégio de freiras entre 1968 e 1971 comprova o espírito de resistente que sempre a caracterizou.

Nós, as tútsis, ficávamos despertas. Esperávamos que todas as nossas colegas dormissem profundamente, que já não houvesse ninguém a ir à casa de banho, que as freiras estivessem definitivamente recolhidas. (…) Muitas vezes, estudávamos ali as lições e fazíamos os trabalhos de casa até de madrugada. Tudo o que aprendi em Notre-Dame-de-Citeaux, aprendi nas casas de banho.

Foi em 1973, quando já estudava na escola de assistentes sociais, que o cerco se apertou em torno dos tútsis e os pais de Mukasonga decidiram pôr dois dos filhos mais velhos, os mais instruídos, a salvo no Burundi.

Tínhamos sido escolhidos para sobreviver.

Depois de se formar, trabalhou em vários programas da Unicef, casou-se com um francês, teve dois filhos e encontrava-se em França quando se deu o último acto da limpeza étnica, em 1994.

Da morte dos meus, tenho apenas buracos negros e fragmentos de horror. O que mais faz sofrer? Ignorar como foram mortos ou saber como os mataram?

É aqui que o relato desta guardiã da memória familiar fica realmente pungente, já que, aos poucos, ficou a saber como morreram ou escaparam todos os seus entes queridos, e que se torna quase sufocante na linha temporal de 2004, quando finalmente ganha coragem para regressar ao “país dos mortos”, para visitar as ossadas reunidas na cripta escavada por baixo da igreja de Nyamata e voltar à casa dos pais, totalmente em ruínas e invadida pelo mato, onde se cruza com antigos vizinhos, pois tal como noutros pontos do mundo, devido à política de reconciliação, carrascos e sobreviventes têm de continuar a coexistir.

Estou sozinha numa terra estrangeira onde já ninguém me espera. Fecho os olhos e às recordações sobrepõem-se as coisas desaparecidas.

Inyenzi ou as Baratas, de Scholastique Mukasonga, Livros do Brasil, Setembro de 2024, tradução de Maria de Fátima Carmo

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