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Crítica Literária por Miguel Real


Uma vida vivida a cada minuto

2013-12-02

Crítica literária a dois livros recentemente saídos sob a pena de José Jorge Letria, o primeiro um diálogo com Urbano Tavares Rodrigues, outro as suas memórias e juventude, por Miguel Real.

Com abundante obra publicada e premiada, José Jorge Letria é um autor generoso na sua relação com os restantes companheiros de jornada. Urbano Tavares Rodrigues: O Livro Aberto de uma Vida Ímpar, ora publicado na editora Guerra e Paz, um longo diálogo entre José Jorge Letria e Urbano Tavares Rodrigues, constitui prova da sua ampla generosidade, não esquecendo aqueles autores que, devido à sua idade, são menos falados nas páginas dos jornais.

Primeiro volume da colecção “o fio da memória”, patrocinada pela Sociedade Portuguesa de Autores, é composto por um longo diálogo de 120 pp. com Urbano Tavares Rodrigues, um conjunto de fotografias pessoais deste escritor, autêntico retratos de uma vida intensamente vivida, emoldurados, a abrir e a fechar, por uma carta e um poema do entrevistador dedicados ao escritor entrevistado. No final, uma utilíssima bibliografia activa completa da obra de Urbano Tavares Rodrigues.

Antigo jornalista, José Jorge Letria soube organizar as questões de modo a abarcar a totalidade das iniciativas plurais do Urbano, desde a meninice no seu Alentejo natal até às interrogações sobre a especificidade da obra literária do entrevistado, não esquecendo (o que certamente será novidade para muitos leitores) o labor de Urbano como crítico de teatro nas pp. do Diário de Lisboa, bem como as confidências sobre a sua mulher de sempre, a escritora Maria Judite de Carvalho.

De Urbano Tavares Rodrigues: O Livro Aberto de uma Vida Ímpar fica para memória futura o retrato de uma vida intensamente vivida a cada minuto, expressão que, se cola bem a Urbano, não colará menos à vida de José Jorge Letria. E se o entrevistado se multiplicou pelo jornalismo, pelo empenhamento político em defesa da liberdade, pelo romance, pela poesia, pelo teatro, pela crítica literária, pelos estudos académicos, numa acção que sempre primou pela abertura ao outro e pela generosidade de cavalheiro, o entrevistador, por seu lado, não deixou de multiplicar a sua vida pelos mesmos campos de acção, substituindo a investigação académica pela vida das canções, pela literatura infantil e pela direcção organizativa na defesa dos autores, num afã não menos generoso e menos nobre.

Urbano Tavares Rodrigues: O Livro Aberto de uma Vida Ímpar espelha, assim, um diálogo entre duas almas gémeas irmanadas por um mesmo espírito de amor à Arte e dedicação à causa pública, cada um apresentando uma tão vibrante e intensa vida que a ambos cola com autenticidade o lema de Aquilino Ribeiro “Mais Não Pude” (da primeira badana).

E se tivéssemos dúvida sobre a intensidade da vida de José Jorge Letria, bastaria folhearmos o seu último livro, recentemente publicado pela editora Clube do Autor, E tudo era possível. Retrato de Juventude com Abril em Fundo, para nos darmos conta da verdade do lema de Aquilino aplicado à vida do autor (aliás, lema não por acaso citado na p. 277).

Iniciado com a morte do pai na passagem da adolescência para a juventude, José Jorge Letria sente dever obedecer ao desejo paterno de estudar Direito, mas cedo percebeu que o seu sentido de vida se encontrava mais no combate por uma acção cívica em defesa da liberdade do que pelo combate retórico na barra dos tribunais. “Retrato de juventude”, divide-se entre a fidelidade à família e às instituições reitoras da sociedade no tempo do marcelismo (1969 – 1974) e a busca de um sentido novo, não só construído sem amparo de rede, como desafiador dos ditames totalizantes daquelas instituições. Assim, face à normalização social, vemos o jovem José Jorge Letria optar pelos caminhos difíceis da contestação política, pelo desejo de construção de uma sociedade nova, em que “tudo era [seria] possível”. Primeiro, o caminho do jornalismo contestatário; depois, o da canção baladeira, em conjunto com José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Vitorino, sob a contínua ameaça de prisão pela PIDE (a polícia política do Estado Novo); finalmente, transversal a ambos, porventura suporte íntimo da vida activa e perigosa que então levava, o caminho da poesia, com livros publicados na editora Assírio & Alvim.

Vida multiplicada em três dimensões (a profissional, a canção política e a poesia), cuja unidade se alimentava do intenso amor instintivo à liberdade, que o 25 de Abril tornou possível como húmus social diário, no qual José Jorge Letria participou como “modesto” cabouqueiro, como refere, esquecendo-se, por humildade própria, de que sem o fermento activo dos cantautores de antes do 25 de Abril, em que o seu nome se inscreve, não teria sido possível a atmosfera geral de contestação que perfez o 25 de Abril de 1974, uma revolução (quase) sem sangue, a revolução dos cravos.

As páginas relativas ao Congresso de Aveiro de 1973 foram as que mais nos impressionaram, porventura por desconhecimento nosso desse momento histórico. Podiam, inclusivamente, constituir ponto de partida para um belo romance. E, jovem ainda, lá esteve presente o autor, como esteve presente em todos os mais importantes momentos históricos ante e imediatamente pós-25 de Abril, não só devido à sua participação política no Partido Comunista Português mas, sobretudo, devido á sua intensa actividade de jornalista e cantor. Dos acontecimentos que fazem hoje parte da história do jornalismo em Portugal, sobressaem dois interessantes capítulos, “O 25 de Novembro no DN; a minha parte da verdade” e o capítulo subsequente, “Álvaro Cunhal e os anos de o diário”.

Belíssimo, igualmente, o posfácio de José Barata-Moura, reflectindo sobre uma amizade de meio século.

Um belíssimo livro para avivar as recordações de todos os portugueses que tinham 20 anos no 25 de Abril de 1974, fosse qual fosse a sua posição política.

 

Urbano Tavares Rodrigues: O Livro Aberto de uma Vida Ímpar,

Ed. Guerra e Paz, 127 pp.

E tudo era possível. Retrato de Juventude com Abril em Fundo,

Ed. Clube do Autor, 287 pp.

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