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Crítica Literária por Miguel Real


MARIA TERESA HORTA - A BUSCA DE UM LIRISMO PURO

2019-11-18

Quotidiano Instável. Crónicas (1968 – 1972), com prefácio esclarecedor e recolha de textos de Ana Raquel Fernandes,ora editado,pode ser perspectivado como um momento de busca de um lirismo puro na obra de Maria Teresa Horta (MTH) entre a década de 1960 e a primeira metade da década seguinte.

Álvaro Manuel Machado refere que a poesia da autora reside, desde seu primeiro livro, Espelho Inicial (1960), na criação de metáforas tendo em conta a “assunção de uma corporeidade livre” (Dicionário de Literatura Portuguesa, 1996, p. 246) e Anna Klobucka refere que o motivo condutor do “imaginário” de MTH reside na relação entre “o corpo e a palavra” (O Formato Mulher…, 1993, p. 158). Diríamos ser hoje hermeneuticamente consensual estas duas interpretações que, na verdade, se resumem a uma única, apresentada desde logo na epígrafe do seu primeiro livro: “Toute ma présence est parole” (Simone de Beauvoir), no sentido de que o corpo e o quotidiano só se manifestam como sentido quando acedem à linguagem.

Será talvez necessário cruzar este horizonte interpretativo do trabalho ficcional da autora com um fortíssimo vínculo social de transgressão, que, aliás, Álvaro Manuel Machado também refere. MTH parece estar de acordo, já que em Antologia Pessoal. 100 Poemas (2003), seleccionou para republicação o longo “Poema da Insubordinação” da sua participação em Poesia 61. Transgressão ou insubordinação significa o mesmo na obra de MTH, ainda que o primeiro contenha um cunho mais social e o segundo mais individual. Ambos possuem, porém, um eminente valor estético.

Entre 1968 e 1972, MTH e José Saramago (Deste Mundo e do Outro e Bagagem do Viajante) publicam crónicas no jornal A Capital. São dois tipos de crónicas diferentes: as de Saramago, atentas à realidade social, vinculam uma denúncia, um protesto (leve, devido à censura) e um jogo irónico, revelando, sobretudo, uma busca de justiça social; em MTH, por seu lado, existe a exaltação de um corpo reprimido e o uso de um léxico sugestivo que aponta para uma transgressão e uma insubordinação da existência através de um mundo de glorificação do corpo que devia ser valorizado, mas que as regras e a moral social não permitem enaltecer. Seria uma belíssima tese de mestrado evidenciar como estes dois grandes autores da literatura portuguesa, no seu processo de formação, possuem visões diferentes da crónica jornalística neste período, encetando caminhos literários totalmente divergentes.

Tanto na poesia publicada na década de 60 como na do mesmo período de Quotidiano Instável (Minha Senhora de Mim, 1971), como, ainda, na prosa vinda a lume (Ambas as Mãos sobre o Corpo, 1971, e no volume colectivo Novas Cartas Portuguesa, 1972, escrito em co-autoria com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa), o estilo de MTH pode definir-se como a busca de um lirismo puro tendo como horizonte referencial primeiro e último o corpo feminino e como linguagem estética o primado subjectivo da sensibilidade feminina, ambos afirmados como momento e como bandeira do movimento feminista em Portugal, que terá o seu ápice na obra da autora em prosa na publicação de A Paixão Segundo Constância H. (1994) e as Luzes de Leonor (2011), e, em poesia, na Poesia Reunida (2009, evidenciando uma continuidade temática e estilística) e em Poemas para Leonor (2012). É esta busca de um lirismo puro em torno da sensibilidade e do corpo femininos que singulariza a obra de MTH na actual literatura portuguesa contemporânea.

Lirismo puro significa, nesta autora, uma contínua evanescência do real, em que o referente é diluído, ou, pelo menos, enfraquecido, face à subjectividade pessoal, gerando uma escrita não só anti-racional como, sobretudo, de fortíssima sentimentalidade, celebrando mais os indícios, os sinais, os vestígios da realidade do que o império desta. Neste sentido, Quotidiano Instável, como exemplo desta escrita eminentemente lírica, ainda que social e historicamente interventiva devido à exaltação de um horizonte feminista no seio de uma sociedade eminentemente masculina (final do regime do Estado Novo), é uma escrita individualizada, confessional, quase um diário, com inúmeros elementos auto-biográficos. Sobre a prática deste tema, a autora tinha publicado já Crónica não é recado (1967), onde reduz cada crónica a um poema, sugerindo assim e igualmente que as suas crónicas reflectem mais o estado de espírito da cronista do que uma explícita mensagem para o leitor.

Devido a este estatuto da crónica praticada por MTH, o lirismo conspira abundantemente nos seus livros, fazendo corresponder os textos de Quotidiano Instável aos textos do romance Ambas as Mãos sobre o Corpo, do mesmo período, não se distinguindo, neste sentido, a prática de crónica e a prática do romance. Os curtos capítulos do segundo poderiam constituir-se como crónicas do primeiro e vice-versa. Em Ambas as Mãos sobre o Corpo o lirismo entende-se, para além das características acima enunciadas, como captação do ritmo sensível do mundo, da existência pessoal da narradora, que não raro se confunde com o cadência da vida da autora, e em Quotidiano Instável com o seu ritmo descompassado, desequilibrado (“instável), feito de desejo, de frustrações e de um tempo fragmentário.

Tendo consciência da imensa subjectividade da afirmação, não podemos deixar de considerar as duas últimas crónicas (24 de Maio e de 15 de Novembro de 1972, pp. 165 – 168) como síntese das restantes e, porventura, as mais belas do livro, expressão perfeita do que designámos por busca de um lirismo puro.

Quotidiano Instável. Crónicas (1968-1972),

D. Quixote, 176 pp., 13,90 euros.





Filha de Jorge Augusto da Silva Horta, 5.º Bastonário da Ordem dos Médicos de 1956 a 1961, e de sua primeira mulher D. Carlota Maria Mascarenhas - a qual era neta paterna, por bastardia, do 9.º Marquês de Fronteira, 10.º Conde da Torre de juro e herdade, Representante do Título de Conde de Coculim, 7.º Marquês de Alorna de juro e herdade e 11.º Conde de Assumar de juro e herdade, ele próprio também filho natural - é oriunda, pelo lado materno, de uma família da alta aristocracia portuguesa, contando entre os seus antepassados a célebre poetisa Marquesa de Alorna.

Frequentou o Liceu D. Filipa de Lencastre. Estudou na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Dedicou-se ao cine-clubismo, como dirigente do ABC Cine-Clube, ao jornalismo e à questão do feminismo tendo feito parte do Movimento Feminista de Portugal juntamente com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, as Três Marias. Em conjunto lançaram o livro Novas Cartas Portuguesas, que, na época, gerou forte impacto e contestação.

Teresa Horta também fez parte do grupo Poesia 61.

Publicou diversos textos em jornais como Diário de Lisboa, A Capital, República, O Século, Diário de Notícias e Jornal de Letras e Artes, tendo sido também chefe de redacção da revista Mulheres. Esta revista, um projecto pessoal de Maria Teresa Horta, consistiu num projecto feminista, de forte cunho essencialista.

É casada, em segundas núpcias[1], com o jornalista Luís de Barros, de quem tem um único filho, Luís Jorge Horta de Barros (4 de abril de 1965), casado com Maria Antónia Martins Peças Pereira, com dois filhos, Tiago e Bernardo Barros.

A 8 de março de 2004 foi feita Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique pelo Presidente da República Portuguesa, Jorge Sampaio.[2]

Foi galardoada com o Prémio D. Dinis 2011 da Fundação Casa de Mateus pela sua obra "As Luzes de Leonor"[3], o qual aceitou, embora se recusasse a recebê-lo das mãos do Primeiro-Ministro Pedro Passos Coelho, ao qual cabia entregá-lo, alegando que este está "a destruir o país"[4].

Obras[editar | editar código-fonte]

Poesia

  • Espelho Inicial (1960)

  • Tatuagem (1961)

  • Cidadelas Submersas (1961)

  • Verão Coincidente (1962)

  • Amor Habitado (1963)

  • Candelabro (1964)

  • Jardim de Inverno (1966)

  • Cronista Não é Recado (1967)

  • Minha Senhora de Mim (1967)

  • Educação Sentimental (1975)

  • As Mulheres de Abril (1976)

  • Poesia Completa I e II (1960-1982) (1982)

  • Os Anjos (1983)

  • Minha Mãe, Meu Amor (1984)

  • Rosa Sangrenta (1987)

  • Antologia Poética (1994)

  • Destino (1998)

  • Só de Amor (1999)

  • Antologia Pessoal - 100 Poemas (2003)

  • Inquietude (2006)

  • Les Sorcières - Feiticeiras (2006) edição bilingue

  • Cem Poemas + 21 inéditos (2007)

  • Palavras Secretas (Antologia) (2007)

  • Poemas do Brasil (2009)

  • Poesia Reunida (1960-2006) (2009)

  • As Palavras do Corpo (Antologia de poesia erótica) (2012)

  • Poemas para Leonor (2012)

  • Poesis (2017)

  • Estranhezas (2018)

Ficção

  • Ambas as Mãos sobre o Corpo (1970)

  • Novas Cartas Portuguesas (1971) (obra conjunta))

  • Ana (1974)

  • O Transfer (1984)

  • Ema (1984)

  • A Paixão Segundo Constança H. (1994)

  • A Mãe na Literatura Portuguesa (1999)

  • As Luzes de Leonor (2011)

  • A Dama e o Unicórnio (2013)

  • Meninas (2014

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