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Crítica Literária por Miguel Real


PESSOA E SARAMAGO - A TRANSGRESSÃO

2020-03-24

Fernando Pessoa (1888 – 1935) é o grande poeta português da primeira metade do século XX e um dos maiores poetas europeus novecentista. José Saramago (1922 – 2010) é um dos maiores prosadores portugueses da segunda metade do mesmo século, cuja obra, reconhecida internacionalmente, foi galardoada com o Prémio Nobel da Literatura no ano de 1998.

Dos escritores portugueses do século XX, são, os dois, sem dúvida, os que melhor reflectem e sintetizam a cultura portuguesa do seu tempo, reflectindo traços da cultura e da literatura universal. Pessoa trazendo o Modernismo europeu para Portugal; Saramago abrindo o realismo, cultivado em Portugal desde há cem anos e, esgotado como corrente literária, a novas inspirações narrativas, cruzando-o com a narração épica, o lirismo, o fantástico, o mítico e o maravilhoso, o trágico, jogando com a ironia e o jocoso, o pícaro, ostentando nos seus romances uma nova visão do tempo narrativo: “o tempo é todo um”, isto é, nos seus romances não existem separados e distantes as três dimensões do tempo, passado, presente e futuro.

Nesta conferência, pergunta-se e tenta-se responder: - O que os une e os distingue? Um sendo sobretudo poeta e outro sobretudo narrador em prosa, o que de comum os vincula à literatura? Vivendo ambos separados por meio século, o que os aproxima e, ao mesmo tempo, os distingue?

O que une Pessoa e Saramago, projectando ambos na literatura universal? Pensamos que o que une estes dois autores consiste numa imensa capacidade literária e extra-literária de Transgressão – ambos transgrediram o universo das categorias literárias do seu tempo, subvertendo-as.

Transgressão estética

Pessoa e Saramago criam duas obras que abrem dois novos horizontes na nossa visão artística do mundo, rompendo com os cânones académicos estabelecidos para a arte. Não existia, no tempo de Pessoa, teoria literária que acolhesse a sua heteronímia, considerada, inclusivamente pelo próprio, como manifestação de psicopatia; na década de 1980, quando Saramago publica os seus dois romances, Levantado do Chão e, sobretudo, Memorial do Convento, a perplexidade sobre o seu modo de escrever, o seu estilo, é imenso entre os professores de literatura e os escritores seus colegas. De certo modo, realizava-se o que nunca fora possível pensar no interior das categorias literárias tradicionais: a Heteronomia em Pessoa e o Narrador em Saramago. São os dois operadores estéticos, perfazendo a sua singularidade como escritores universais, que estilhaçam todas as normas vigentes. É justamente o que os une – a capacidade da descoberta e criação de novos vectores estéticos que transgridam o pensamento culturalmente dominante, eminentemente racionalista, positivista e republicano no caso de Pessoa, tecnocrático e capitalista no de Saramago.

Operador estético

A transgressão é realizada através de dois operadores estéticos totalmente inéditos, recebidos não só como insólitos mas também com estranheza cultural. São eles que constituem a meio por que ambos se elevam à universalidade da literatura:

  1. - PESSOA – A HETERONOMIA

Não podendo aqui nomear os diversos passos da construção da heteronomia em Pessoa, sublinhe-se que a metamorfose e o desdobramento da unidade e identidade autorais em vários heterónimos, mais do que uma obra literária, realiza, por inteiro, uma literatura. Por via de um processo de “despersonalização”, Pessoa fragmenta a sua obra criando outras identidades autorais com personalidade e vida próprias (heteronomia), multiplicando-as:

- Álvaro de Campos – o modernista futurista, decadentista, desenvolvendo uma estética sensacionista;

- Ricardo Reis – o classicista lírico, unindo o prazer epicurista à contenção ética estóica;

- Alberto Caeiro – o naturalista anti-positivista, anti-metafísica europeia, anti-pensamento ocidental;

- Bernardo Soares – (semi-heterónimo) autor do Livro do Desassossego, “o romance anti-romance”, narrativa que regista por fragmentos uma meditação existencial sobre o tédio e o absurdo da vida, o sem sentido da existência;

- António Mora – o teórico do neo-paganismo, autor do “estudo critico” Prolegómenos para a Reformação do Paganismo. O Regresso dos Deuses, ideia-mestra que tenta unir a dispersão fragmentária da totalidade dos heterónimos. Diz Álvaro Campos: “O meu mestre Caeiro não era um pagão: era o paganismo. O Ricardo Reis é um pagão, o António Mora é um pagão, eu [Álvaro de Campos] sou um pagão; o próprio Fernando Pessoa seria um pagão se não fosse um novelo embrulhado para o lado de dentro. O Ricardo Reis é um pagão por carácter, o António Mora um pagão por inteligência, eu sou um pagão por revolta, isto é, por temperamento. Em Caeiro não havia explicação para o paganismo; havia consubstanciação”.

Ao mesmo tempo, Pessoa é, indubitavelmente, uma das mais altas figuras da filosofia esotérica portuguesa, escrevendo sobre este tema, não de um modo despiciendo ou diletante, como um simples amador, mas de um modo empenhado, mesmo militante, embora, como tudo em Pessoa, de uma militância discreta, mais teórica que prática ou conspirativa. Neste sentido, o esoterismo possui, em Pessoa, a mesma dignidade cultural que a sua vertente de poeta modernista de Orpheu, evidenciando-se, definitivamente, ser Pessoa não o grande poeta e, depois, a um nível residual, um pensador ocultista. Não. Pessoa é, também, um grande pensador ocultista, cuja filosofia anima cada verso do único livro de poesia publicado em vida: Mensagem.

Eduardo Lourenço evidenciou a categoria ontológica do Nada como motor originário e originante da obra deste autor, a obra de Pessoa como “experiência do Nada”, contraposta à experiência civilizacional do Ser (a unidade de valores, articulados em essências, prestadoras de sentido ontológico à existência). É justamente a partir deste lugar suspensivo da História (o Nada) que a consciência pessoana se multiplica em heteronímia, exprimindo, como “drama em gente”, uma realidade fragmentada, nadificada. Neste sentido, Pessoa teria trazido o “Nada” ontológico para o centro da cultura portuguesa, figurando-a com a sua nova face europeia.

No registo lendário que Pessoa encenou de si próprio, dando vida imaginosa a uma vida real que não tivera, confundindo os críticos e historiadores (cf. Ivo de Castro, “Verdades Pessoanas”, Prelo, III série, nº 1, 2006), Pessoa “salvou-se” no milagroso dia de 8 de Março de 1914. “Mestre” Alberto Caeiro acabara de nascer, cobrindo o vazio metafísico existente entre a visão ontologicamente nadificante de Pessoa sobre a realidade e a própria realidade. Caeiro exprime a poesia ingenuamente realista, uma captação imediata e directa da realidade, sem “metafísica”, sem “mistério”, uma realidade totalmente transparente – uma flor é só uma flor, uma pedra, uma pedra. Sempre “mestre” e titular, de Caeiro nascerão, por oposição estética, Álvaro de Campos, o engenheiro cantor esfusiante de uma realidade humana fáustica e luxuriante, tecnológica, veloz e futurística, e Ricardo Reis, o poeta estóico. Pessoa, carecido de realidade, sabedor de que tudo é instante sem fim nem objectivo, e a vida soma fugaz de instantes vazios, preencheu o seu vazio interior criando a suprema ficção da ficção que são os seus companheiros heterónimos, dotando-os da vida que ele próprio não vivia.

Mensagem foi escrito por Fernando Pessoa entre 1913 e 1933 como um conjunto avulso de poemas patrióticos, que, na sua totalidade, deveria designar-se “Portugal”. Assim, Mensagem realiza, em termos poéticos, uma nova visão da história de Portugal, eminentemente anti-racionalista e anti-modernista, postulando que o atraso português face à Europa se devia, não ao afastamento dos nossos pensamento e hábitos sociais da revolução científica do século XVII, da revolução política democrática do século XVIII e da revolução industrial do século XIX, mas a uma condição divina, providencialista, um “destino” histórico (a “mão de Deus”) milagroso, que guardaria Portugal para, no futuro, messianicamente, quando o racionalismo científico e técnico se esgotasse civilizacionalmente, se assumir como nova vanguarda, agora cultural ( o “Império” “de que os sonhos são feitos”; a “nova Índia”) da Europa, evidenciando um outro modo de estar e de ser fundado no sentimento, na generosidade, isto é, no Amor.

O LIVRO DO DESASSOSSEGO – A DESCOBERTA DO NADA

Livro do Desassossego, de Bernardo Soares, constitui-se como os grande textos reveladores ou anunciadores dos novos estilos e temáticas da narrativa portuguesa do século XX, ferindo de morte o realismo do século XIX, isto é, alargando o horizonte da literatura para um trabalho sobre a língua que ultrapasse a mera retratação da realidade, inscrevendo no texto a marca de uma permanente esquizofrenia narrativa que atravessará toda a história da literatura portuguesa do século XX, desestruturando totalmente a ordem temporal e espacial clássica.

O Livro do Desassossego é um livro cujo conteúdo é um nada ficcional, isto é, não possui uma forma estética, é um livro sobre nada, isto é, sobre nenhum acontecimento ou nenhuma intriga, não tem nada em vista, isto é, nenhuma mensagem a transmitir, entretém ou divertimento a convidar à leitura, e cujo resultado, de escrita e de leitura, nada é. O autor, Bernardo Soares, não é ninguém, nem um heterónimo é, mas semi-heterónimo, a história, a acção, o tempo nada são no livro, a mensagem é igual a nada e o leitor, lido o livro, com nada fica; pelo contrário, sente-se mais vazio que o vazio. Terá sido este quádruplo nada que, como habitual leitor e autor de romances, terá perturbado Graça Moura, afastando-o da obra de Bernardo Soares. Porém, deve assentir-se que escrever um livro sobre nada, daqui nada resultando, é a mais difícil e quase impossível tarefa de um escritor. Enfim, Pessoa já fora ele e os outros; só lhe faltava ser nada – eis Bernardo Soares, a personagem tão plasticamente vazia, entediante, arrastante, lenta, meditabunda, aporética e céptica de um cepticismo que nada de nada conclui, que de si – um permanente nada - só nada pode sair. E o que de Bernardo Soares sai é justamente o Livro do Desassossego, isto é, nada, nada, nada e nada. O nada social torna-se esteticamente um nada absoluto, rompendo com vanguardismos, saudosismos, racionalismos, integralismos, positivismos, europeísmos, objectivismos, psicologismos, socialismos, almejando apenas o direito à existência arrastada em forma em forma de angústia problemática (J. Régio) ou de tédio do espírito (F. Pessoa/B. Soares) , de tudo descontente, mas tudo aceitando:

2. - SARAMAGO – O NARRADOR

José Saramago impôs à literatura mundial uma nova e revolucionária concepção geral de romance – por um lado, desconstrutivista, tecido de mil episódios narrados fragmentariamente; por outro, integrando estes episódios numa “grande narrativa”, ou, dito de outro modo, usando no mesmo texto tanto as categorias clássicas do romance quanto as subvertendo; por um lado, destrói a cronologia, afirmando que “o tempo é todo um”, permitindo-se fundir na descrição de uma cena o passado e o presente, e, por vezes, o futuro, não ao modo do romance psicológico, mas social e historicamente, derrubando a distinção absoluta entre as figuras da analepse e da prolepse; por outro, respeita o tradicionalismo da narrativa clássica com princípio, meio e fim, contando uma história ao modo antigo; por um lado, afirma o uso vernacular da linguagem, mesmo clássico; por outro, integra-o num autêntico fogo-de-artifício semântico de horizonte barroco, muito próximo de uma visão pós-moderna da literatura, na qual as palavras fluem por si, desprovidas de imediato referencial; por um lado, subverte radicalmente o emprego do modo tradicional da sinalética morfológica; por outro, respeita o seu sentido (discursos directo e indirecto bem delimitados no todo da narração, sem confusão alguma); por um lado, a sua obra prova que para se conquistar o leitor não é necessário diminuir o romance a uma narrativa sentimentalona de folhetim telenovelesco, encostado à ignorância passiva do leitor; por outro, caracteriza as suas personagens com os atributos sentimentais e populares, bem ao gosto do leitor médio.

A obra de José Saramago subverte igualmente o estatuto do narrador, estilhaçando as diversas modalidades por que este é habitualmente classificado. Como Pessoa, por via da heteronímia “foi tudo de todas as maneiras”, assim o narrador de Saramago é “tudo de todas as maneiras”, simultaneamente exterior e interior, ausente e participante, majestático e empenhado, individual e colectivo, reflexivo e descritivo, memorialístico e actual… De certo modo, o narrador identifica-se com uma espécie de cruzamento teórico e prático entre vox populi, vox Dei e consciência moral individual (o “daimon” socrático), que lhe permite (ao narrador) tanto descrever o acontecimento quanto julgá-lo, quanto, ainda, inscrevê-lo numa ordem histórica em ordem a um futuro prenunciado. De certo modo, o narrador de José Saramago tanto é eivado de um certo domínio do tempo, na ordem da estrutura e da necessidade (o determinismo), quanto a ele se submete no domínio da conjuntura e da contingência (o probabilismo, por vezes elevado, na sua obra, ao especiosismo labiríntico do pormenor).

Do mesmo modo, o estatuto do narrador desdobra-se pelas variadas técnicas e pelos vários sujeitos narrativos estandartizados, a todos estilhaçando, ultrapassando-os e estabelecendo na prática textual um novo sujeito narrativo, à uma histórico e majestático, auto e hetero-diegético, distanciado e participante, pessoal e colectivo, omnisciente e íntimo, ora vocalizado na terceira pessoal do singular, ora na primeira do plural.

Neste sentido, enquanto majestático e omnisciente, o narrador domina o tempo histórico, conhecendo o futuro e revelando proplepticamente as grandes linhas por que a História se desenvolverá e o final global a que estas conduzem. No entanto, escapa a esta omnisciência narrativa a contingência dos destinos singulares e, principalmente, o resultado do entrecruzamento infinito dos actos particulares no seio da história geral. Deste modo, o narrador, uno mas plural, ganha um sentido tanto profético como sentencial, tanto narra uma história de amor como um relato fabuloso, tanto é uma narrativa histórica de feição épica popular como um romance confessional, intimista, tanto é uma história iluminista, desmascaradora de crenças supersticiosas, como um texto moralista sobre a condição popular.

Em 1980, aquando da publicação de Levantado do Chão, e, logo a seguir, em 82, com Memorial do Convento, não existia passado para o novo estilo de José Saramago, tendo causado um absoluto espanto entre os leitores, que liminarmente o recusavam ou com ele se deleitavam. É um estilo improvisado a cada momento, oral, coloquial (dialoga com o leitor), soltando as palavras, deixando-as seguir simultaneamente o seu curso conotativo e a sua fluência semântica, uma espécie de cantilena, de melopeia, quase uma toada, animada de um fluxo lexical caudaloso, torrencial, por vezes vertiginoso, que projecta a totalidade da História na síntese de uma frase, conferindo a esta um peso ontológico determinante, dramático, não raro trágico, para logo de seguida acompanhá-la de observações de quem, jocoso e paródico, nada leva a sério, jogando magistralmente com a ironia, funcionando com paralelismos e antíteses pronunciados, divertindo-se com as palavras, menos num sentido cultista e mais conceptista (exactamente como a prosa de Pe. A. Vieira), explodindo em longos períodos de apuramento barroco, como uma catedral de palavras, menos num sentido grave, como se criasse aforismos sintetizadores do mundo (Agustina), e mais num sentido lúdico-sentencial, representando o mundo por via de contrastes racionalmente proporcionados, gerando superiores harmonias espirituais na consciência do leitor. Sobre o todo do estilo, coexiste, como uma sombra branca nobre, um pronunciado lirismo, acompanhado, nos seus primeiros romances, até Ensaio sobre a Cegueira (1995), de um evidente optimismo histórico, e, desde então, de um fortíssimo pessimismo e cepticismo.

É um narrador objectivo, historicista e historiográfico, e subjectivo, parecendo voar transcendentemente sobre a História e as estórias, fazendo do tempo um só (“o tempo é todo um”, diz Saramago), como se tivesse apenas uma dimensão, englobadora do presente, do passado e do futuro (o narrador, no passado e no presente de cada momento histórico, conhece, quase deterministicamente, o futuro, ou seja, o desfecho da luta dos alentejanos: a liberdade e concretização prática da justiça através da ocupação dos latifúndios após o 25 de Abril de 1974 – por isso o narrador pode transitar entre as três dimensões do tempo).

Criou um narrador inexistente na história da literatura portuguesa, um narrador que parece ser “tudo de todas as maneiras”, simultaneamente ausente e participante, exterior e interior ao texto, majestático e empenhado, individual e colectivo, reflexivo e descritivo, memorialístico e actual, erudito e popular, épico e lírico, evenencial e profético, grave e irónico, psicológico e sociológico.

De qualquer modo, e um narrador objectivo, historicista e historiográfico, e subjectivo, parecendo voar transcendentemente sobre a História e as estórias, fazendo do tempo um só (“o tempo é todo um”, diz Saramago), como se tivesse apenas uma dimensão, englobadora do presente, do passado e do futuro.

É um narrador que se auto-improvisa a cada momento, oral, coloquial (dialoga directa ou indirectamente com o leitor e com o discurso histórico consagrado), soltando as palavras, deixando seguir simultaneamente o seu curso conotativo e a sua fluência semântica, uma espécie de cantilena, de melopeia, quase uma toada, animada de um fluxo lexical caudaloso, torrencial, por vezes vertiginoso, que projecta a totalidade da História na síntese de uma frase, conferindo a esta um peso ontológico determinante, dramático, não raro trágico, para logo de seguida acompanhá-la de observações de quem, jocoso, nada leva a sério, jogando magistralmente com a ironia, funcionando com paralelismos e antíteses pronunciados, divertindo-se com as palavras, menos num sentido cultista e mais conceptista (exactamente como a prosa de Pe. A. Vieira), explodindo em longos períodos de apuramento barroco, como uma catedral de palavras, menos num sentido grave, como se criasse aforismos sintetizadores do mundo, e mais num sentido lúdico-sentencial, representando o mundo por via de contrastes racionalmente proporcionados, gerando superiores harmonias espirituais na consciência do leitor.

Sobre o todo do estilo, fundado no operador estético do narrador, coexiste, como uma sombra branca nobre, um pronunciado lirismo, acompanhado, em contrabalanços mútuos, entre um evidente optimismo histórico e um fortíssimo pessimismo e cepticismo sociais. É um narrador que concilia a omnisciência narrativa, uma omnisciência limitada, com as múltiplas teses históricas defendidas, cada uma e o seu contrário, não se debilitando, antes fortificando-se no ludismo das perspectivas apresentadas. É igualmente um narrador pós-moderno, desconstrutor da ordem clássica do romance introduzindo apartes que lhe evidenciam as costuras ou as ligações.

É um narrador que não receia inserir o fantástico no interior da narração da ordem social e historicista, quebrando voluntariamente o ritmo e o aparente suspense para contar, abruptamente, uma história de lobisomens e a história do homem que, à noite, se transformava em galinha, dando privilégio à oralidade, elemento fundamental na construção do seu estilo como substituto dos clássicos diálogos, popularizando a linguagem.

 

Miguel Real,

CLEPUL – Centro de Literaturas e Culturas Europeias e Lusófonas da Universidade de Lisboa

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