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Raízes - Pepetela


MAGIAS DO MAR

2017-09-12

 

 

Ruud de Boer, nascido na espalmada Holanda, era famoso caçador. Aos cinco anos de idade já liquidava as raras moscas aparecidas no Verão de Amesterdão, com uma técnica especial, envolvendo grosso dicionário de afrikaans estrategicamente aberto e grãos de açúcar para atrair as presas. Aos seis anos a mãe descobriu o dicionário transformado em nojo e deitou-o fora, mas em compensação o menino ganhou uma pistola de ar comprimido, oferta do avô, temido pelos leões do antigo Tanganika, prenda essa muito criticada pela família, rendida à luta por paz e amor no mundo sem armas.

Ruud experimentou pela primeira vez a pistola num gato passando pelo telhado escuro. Acertou logo no lombo esquerdo. A mãe ouviu os miados ofendidos do gato, veio ao quintal, viu o olhar triunfante do miúdo e lhe tirou imediatamente a arma. Mas a insistência do avô no apoio venceu. Não se matam tigres de Bengala sem persistência, uns diriam teimosia, lhe ensinou o avô, entrevado na sua cadeira de rodas. Devolveram o objecto com a promessa de não mais atirar a gatos. Ruud de Boer compreendeu, tinha de procurar alvos fora de casa. Havia muitos pássaros nos campos de tulipas, mas ficavam longe demais. Única hipótese mesmo eram os jardins públicos, quando não caía o Inverno. No entanto, seu apurado instinto caçador lhe dizia, devia ter cuidado com a proliferação das seitas e ligas defendendo os animais, mais fanáticas que as defendendo os humanos. Disparava à socapa, a pistola embrulhada numa camisola verde. Difícil fazer pontaria nessas condições, raro acertava. Mas quando isso acontecia era uma festa. Dançava ao redor do corpo ainda estrebuchante do passarinho, como vira fazer em filmes os índios comanches caçadores de bisontes, seus ídolos de cavalgadas perigosas. Ninguém reparava na insólita dança, quem liga mesmo a uma criança pulando às voltas num parque?

Com maior idade foi vencendo as resistências maternas, embora já sem o apoio do avô, partido para as nuvens caçar arcanjos. Entrava na universidade quando comprou a primeira espingarda a sério e foi nas férias caçar patos nos pântanos de França. Nas seguintes preferiu matar coelhos em Espanha e Portugal, depois do fracasso em liquidar uma rena no norte da Suécia. Havia sempre dificuldades com as licenças de caça, mas acabava por encontrar nos países do sul o funcionário necessitado de engordar o magro salário. Inaugurou as saídas da Europa apenas quando estabilizou profissionalmente no ramo dos seguros e casou.

Foi obviamente para África. Aí passou um mês inesquecível, matando antílopes e o seu primeiro leão, no antigo Tanganika do avô, agora Tanzânia. Fez algumas caçadas em Bornéu, na Birmânia, na própria Índia de marajás e tigres-de-dentes-de-sabre. Mas a obsessão estava em África e lá teria de voltar. O pretexto foi abrir uma sucursal da sua firma de seguros no Quénia. E ajudar a dizimar a fauna do país, justificando com a contribuição para o desenvolvimento do turismo. Não se ficou por aí, pois experimentou as coutadas da África do Sul, Moçambique, Zimbabwe, Botswana e até mesmo liquidou clandestinamente suricatas no deserto da Namíbia. Nada escapava ao seu tiro certeiro, a ponto de ser referenciado nas melhores revistas da especialidade, para rancor de alguns seus colegas americanos que pretendiam ser os novos Hemingway, não da literatura, mas apenas da arte cinegética.

Estando uma vez na Namíbia, conheceu no hotel um angolano. Este não fugia à regra dos luandenses: dentro falavam mal; fora gabavam a pátria acima de todas as medidas. Sabendo do interesse do holandês por caça rara, falou da palanca negra gigante, mas essa não lhe aconselho porque será mais fácil fuzilarem-no com cocó de pássaro que deixarem encontrar alguma. Ruud tinha ouvido falar do manatim, mamífero raríssimo habitando rios, e que uma bióloga israelita conhecida dele garantira existir no rio Kuanza. O kaluanda, de seu nome abreviado Rodrigo de Vasconcelos, conhecia a história, relatada repetidamente nos órgãos de informação nacionais, informou ter sido um fracasso essa procura do manatim. Houve há muito tempo, houve de facto, mas ninguém mais o viu, o último foi um velho que já morreu, cego durante cinquenta anos, garantiu com o conhecimento de detalhes e a autoridade de dono da terra.

O holandês era amante de cerveja, como é quase redundante afirmar. Rodrigo também não desmerecia das tradições muangolés. Ao fim de muitas garrafas, Ruud quase lhe apertou os colarinhos, apopléctico:

– Arranja-me um bom pretexto para ir a Angola, arranja. Que bicho raro têm lá?

Rodrigo até conhecia umas quantas pessoas, algumas mesmo bem colocadas na vida, quadrando perfeitamente na pergunta. Mas era de mau tom revelar segredos locais a um quase desconhecido, ainda por cima estrangeiro. De repente lembrou:

– Bem, de facto ninguém lá conseguiu matar um kianda.

– Que é isso, que é isso? – gritou o holandês, já embrulhando a língua.

– Falam, dizem… uma sereia. Em Luanda lhe chamam sereia.

Nessa noite de muita cerveja, Ruud de Boer foi informado da existência de sereias em Luanda. No mar, embora também houvesse em rios e lagos, até nos mais pequenos. Logo jurou caçar alguma. De muito boa memória, como a têm os caçadores obsessivos, nunca mais esqueceu o facto. E foi aos poucos se apaixonando pela ideia de organizar uma expedição para se tornar no primeiro homem do mundo (Antiguidade incluída, com excepção provável, admitia, de alguma lenda relacionada com os gregos do tempo de Ulisses) a caçar uma sereia, esse ser mitológico perturbando os apetites sexuais dos marinheiros de todos os tempos.

A terceira mulher ameaçou vou embora, aceito as propostas do electricista da esquina e pronto, mas ele já estava habituado a que as mulheres o abandonassem, aconteceu com as anteriores, fartas das suas constantes ausências atrás de bichos, a sua verdadeira paixão. Disse adeus à terceira mulher, vai para o teu electricista mas deixa a chave de casa na caixa do correio, e aportou a Luanda. Seguiu o conselho do seu amigo Rodrigo de Vasconcelos, que o esperava no aeroporto, e foi logo à Ilha, sítio onde mais conhecimentos havia sobre Kianda. Foi perguntando e recebendo respostas desconjuntadas, porque a maior parte das pessoas morando na Ilha já nem sabem o que isso é, originárias de outros sítios e donas de culturas estranhas, com seus próprios deuses e demónios. Finalmente encontrou um velho que lhe disse, sorrindo só com os olhos:

– Kianda? Sereia? Isso não existe. Kianda não tem corpo de mulher em cima e rabo de peixe em baixo, não é nada disso.

Ruud intuiu sabedoria naquele velho, apontado como da linha originária dos Axiluanda, os habitantes de sempre da Ilha e que deram o nome ao sítio e à cidade. Insistiu, no entanto. Não era nada parvo e se tinha documentado durante meses, para não dizer anos.

– O próprio governo de Luanda diz ser uma sereia – insistiu. – Às vezes aparecem nas festas gravuras dessas. E são oficiais. Estou farto de as ver.

Esqueci dizer, do que me penitencio neste momento, o holandês usava Rodrigo de Vasconcelos como medianeiro e intérprete, a troco de almoços e copos durante o trabalho de investigação e a promessa de uma gorda recompensa em caso de sucesso.

– Sei – disse o mais velho. – Não adianta lhes explicar, esses do governo não aprendem nada. Não é sereia, isso é coisa dos tuga que lhe chamavam assim. Kianda não é um nem uma, é só Kianda. Por isso, você, menino – se virando para Rodrigo – não diz um Kianda nem uma Kianda. Explica isso no branco.

Como explicar em inglês que Kianda não devia ter género? Era coisa sem sentido, os ingleses adoravam jogar com o neutro. Se limitou a traduzir a explicação anterior do mais velho, governo ignorante não gosta de aprender. O mesmo se diz de qualquer governo da minha terra, pensou Ruud, pouco convencido.

– Pergunte então como sabem que Kianda existe?

A resposta do Muxiluanda foi mais misteriosa:

– Se sabe. O mar nos diz.

Conversa perdendo interesse para o holandês, que a abreviou. De qualquer modo, a conselho do seu guia, depois de lauto almoço num dos restaurantes da Ilha, foram procurar um antropólogo (esse deve saber mais alguma coisa que o velho tonto, pensou Ruud).

A explicação era complexa e também não satisfez o caçador. Por vezes o mar parece ser feito de fitas de muitas cores, como algas compridas e largas de quilómetros, parece tremeluzente como bandeiras ao vento. Por vezes são as gaivotas a voar de maneira diferente, ou os peixes a fazer restolho na água quando não deveriam, por vezes é só o vento ou a falta dele, o céu de um azul impossível em algumas partes, numa palavra, a natureza aparece subvertida e isso é Kianda a se manifestar, segundo crêem os mais velhos Axiluanda. Mas a aproximação à sereia europeia é obra dos portugueses, aparecendo governantes e jornalistas ignorantes a insistirem na vulgarização do disparate. Kianda é um ser exigente, parece no ciúme o Deus do Velho Testamento, provoca calamidades no mar se não lhe fazem oferendas e votos. Para robustecer a argumentação, o antropólogo traduziu passagens de um livro de Ruy Duarte de Carvalho, conhecedor de todos os mambos sobre esse tema.

Ruud era casmurro, como já o seu nome indicava. Não acreditou em nenhuma explicação, mítica ou científica, a sua vontade se sobrepunha a qualquer razão invocada. Naquele mar havia sereias e os angolanos andavam a lhe dar voltas e fintas, só para protegerem os seres misteriosos. Sabiam, a fama do grande caçador tinha chegado àquelas bárbaras paragens, a sereia não lhe escaparia, como não lhe tinha escapado o elefante castanho do Zimbabwe, mais inteligente que um macaco, sabendo se esconder entre os paus secos, tomando formatos de um feixe majestoso de lenha. Não o apanhou, afinal? E a cobra naja que no Tibete se transformava em minhoca, aterrorizando populações, até ele lá chegar com sua espingarda de balas líquidas? E andavam agora estes tipos a contar estórias sobre Kianda, como se fosse um deus, o único ser que não se vê e se sabe existir! Pressionava a tal ponto o seu intérprete que este começou a faltar ao trabalho de responsável burocrático de uma repartição para o acompanhar, resmungando não são uns almoços que podem compensar este tempo perdido. Lhe pagarei bem se me levar a bom porto, prometeu Ruud, cada vez mais frustrado.

Rodrigo estabeleceu então um plano. Falou a um antigo vizinho do Marçal, suspeito de artes pouco usuais, Kueleke de seu nome. Foi ter a casa dele, um pardieiro no Sambizanga dando sobre a baía. Era um bairro de choças e tugúrios mais podres uns que os outros, o lixo inundando tudo, mas tinha uma espectacular vista sobre a baía e o além para lá da Ilha. Não se comoveu com a paisagem, foi logo ao assunto. Como vou me livrar desse holandês? O mano não sabe de uma maneira de lhe fazer esquecer Kianda, ou de o fazer desaparecer, mas antes me pagando o devido por tanta trabalheira? Kueleke disse, vou dormir com o mambo, seres marinhos não são minha especialidade, prefiro espíritos desencarnados, mas amanhã venha me visitar ao pôr do sol. O que Rodrigo fez. O suposto kimbanda disse para ir buscar o estrangeiro, mas antes lhe fazer dar umas voltas pelo bairro para se perder completamente e não poder saber onde era a residência, evitava confusões nesta época de terrorismos planetários e correspondentes paranóias, branco que lhe acontece qualquer coisa no musseque aparece logo na televisão de todo o mundo e ainda nos acusam de pertencer a um grupo perigoso ligado ao Oriente, hum, já vi coisas.

Rodrigo assim fez, deixando o carro à entrada do bairro e dando umas voltas e reviravoltas na noite até o holandês começar a protestar de cansaço e aborrecimento.

– Então no mato não tem de andar todo o dia? – perguntou Rodrigo.

– No mato é diferente. Este bairro cheira mal, cheira a merda, cheira a gente. O único bicho a que cheira é rato e rato não caço.

Estava pois na hora de o levar a Kueleke.

O kimbanda ofereceu vinho logo de entrada, com desculpas, a cerveja estava quente. Desabituado de receber holandeses, reparou Rodrigo, holandês bebe cerveja de qualquer maneira, mesmo a fumegar, mas preferiu não interferir. Beberiam vinho. E foi traduzindo. Kueleke fez as cenas habituais que se podem esperar de um kimbanda competente, com fumos a sair de uma panela, agitou cestos com penas, pedras e ossos, pintou a mão direita de Ruud com um líquido tirado de uma cabaça, e foi falando que Kianda cheiraria o perfume dele, dele não, da mão dele claro, e viria ter com o caçador, pois era um ser amante daquele perfume. Tinha de ir para mar alto e deixar a mão perto da água, sem a lavar para não perder o cheiro. Depois era só disparar à vontade. Convinha também levar um arpão ou gancho para puxar o ser para dentro do barco. E não esquecer poderosa lanterna, mas eram recomendações inúteis, qualquer caçador não vai para o mato sem lanterna. Menos ainda no mar. Condição sine qua non: devia ir sozinho. Se Kianda sentisse presença de outra pessoa, não apareceria. Todas as vezes que se manifestou foi sempre a homens, HOMENS, não mulheres. E sempre homens sós. A condição não foi obviamente dita em latim, mas no seu péssimo kimbundu, tão mau como o de Rodrigo, ambos citadinos de duas gerações, mas não estava ali mais ninguém para reparar. De qualquer modo, para o holandês soava diferente do português, o que conferia idoneidade ao kimbanda, utilizando idioma tradicional. Tradições se mantêm com línguas tradicionais, lá dizia o ditado caçado em florestas ameríndias. E tinha mais, acrescentava Kueleke: na véspera da caçada não podia tocar em fêmea nem comer galinha de cabidela. Essa parte Rodrigo saltou, não sabia como traduzir cabidela, ficou só com galinha, era suficiente.

O holandês, impressionado com o ambiente impregnado de cheiro de liamba na residência e com a magreza do kimbanda, sugerindo um sábio hindu ou rastafari, lhe deu bom punhado de dólares. E partiram para o hotel dele, o muangolê evitando se aproximar demasiado da mão pintada do outro, cheiro provocando vómitos até em camaleão, o bicho mais despojado do sentido do olfacto e gosto, por causa do comprimento da língua, como lhe tinha contado o compadre Malaquias, biólogo, especialista em animais lentos. No caminho, Rodrigo prometeu lhe arranjar um barco, cobrando logo o avanço devido ao alugador. Cinco mil dólares estava bem, com essa soma devia conseguir um a motor. Ruud não tinha licença de marinheiro, mas como partiria ao fim do dia, os fiscais já teriam abandonado o serviço, como qualquer bom funcionário público. No hotel, Rodrigo recebeu o kumbu para o barco e concluiu logo as contas, um candongueiro amigo que fazia a travessia para o Mussulo lhe alugaria um por mil, até menos porque à noite o barco ficava sem serventia na areia. O resto dos cinco mil seria para pagar tanta paciência com o raio do holandês. Depois de uma noite sem sucesso no mar, o caçador ia desistir de ter uma sereia na colecção. E ele poderia arranjar outro boelo a quem extorquir umas massas.

Tudo correu bem. O candongueiro se satisfez com quinhentos dólares, na condição de o barco estar no mesmo sítio na madrugada do dia seguinte, pois tinha um contrato com clientes fixos do Mussulo, onde alguns ricos dormiam, levando-os para Luanda, onde fingiam trabalhar.

– Fingiam?

– Sim, porque negócio que dá a um tipo montes e montes de kumbu é trabalho?

Sabedoria de candongueiro naval.

No dia aprazado, estava o sol a cair para lá da linha do Mussulo e a escuridão a avançar com sua rapidez habitual, Rodrigo levou o holandês para a praia. Ajudou mesmo a meter o barco na água. Era fácil, não tinha quilha e de uma leveza espantosa. Próprio mesmo para aqueles mares interiores e aquele negócio de levar pessoas e mercadorias de um lado ao outro do canal. Explicou ainda a Ruud qual a direcção para o alto mar, apresentando aspecto de calmaria. Da parte da tarde costumava haver alguma agitação com a brisa a levantar, mas não nesse dia.

O caçador vinha equipado a rigor. Além da arma no seu estojo, transportava arpão, apetrechamento de mergulho completo e ainda um saco preto plástico, usado para transporte de cadáveres. Só faltava mesmo Kianda entrar nele, pensou Rodrigo. Para isso talvez contribuísse o cheiro nauseabundo do braço nórdico, sem ter sido lavado desde a pintura.

O barco avançou para lá da linha de luz, ficou no ar o barulho do motor, tosse metálica de batuque na noite.

Rodrigo permaneceu na praia até deixar de ouvir a embarcação. Mais à frente, onde nascia a Lua, para ocidente, na direcção tomada por Ruud, de repente cresceram vagas. Podia ser uma arrebentação qualquer mas ele tinha a certeza, ali nunca houve arrebentação, a da Corimba ficava muito para a direita. As vagas cresciam à medida do luar. Rodrigo jura, não foi alucinação, contra a imagem da Lua e durante um minuto se destacava nítido o barco candongueiro em cima de uma onda descomunal, parecendo dorso de baleia gigante.

Nunca mais houve notícia do holandês.

As revistas da especialidade vieram investigar a misteriosa ausência de caçador tão famoso. Sem resultado. O desfecho foi negativo também para Rodrigo, pois o candongueiro obrigou-o a pagar o barco desaparecido. Apesar de amigo, exigiu mais do que o caçador tinha avançado, não só o preço da chata, mas indemnização para compensar também o tempo sem trabalho até comprar outro. Candongueiro sabe fazer contas, que é que pensam? Só prejuízo e mais prejuízo. Raio de branco, me ficou bem caro, se queixou a Kueleke.

– Quem sabe? Aquela droga que pus no braço dele talvez que chamou mesmo Kianda. Quem pode afirmar ou negar? Avisei, gosto mais de trabalhar com espíritos de terra. Os do mar são como o futuro, ninguém que lhes adivinha.

 

Pepetela

Julho de 2009
Revisto em 2015

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