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Raízes - Ana Cristina Silva


Duas Cartas a Che Guevara

2023-01-18 10:41:35

Havana, 14 de Novembro de 1963 

Che, meu amor, 

Faz hoje quatro meses que nos conhecemos. Senti a paixão e o êxtase no instante em que pousei os olhos em ti, um momento prodigioso em que expulsei da vida a passagem do tempo. Amo-te por ti, mas também pelo que representas; há um mundo de generosidade na tua pessoa. Adoro-te com devoção pelo teu papel de guerrilheiro na Sierra Maestra, mas também pelas mudanças que introduziste em Cuba. A campanha de alfabetização, a reforma agrária, a nacionalização das grandes companhias americanas, são menções que jamais seriam associadas ao desejo amoroso a não ser em relação a um homem cujo discurso modela a matéria de novos sonhos. 

Trouxeste a revolução a Cuba e também à minha vida. Amo-te, amo-te, amo-te, e não é só com recordações que te guardo dentro de mim. O que te torna ainda mais presente são os teus ideais e o propósito de libertar a Humanidade de um mundo tão feroz. Sei que não posso ser egoísta e querer-te só para mim, não me pertences, nem a mim nem a nenhuma mulher: a tua missão é combater a injustiça e estender a luta revolucionária a muitos países e continentes. Somos amantes que se sonham. Mesmo que só em sonhos volte a desenhar a tua boca com os meus beijos, basta-me fechar os olhos para sentir a vertigem de fazer amor contigo. Se os abrir diante de um espelho, vejo a tua sombra a abraçar-me e tenho tal noção do teu corpo que sinto uma felicidade plena que se infiltra na minha pele.

Festejo a tua doçura e o teu retorno, num sofrido desejo que a memória se encarrega de multiplicar. E, mesmo que nunca voltes, nada poderá apagar a alegria inigualável de ter sido tua mulher. No dia em que decidir abandonar o meu marido, de certa forma estarei a correr para os teus braços, fazendo parte da tua revolução. 

Um beijo da tua amante, Annie.

 

Havana, 15 de Outubro de 1967

Amor, meu querido Che, 

Ouvi Fidel anunciar na rádio. Nesse instante, as palavras passaram a ser vidraças que distorcem e enevoam, deixando de transmitir uma mensagem clara. Nesse instante, as palavras passaram a chocar umas com as outras, transbordando com o horror do que anunciavam. Tinhas morrido, assassinado pela CIA e pelo exército boliviano! A realidade da tua morte demorou muito tempo a penetrar na minha consciência. Como é que era possível que tivesses morrido?, perguntava-me, andando de um lado para o outro no meu apartamento. A dúvida mais não era do que um grito de impotência. De quando em vez, erguia os meus olhos para ti — para o enorme poster pendurado na minha parede —, fixava-me ao teu rosto e desatava a chorar. 

Abraçarmo-nos quase sempre nos foi proibido, nunca encontrámos o caminho que nos conduzisse um ao outro, mas estavas vivo, podia sonhar contigo e com os teus feitos em benefício da revolução. E o sonho continha também elementos eróticos: imaginava a suavidade dos teus lábios, sentia o toque dos teus dedos a rasgar um mar de sensações na minha pele. Não sentia como vacuidade o facto de sucumbir ao feitiço do teu fantasma. Tocava-me como se o prazer viesse do teu corpo sobre o meu. Sob o efeito hipnótico do desejo, sob o efeito invencível desse desejo, fiz muitas vezes amor contigo. Puseste-me um selo, com um único encontro. És um mártir e um herói, venerarei para sempre a tua coragem. Sei que o meu sonho vai ser partilhado por todas as mulheres revolucionárias, erguer-te-ão um altar e adorar-te-ão como se adora um santo. Eu amava a tua dedicação à causa, inspiraste a minha entrega ao processo revolucionário, mas era o homem que incendiava a minha paixão. Continuarei a falar contigo como faço há anos, serás para sempre a voz que me sopra segredos de amor, mas a morte infiltrou-se nas minhas palavras e elas começam a desfazer-se em pó.

Tua para sempre, Annie.

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