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Folheando com... Richard Zimler


Queria dizer que talvez pudéssemos ser todos terroristas em circunstâncias iguais às de Sana

2006-05-29

Richard Zimler, o criador de «O Último Cabalista de Lisboa» – best-seller em onze países, incluindo os Estados Unidos da América, Inglaterra, Itália, Brasil e Portugal – inaugura esta nova rubrica do Portal da Literatura, no momento em que acaba de lançar o seu novo livro: «À procura de Sana». Uma entrevista interessante, para a qual chamamos a atenção de todos os leitores.

 

 Entrevista a Richard Zimler no âmbito do novo romance "À Procura de Sana".

Após uma série de romances históricos sobre a família Zarco, de judeus portugueses, como é que «Á procura de Sana» se enquadra na sua obra? É um romance autobiográfico? É uma forma de contribuir para uma visão mais clara do problema palestiniano?

"À Procura da Sana" explora alguns temas que foquei nos meus livros anteriores, por exemplo, a construção de identidade, amizade, a traição, o efeito nefasto de instituições injustas sobre uma pessoa, e talvez o mais importante, o significado de uma vida individual. Para falar destes temas neste livro, adopto um estilo diferente dos meus romances históricos (do meu Ciclo Sephardita) porque cada narrativa exige o seu próprio estilo. A linguagem de "À Procura da Sana" é mais directa e coloquial. Optei por criar uma narrativa mais ou menos jornalística porque se trata de um romance actual (que decorre entre os anos 50 em Haifa e 2004 em Portugal e Paris).

Há, de facto, cenas autobiográficas no livro, por exemplo, o prefácio em que vou para Austrália para participar num congresso de escritores. Ou as cenas em que estou a trabalhar para a United Press International em Paris. Tentei apagar a fronteira entre ficção e não ficção neste livro.

Olhando para trás, penso que decidi deixar-me como personagem no romance em parte para obrigar-me a lidar emocionalmente e não só intelectualmente com os problemas dos meus personagens. Sendo as duas personagens principais de cidade de Haifa, a história tinha que lidar com a terrível violência entre israelitas e palestinianos e a história israelo-palestiniana. Não sei se queria contribuir para uma visão mais clara dos dois povos. Possivelmente. Mas mais do que isso, queria explorar a complexidade da situação e deixar os meus personagens falar e agir sem o filtro dos media (sem a censura dos "sound-bites" em que uma pessoa só tem 10 segundos para se exprimir).

 

À Procura de Sana é anunciado como um livro potencialmente controverso. Em que partes do livro hesitou, se é que isso terá acontecido?

Tive que tentar encontrar um equilíbrio ou um balanço entre o ponto de vista dos meus personagens palestinianos e israelitas. Não queria que o livro traísse a complexidade da situação e dar respostas fáceis. Não queria criar heróis e vilões. Para atingir este balanço pedi a vários amigos para lerem o manuscrito, pedi-lhes o seu feedback. Os comentários ajudaram-me imenso já que acabei por fazer alguns pequenos ajustes.

 

Vê À Procura de Sana como uma história de amizade, de vingança ou de ressentimento?

As três coisas! É, de facto, uma história de uma grande amizade que é destruída, em parte, pelas injustiças e violência da sociedade israelita. O que me interessa muito é esta ligação entre uma vida individual e as nossas instituições, sobretudo o nosso governo. No Médio Oriente (não apenas em Israel)! Os governos reprimem os cidadãos com frequência e tiram-lhes direitos fundamentais. Esta violência sobre o indivíduo tem a tendência de provocar vingança, às vezes na forma de terrorismo. É isso que acontece no meu romance.
Achei importante escrever um livro em que o terrorismo não é visto como um consequência de loucura mas da violência sistemática praticada por um governo sobre as pessoas e também da propaganda do fundamentalismo. Queria dizer que talvez pudéssemos ser todos terroristas em circunstâncias iguais às da Sana. E, se ela é louca, é só porque o sofrimento dela provocou essa loucura.

 

Ao longo do livro, há uma certa sensação de maior compreensão pela causa palestiniana. Como é que um americano de origem judaica como o Richard olha para o conflito entre israelitas e palestinianos?

Evidentemente, acho uma situação muito triste e terrível, mas não faço a mínima ideia de como solucioná-la. Quero deixar isso muito claro porque não escrevi o meu romance para sugerir uma solução. As soluções fáceis não vão funcionar numa região onde há uma história já de seis décadas de conflito e onde há tanta gente inflexível e fundamentalista. Entretanto, penso que tem que haver um Estado palestiniano estável e democrático. Um diálogo racional entre os dois povos vai necessitar de dois governos estáveis e democráticos. Talvez um bom primeiro passo fosse uma renúncia total de violência por parte dos dois lados.

 

Há uma tendência nos seus livros para o choque de culturas, para o confronto entre diversas formas de vida e de ver o mundo. Sente que é uma necessidade sua enquanto escritor?

Penso que é uma consequência directa de eu (com a minha mentalidade Norte-americana) estar a viver um Portugal há 16 anos. Todos os dias sou confrontado com pequenos choques de cultura. Por um lado é desagradável mas por outro acho muito útil porque põe-me a questionar as minhas opiniões e a minha maneira de pensar sobre questões cruciais (a morte, a vida, os deveres dos cidadãos, a sexualidade, etc...). Por outro lado, tenho muito curiosidade em relação a culturas diferentes. Adorei fazer pesquisa sobre hinduismo e jainismo para "Goa ou o Guardião da Aurora", por exemplo. Ou, em "À Procura de Sana", fazer pesquisa sobre Haifa nos anos 50. Sinto-me mais realizado sempre que conheça melhor uma outra cultura.

 

Uma pergunta que deve interessar os seus leitores. Que projectos tem em curso, o que é que vem a seguir?

Estou a acabar um romance que decorre em Berlim nos anos 30 e que é o quarto volume do meu Ciclo Sephardita. A minha personagem principal é uma jovem alemã que se chama Sophie. Adoro-a. Tem muito graça. O pai dela, para acomodar-se à situação politica, torna-se Nazi, uma traição nos seus princípios anteriores. Isto provoca uma crise em Sophie que se vê obrigada a desenvolver uma vida dupla e usar uma máscara em público e com os pais. A Sophie só pode exprimir-se livremente quando está com os seus amigos íntimos, incluindo o seu bem amado vizinho, Isaac Zarco, um alfaiate judeu. Isaac é um descendente do Berequias Zarco, o narrador do Último Cabalista de Lisboa.

Neste romance, quero falar da esterilização e destruição das pessoas diminuídas, um holocausto "à parte" em que mais do que 200,000 pessoas - cegos, epilépticos, deficientes mentais, etc... - foram exterminadas. O livro pode sair daqui a um ano em Inglaterra e em Portugal.

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