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Folheando com... Mário de Carvalho


Mário de Carvalho

2008-05-05

Envolveu-se na luta antifascista tendo estado preso ainda na década de 60 e durante o serviço militar. Esteve no exílio, primeiro em França, depois na Suécia, só regressou a Portugal após o 25 de Abril. A sua estreia literária deu-se em 1981, tendo desde aí publicado uma diversidade de géneros: romance, drama, contos e até mesmo guiões.

Leia aqui a entrevista ao Portal da Literatura.

Um Deus Passeando Pela Brisa da Tarde constituiu o seu melhor sucesso de vendas, merecendo a aclamação de toda a crítica, tendo sido distinguido com o Grande Prémio da APE (romance) 1995, o Prémio Fernando Namora 1996 e Prémio Pégaso de Literatura do mesmo ano. Falamos naturalmente de Mário de Carvalho, um dos mestres do romance português contemporâneo, que há umas semanas atrás lançou A Sala Magenta.
 
 
Um Deus Passeando Pela Brisa da Tarde, um livro que nos transporta para atmosferas e ambiências extraordinárias, é por muitos considerado uma obra-prima. Catorze anos depois, podemos perguntar-lhe se é capaz de estabelecer um paralelismo entre a ficção e a realidade?

O confronto (jogo de espelhos?) entre ficção e realidade é porventura um dos problemas mais velhos das poéticas. Quando é criado um mundo ficcional ele deve ter uma relação mínima com a realidade para se tornar reconhecível. Provavelmente, os leitores encontraram numa cidade romana imaginada pontos de contacto com o mundo de hoje que tornam a história legível e decifrável. O livro vai na décima segunda edição e continua a produzir os seus efeitos. Espero que fique, mas não estarei cá para ver.
 
A Sala Magenta é, em boa medida, uma história de desaires e de projectos falhados, de trevas e de luzes, que de resto dá continuidade ao fio de pensamento dos livros que escreveu. O que é que o inspirou a escrever esta obra? 

 A condição humana é isso, não é? Ficamos sempre aquém das nossas expectativas. Ao contrário do que dizia o velho filósofo, o homem não é a medida de todas as coisas. Quando a minha personagem começa a fazer contas à vida, acaba por comprovar que “a realidade é muito abusadora”, como disse um escriba qualquer cujo nome não me ocorre.
Parti da floresta: Pinheiros, chaparros, mato, uma lagoa, um minúscula fauna que imperceptivelmente se entredevora. Encontrei por lá alguns humanos…
 
 
Agora que acabámos de comemorar o 25 de Abril, não resistimos a perguntar-lhe o seguinte: Quando olha para os já longínquos anos setenta e para a situação política que antecedeu e sucedeu o dia dos cravos, e para o Portugal dos dias de hoje, o que é que lhe ocorre dizer? Que sonhos viu realizarem-se e que ilusões ficaram para trás?

Deixe-me surpreendê-lo e ser um bocadinho provocatório O Portugal de hoje é provavelmente muito melhor que o Portugal dos meus sonhos. A minha imaginação não dava para perceber que se podia viver tão bem, no primeiro mundo, com transformações tão espectaculares. Acresce que nos meus sonhos, iludindo-me, sobrenadavam alguns monstros que se tinham esgueirado do mundo dos pesadelos.

Feitas as contas (eu também faço contas de vez em quando, não só as minhas personagens…), o cotejo não é entre as fantasias de antanho e as realidades de hoje. Se, num truque daqueles do tempo, me tivesse sido dada a oportunidade de um salto ao futuro quando eu tinha vinte anos, ficaria absolutamente deslumbrado.

Incómodo é comparar a nossa realidade com a dos outros países ricos, e verificar que ficamos quase sempre para trás. E a responsabilidade é de quem nos tem governado, no enfeudamento a interesses instalados que não são os do progresso do país. Não venham dizer que a culpa é de todos nós. Quem tem exercido o poder, e o tem feito por conta de maquinações de ganhuça, tem culpa. Eu sei que não há paraísos (com excepção dos fiscais) e que não somos todos santos. Mas a sobrecarga de chatinagem tem cobrado um preço que Portugal não está em condições de pagar.
 
Entre muitas outras coisas escreveu guiões. A figura central do seu último livro é um realizador de cinema. Se tivesse de se envolver no filme A Sala Magenta, que sugestões daria ao realizador em matéria de selecção de actores?

“A Sala Magenta” é um romance, não foi pensado para cinema, nem creio que a adaptação fosse uma boa ideia. Mas, num exercício de imaginação, se tal se viesse a verificar, eu consideraria que o meu papel seria o de escrever e não de fazer “casting”. E esperaria que os outros soubessem respeitar essa separação de águas. Um realizador de cinema minimamente profissional sabe que não deve escrever os seus filmes, nem compor a música, a não ser que tenha aptidões de escritor, ou de músico, o que, às vezes, sucede, lá fora. E também ocorrem milagres, rasgos de genialidade e sortes grandes. Há quem se fie nisso. Eu, até mais ver, não tenho sentido vocação para a realização de cinema e procuro não interferir no trabalho dos outros profissionais. 
 
Há um escritor que nos disse que havia sempre algo em comum entre as suas personagens e ele próprio. Passa-se o mesmo consigo? Há alguma coisa em comum entre o Gustavo e o autor do livro?

Pois, há aquela célebre frase de Flaubert sobre a “Madame Bovary” e as ironias do Jorge Luís Borges sobre as escritas autobiográficas. É evidente que qualquer personagem dos meus livros é constituída também a partir da decantação duma vivência pessoal do autor. Mas essa, se calhar, nem é a matéria-prima principal. Quanto ao Gustavo, devo dizer que eu faria um balanço da minha vida e obra muito mais tranquilizador. Se temos qualquer coisa em comum, será, quando muito, a propensão para a gaguez.
 
 
Que livro leu ultimamente que mais o tenha impressionado? Podemos saber quais são as suas referências literárias? Que escritor estrangeiro mais aprecia? 

Acabei agora mesmo de ler  “Rip Van Winkle” de Washington Irving, chamado, na nova versão portuguesa, “O Homem que Dormiu  Vinte Anos”, título que desvenda demais. Eu tinha lido a história em miúdo, numa antologia de contos americanos que perdi e nunca mais soube onde parava. Ao fim de tantos anos, esta releitura teve o sabor duma leitura nova.
Hoje gosto de Bocaccio, Fernão Lopes, Cervantes, Sterne, Gogol, Tolstoi, Mark Twain, Camilo, Eça, Karel Capec, Rodrigues Miguéis, Aquilino, Carlos de Oliveira. Saramago. Amanhã direi outros.
 
E os amanhãs, Mário de Carvalho, vão continuar a cantar?

Se os amanhãs não cantarem, meu caro, estamos todos tramados.

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