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Sinopse

Reconstitui, de maneira ficcional, aspectos da colonização inglesa na Índia, detendo-se sobretudo no conflito que se estabeleceu durante o contato de duas culturas tão diferentes. Uma passagem para a Índia mistura o relato de viagem à análise da sociedade que se criou com a chegada dos colonizadores.

Críticas ao livro " Passagem para a Índia "

Fonte: Marielson Carvalho

"Passagem para a Índia", filme de David Lean, mesmo diretor de “Lawrence da Arábia”, foi o primeiro filme a que assisti no cinema com minha mãe. Lembro-me que foi no extinto Cine Tamoio, perto da praça Castro Alves e da rua Chile, centro antigo de Salvador. Ainda não sei o porquê de ela ter me levado para assistir, nem ela hoje consegue me responder com precisão.


De qualquer maneira, o filme ficou registrado em minha memória. Deveria ter uns doze anos e, confesso, não entendi muito bem o enredo, mas as cenas exuberantes de um país estranho e exótico me levaram, quatro ou cinco vezes depois, a assistir de novo em vídeo-tape e, nesta última semana, em laser.

O filme é uma adaptação do romance homônimo “Uma passagem para Índia” (A passage to India), de E. M. Forster, escritor inglês do século XIX, autor de mais algumas obras adaptadas para o cinema, como “Maurice” (Maurice) e “Retorno a Howards End” (Howards End). Como crítico literário, escreveu também “Aspectos do romance”, obra sempre referenciada nas disciplinas de teoria literária dos cursos de Letras.

Fiquei estimulado a assisti-lo mais uma vez, quando vi na livraria a nova edição do romance pela editora Globo. Comentei com minha mãe sobre a novidade e deixei entrever na fala o desejo de que gostaria de ganhá-lo no meu aniversário. E ganhei, embora tivesse que trocar, pois comprou um outro livro com título parecido: “Passagem pela Índia”.

O interessante desta nova edição é o prefácio esclarecedor e acertado feito por Sônia Guardini T. Vasconcelos. Com o nome de “O império sobre areia”, a autora abre o caminho para o leitor refletir acerca da narrativa pela qual vai atravessar. São 369 páginas, incluindo um pequeno glossário de palavras anglo-indianas usadas pelo escritor.

A obra deixa aflorar uma crítica ao imperialismo britânico na Índia, mostrando, por conseguinte, as diferenças culturais e identitárias entre uma Índia multiétnica e um Império que não consegue dar conta desta diversidade. Esta dificuldade de entender a Índia, embora Forster seja simpático ao país, é marcante na própria construção ficcional da obra.

Pessoas, lugares, costumes, tudo parece ser incompreensível tanto para o autor, quanto para os personagens estrangeiros residentes e visitantes no país. E este choque cultural, eivado de racismo e preconceitos, é o que dá a tônica das relações entre indianos e britânicos, representados pelos personagens principais Dr. Aziz e Srta. Adela.

Antes desta última vez, assisti em 2004, em João Pessoa, ao filme com Kelvo, meu colega de mestrado em Literatura e Cultura. Estávamos lendo e discutindo nas disciplinas o texto de Edward Said, “Orientalismo”, que trata mesmo desta “fascinação” e “invenção” do Oriente pelo Ocidente, em especial, a partir do contexto anglófono e de seus escritores, intelectuais, cientistas e governantes.

O filme nos ajudou a refletir os argumentos que sorvíamos com prazer do livro de Said, mesmo sabendo que esse estudo só se completaria com a leitura minuciosa da obra de Forster, citado algumas vezes pelo crítico como um dos inventores deste espaço simbólico demarcado como antípoda, como o inverso de um mundo moderno e civilizado.

Literatura e cinema de altíssimo nível de qualidade criativa e estética. Vale a pena ler e assistir. Ou vice-versa.

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