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Crónica portuguesa


Se visitarem Lisboa e passarem pela Avenida de Roma, e depararem com um sexto andar cor de rosa sob uma pequena mansarda de onde pendem uns cravos túnicos, olhem bem para essa janela e pensem na sagacidade jurídica do Dr. Gabriel Calado. As coisas passaram-se assim. A proprietária do andar era uma atriz conhecida, e o andar, um cubículo apertado, pendurado no alto do prédio. Mas por cima erguia-se um volumoso telhado em forma de campânula que também lhe pertencia. Para quê uma superfície de telha tão ampla, quando ali se poderia rasgar uma janela de onde a atriz pudesse enxergar a cidade, as árvores da cidade, sentir o vento que vinha do mar, imaginar a grande pança azul do Oceano Atlântico, e lá ao largo as longínquas costas da três Américas? Seria o sonho de um sonho, abrir uma janela. O problema é que havia milhares de janelas abertas nos telhados, e contudo a lei não o permitia. Então a actrizita foi falar com o Dr. Gabriel que lhe disse que se formulasse o pedido de licença conforme a lei, a sua pretensão jamais seria atendida. A menos que utilizasse a lei, aplicando-a a uma situação irreal.
O argumentário do advogado era este – Se lavrassem um pedido de licença para que fosse aberta uma janela no telhado, apesar dos vinte mil exemplos que havia em Lisboa, a resposta seria negativa, mas se pedissem para fechá-la, como os serviços davam primazia à imobilidade, o resultado iria ser negativo, a janela não poderia ser fechada, e nessa altura poderiam abri-la. A proprietária do minúsculo apartamento estava perplexa. Como? Queria abrir uma janela e pedia para fechá-la? Como, se não havia nenhuma janela? Tal e qual, disse-lhe o Dr. Gabriel Calado. Vamos experimentar? Pelo sim pelo não, se concorressem pelas vias normais, o primeiro processo demoraria três anos, o recurso, outros três, e até que houvesse um suborno eficaz, demorar-se-ia pelo menos quatro, isto é, nunca decorreriam menos de dez anos até se abrir a hipotética janela.
Então decidiram fazer um requerimento solicitando o encerramento da janela que não existia. Ao fim de três anos, veio a resposta. A resposta era esta - De modo algum. Pelas trinta leis que regiam o fecho das janelas, era impossível fechar aquela. O Dr. Gabriel esfregou as mãos de triunfo. Pois não existindo, juridicamente, a janela tinha passado a existir. A janela foi aberta num domingo de manhã. À medida que se retiravam as telhas ia-se cumprindo a lei, ia-se tornando impossível fechar a janela que antes não existia. Ao meio dia, a atriz debruçou-se na janela, olhou para fora e viu a cidade, o estuário do Tejo, o início do mar, o caminho aberto para as três Américas, e pensou – “Aqui, sobre este parapeito, vão pender cravos túnicos. Mesmo que um dia eu corra mundo e possa mudar de casa, esta janela será a prova do triunfo da irrealidade sobre o real, mãe de todos mitos. Obrigada, Gabriel Calado.”

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