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As figuras da Paula


Sendo alta noite, as figuras dos quadros da Paula saltaram de dentro das molduras.
Primeiro, saltou uma Menina com um Cão nos braços.
Depois saltaram os Leões, os Burros e os Insectos às listras.
Depois saltaram os Jockeys a engraxar, todos à uma, e com os mesmíssimos movimentos, botas pretas de cano alto.
Depois saltaram as Mães de Meninas de grandes saias rodadas, preparando-se para uma festa, com Costureiras ajoelhadas aos seus pés.
E por aí fora.
Umas figuras eram muito grandes, outras muito pequenas, umas eram de muitas cores, outras eram todas azuis. As pequenas davam pelos joelhos das grandes. As mais pequenas de todas davam pelos tornozelos das grandes e pelas cinturas das que davam pelos joelhos das grandes. As todas azuis, umas estavam em painéis de azulejos todos azuis, outras tinham vestidos azuis.
Pelo que os quadros, vazios, despintados, digamos cegos, só telas, cartões e molduras, e por tudo isto, vendo-se neste despreparo, e assim perplexos, perguntaram uns aos outros:
- Estes e estas onde é que irão?
Iam afinal ali mesmo.
E ali mesmo, as figuras de Paula fizeram uma grande Assembleia Geral, por sinal muito agitada, presidida alternadamente ou por uma Menina com o cabelo aos canudos e pelos ombros e um aventalzinho branco que tinha um Cão no regaço ou por um Crocodilo que nunca chorava ao contrário do que se diz para aí.
E, depois de uma grande discussão entre Gatos, Burros, Sapos, Senhoritas, Insectos à listras, a Mulher-Cão, Tigres, Marujos, Jardineiros de botas altas, a Madrasta, etc., deliberaram.
Deliberaram, e fizeram-no por pontos:
1º - Ir visitar a Vila;
2º - Ir visitar a Vila;
3º - Ir visitar a Vila.
- ...Antes – disse o Crocodilo - que a Vila nos venha visitar, a nós!
O receio generalizado era o de que, indo visitá-los a Vila e todos quanto à Vila se deslocam, os olhares dos visitantes os prendessem.
- Como uma teia! – explicou uma Aranha.
Em resumo, disseram três Coelhos, aos saltos, o risco era o de que fossem tantos os olhares e tão espantados e tão intrigados com as figuras e as suas histórias, que os prendessem.
E os não deixassem sequer sair a ver a Vila.
E fazer o que lhes desse na realíssima gana.
E assim dali saíram.
Ainda era de noite, disse-lhes uma Lua gigantesca.
- Esta Lua é uma colagem!...
- É um pastel!...
- É uma técnica mista!...
E deste modo vinham discutindo.
Vendo-os vir por ali a baixo, pelo passeio que desce em direcção ao Mar, uns muito grandes, outros pequenos, outros muito pequenos, uns pintados, outros desenhados, os Reis de Bronze da Vila – que são dois, aquele que determinou que a Vila fosse Vila e que está em cima de uma coluna em frente de uma grande casa azulejada e aquele que ali inventou os banhos de Mar e que a Vila colocou, assim a modos que a uma varanda, à beira do Forte Grande, a contemplar o Mar - , levantaram os braços e disseram, um e depois outro, nas suas vozes brônzeas:
- Alto lá!
- Alto lá que nós somos os Reis de Bronze!
Disseram sucessivamente, por ali a cima, as figuras da Paula, umas às outras, e depois sucessivamente por ali a baixo, também umas às outras:
- Eles dizem que são os Reis de Bronze!
- Eles dizem que são os Reis de Bronze!
- Eles dizem que são os Reis de Bronze!
- Pois somos! – admitiram, nas suas brônzeas vozes, os Reis, e por duas vezes, a primeira vez, quando a notícia, subindo, chegou lá ao fundo, lá cima, à ultima fila de figuras, onde estava uma Coelha grávida, a segunda vez, quando, regressada a notícia, por ali a baixo, ela chegou à figura que estava mesmo em frente dos Reis, que era a Menina que já se sabe, de aventalzinho e com o Cão nos braços.
Após o que os Reis de Bronze perguntaram:
- Vós quem sois?!
- Somos as figuras da Paula!
E apresentaram-se:
- Eu, eu sou a Menina com o Cão nos braços!
- E eu sou o Sapo!
- E eu sou o Burro!
- E eu sou o Leão!
- E eu sou o Insecto às listras!
- E eu sou o 1º Engraxador de Botas de Montar!
- E eu sou o 2º Engraxador de Botas de Montar!
E por aí fora!
Dizendo as figuras mais especializadas, aquelas que, enquanto a Paula as inventava, estavam muito atentas a tudo o que ela fazia, que eram elas, e com quê, se com carvão, se com tinta, se com pincel, se com lápis:
- Eu sou um pastel!
- E eu sou um carvão!
- E eu, eu sou uma técnica mista!
Os Reis de Bronze sorriram.
– Pois, pois! Mas onde ides, a estas horas?!
A Menina com um Cão nos braços respondeu assim:
- Ora essa! Vamos visitar a Vila antes que a Vila nos visite a nós!
- ...Antes! – acrescentou, do regaço da Menina, o Cão.
E o Sapo:
- Porque, a partir do momento em que nos visitem, ficaremos presos às paredes pelos olhares de todos!
E o Macaco:
- Queremos ser livres!
E o Leão:
- Queremos fazer o que nos der na realíssima gana!
Os Reis cogitaram e disseram:
- Isso pede muito discernimento, muito, muitíssimo discernimento, e discernimento é aquilo que, em muita quantidade, há nos Livros! Vinde daí comigo falar ao Senhor dos Livros!
- Quem é o Senhor dos Livros?!
- Quem é o Senhor dos Livros?!
- O Senhor dos Livros, quem é?!
- Já vereis!
E foram, Reis adiante, figuras de Paula atrás.
Passaram jardins, passaram relvados. Num grande tumulto, porque, já se sabe, umas eram grandes e outras pequeníssimas, e umas pintadas e outras desenhadas, e outras técnicas mistas.
Pararam, a um sinal dos Reis, diante de uma Casa em forma – tinha de ser! – de Livro.
- Que Casa é esta? – quis saber a Menina.
- É o Museu-Casa onde vive o Senhor dos Livros!
As figuras da Paula duvidaram que estivesse alguém:
- A estas horas?!
Mas os Reis de Bronze lá sabiam.
Bateram, com as suas mãos de bronze, à porta.
Bateu um Rei.
Bateu o outro Rei.
Bateram ainda uma vez, ao mesmo tempo, um e outro.
Abriu-se a porta e apareceu um Senhor que só podia ser o Senhor dos Livros porque, Livros, trazia para aí vinte, dois debaixo de um braço, outros dois debaixo de outro braço, outro nas mãos e os restantes nos bolsos do casaco e nos bolsos das calças.
- Ao que vindes?! – inquiriu o Senhor dos Livros.
As figuras da Paula explicaram ao Senhor dos Livros quem eram e o seu receio: o de ficarem presos nos olhares de todos.
Aí lhes disse, depois de trocar olhares com os Reis de Bronze, o Senhor dos Livros:
- Nenhum olhar vos prenderá às paredes do vosso Museu! Pelo contrário, todos vos levarão
com eles quando saírem do Museu. Para vos interrogar e vos imaginar e vos recordar. Viajareis com eles. Sois, tal qual como os Livros, que estão livres e libertam! Também vós sereis livres e libertadores!
Fizeram uma festa as figuras de Paula.
O Sapo, porém, que tinha uma grande queda para o jornalismo de investigação, quis saber o nome da Vila.
E precisou:
- Quero saber o nome e a origem do nome!
Entreolharam-se mais uma ou duas vezes, sorrindo, os Reis de Bronze e o Senhor dos Livros.
Os Reis já tinham tudo nas pontas das línguas de bronze, nome da Vila, origem do nome da Vila, mas o Senhor dos Livros fez-lhes sinal para que nada dissessem.
Após o que se virou para a multidão das figuras de Paula:
- Vinde connosco!
Levou-os a uma carrinha que tinha escrito no exterior, a toda a largura e com o seguinte tipo de letra,
BIBLIOTECA
SOBRE RODAS

e convidou-os a entrar.
Entraram todos, Reis e figuras da Paula.
Explicando os Reis às figuras de Paula que aquela Biblioteca sobre Rodas era a primeira Biblioteca sobre Rodas, não apenas daquela Vila, mas de toda aquela Nação e tinha sido inventada justamente pelo Senhor dos Livros.
Lá dentro só livros.
Pelo que ecoaram assim as figuras de Paula:
- ...É só livros!
- ...É só livros!
- ...É só livros!
E dali arrancou o Senhor dos Livros, ao volante da sua Biblioteca sobre Rodas, até à Praia.
Quando travou, já na muralha sobre a Praia, é verdade que caíram alguns livros.
Foi no preciso momento em que saltavam de um barco três Pescadores, trazendo uma rede gigantesca cheia de peixes e de estrelas-do-mar.
Pois, mas a Praia.
A Praia era só conchas.
Gritaram, de cima, da muralha, na direcção dos Pescadores, os Reis e o Senhor dos Livros:
- Vinde cá!
Subindo a praia, os pescadores pisaram e pisaram e pisaram as conchas.
Dizendo as conchas, alegremente, enquanto se partiam:
- CACHECACHECAICHE-CAS-CAS-CACHECAISCHE!
As figuras da Paula Rego admiraram-se:
- CACHECACHECAICHE-CAS-CAS-CACHECAISCHE?!...
Confirmaram os Reis de Bronze e o Senhor dos Livros:
- CACHECACHECAICHE-CAS-CAS-CACHECAISCHE!
Foi então que as figuras de Paula perceberam que ali, num lugar como aquele, com dois Reis de Bronze, um Senhor dos Livros, uma Biblioteca sobre Rodas, e uma Praia que, quando nela se caminhava, dizia CACHECACHECAICHE-CAS-CAS-CACHECAISCHE, o olhar não prendia.
Pelo contrário, libertava.
Quando soube disto, a Paula, que estava no seu ateliê a lavar os pincéis, sorriu, muito contente.








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