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Raízes - Ana Cristina Silva


A Voz da rainha Ginga em 1663

2015-03-10

A morte já me assombra, mas quando os espíritos vierem buscar-me, vou puder olhá-los de frente e declarar que cumpri com honra o meu destino de rainha. Aves negras rondam os céus todas as noites desde há alguns dias. As aves gritam, traçando longos círculos no ar por cima da minha cubata e os gritos daqueles pássaros fazem medo ao meu povo. Outro dia um raio caiu em cima das mahmaba dos meus antepassados e muitos dos meus súbditos passaram a acreditar que perdi o favor dos espíritos que sempre estiveram do meu lado. Os maus presságios multiplicam-se, tudo parece uma intimação e o sinal de uma morte próxima. Já não me julgam abençoada como nos tempos em que lutava contra os portugueses. Mas outros prodígios contradizem esta crença e ainda há muitos que querem possuir um vaso ou um pedaço de pano em que eu tenha tocado para lhes servir de amuleto.

A velhice e a morte, já próximas, juntam a sua majestade à minha fama de guerreira. No entanto, a ficção oficial de que uma rainha não tem fantasmas esbarra com os meus pesadelos. Os mortos que me visitam têm muito mais nitidez do que o feiticeiro Kezi que todas as noites faz rezas ou a escrava Lueji que me dá de comer à boca. Peles de onça, de zebra e de leopardo, todas bem curtidas, moles e quentes fazem o leito que acolhe os meus mortos. O quarto está mergulhado numa penumbra que convida à sua entrada.

Eu própria já não me diferencio dos mortos. Tusso e respiro ainda, de resto a minha existência mistura-se com a dos meus fantasmas. O meu filho Kanjila, o meu irmão Mbandi e a minha irmã Fungi rodeiam-me com as suas vozes e, do outro lado do mundo, chegam-me os seus murmúrios de infinita desolação. A aproximação da morte permite-me estabelecer com os espíritos dos antepassados uma estreita intimidade. Os vivos que insistem em rodear-me com os seus rostos fechados, a minha irmã Mocambo que me vai suceder, os meus familiares próximos, os meus capitães de guerra, sobretudo Jinga a Mona, os makotas, não sabem como as suas palavras deixaram de me interessar. Pouco falo com eles, cada frase é um esforço tremendo a que vou renunciando para melhor me concentrar no passado.

A figura do meu filho Kanjila escapa-se dos outros espíritos, nítida, como quando tinha quinze anos, de sorriso maravilhoso numa pose de guerreiro. Havia um excesso em tudo o que esse meu filho fazia – era sempre o primeiro, nas caçadas do leão, a pôr-se à frente dos restantes caçadores e, contra a minha vontade, oferecia-se para combater em todas as escaramuças contra os portugueses ou contra os sobas revoltosos – mas aos quinze anos ser excessivo é uma virtude. Vi-o rejeitar os privilégios da sua condição de príncipe, a dormir no chão no meio dos guardas, a submeter o seu corpo jovem a todos os riscos a que os outros se expunham e a ultrapassá-los. O meu irmão Ngola Mbandi mandou assassinar Kanjila por achar que ele podia ser um rival. Mbandi sempre foi um cobarde, temia o próprio nevoeiro e por não admitir ameaças ao seu reinado ordenou a sua morte. Recordo esse momento como o fim e o princípio de tudo. As palavras que vieram anunciar-me a morte do meu filho culminaram numa explosão de lágrimas. Cai de joelhos e ergui as mãos para o ar. Na ponta dos meus dedos só havia um céu imenso, delirante de brancura e dor ou ainda essa espécie de nuvens onde vivem os antepassados.

Quando os meus gritos cessaram, acabaram-se ao mesmo tempo todas as lágrimas. E, nesse instante, começou a minha decisão de me tornar rainha e de matar o meu irmão. As minhas escravas escusavam de voltar a desviar os olhos como se fosse obsceno chorar. Nunca mais chorei, mas a minha vida tornou-se um largo carreiro para a vingança.

Mandei envenenar o meu irmão sob o pretexto que ele era um fraco e que fugia dos portugueses em vez de os combater. Disse-me o escravo que lhe pôs o veneno no fungi que, na sua longa agonia, ele evocou os espíritos dos antepassados, e adivinhando quem o matara, desejou que eu expirasse daqui a muitos anos, sofrendo dores terríveis de um mal incurável. Pediu também, caso eu viesse a ser rainha, que as suas pragas recaíssem sobre o todo o povo mbundu. Por aceitar-me como sua rainha, os espíritos exigiriam terríveis vinganças: epidemias, secas e guerra. Os seus votos só em parte foram atendidos.

A possibilidade de tirar a máscara que usei para assaltar o poder, é talvez a única vantagem que a iminência do fim me traz. Não soube da morte do meu irmão com alegria, mas nunca senti remorsos. A fraqueza nunca me pareceu desculpa para a malignidade humana. Digam o que disserem os laços de parentesco são ténues quando nenhum amor os sustenta. Eu corri pelas matas com o meu irmão Mbandi, ele pegou ao colo o meu filho, mas o meu ódio exigia este desfecho.

Também podia ter salvado a minha irmã Fungi da decapitação. Devia ter recuado no ataque das minhas forças ao forte Massangano e desse facto me arrependo. O comandante do forte tinha-me avisado de que mataria as minhas irmãs. As minhas tropas jaga eram disciplinadas e não um bando de guerreiros presos aos interesses linhagem e prontos a degolar quem se opusesse aos interesses da família. Eram lutadores do kilombo. Ter-me-iam obedecido se tivesse mandado parar o cerco. Todos sabiam que mesmo que ganhássemos aos portugueses, aquela vitória não seria definitiva, nem tão pouco a derrota. Logo chegariam mais homens brancos e mais armas de fogo, contra as quais a coragem dos nossos guerreiros teria de ser suficiente. A minha reputação era poderosa e poderia impor aos guerreiros a retirada. Algumas audácias imprudentes em si mesmas conseguiram mostrar aos portugueses que poderíamos vencer. Por isso não consegui desistir dessa vitória tão próxima, cujo desfecho acabou por ser uma enorme derrota pessoal: a morte da minha irmã. Então uma manhã, já em Matamba, um manilumbo dos portugueses atravessou as nossas fronteiras, dizendo que tinha um cesto do capitão para entregar à rainha. Não sei como os meus capitães deixaram passar o emissário. Quando se aproximou, ajoelhou-se e estendeu-me o cesto. Era um antigo guerreiro jaga que se juntara ao inimigo. Reparei que o seu rosto estava crivado de tensão, que as mãos tremiam ao estender-me o que trouxera, que os olhos fixos no chão se esqueciam de pestanejar. Afastei as enormes moscas que zuniam em volta e as folhas verdes que cobriam o conteúdo. Tão inesperado como o que vi, foi o grito que não consegui suster. Lá dentro estava a cabeça ensanguentada de Fungi e tão desfigurada que nunca mais consegui lembrar-me do seu rosto intacto.

Os traços dessa traição conservam-se visíveis ainda hoje: a imagem da minha irmã, que insiste em fitar-me, só me aparece de cabeça cortada. E dos seus olhos semi-cerrados escorrem lágrimas de sangue. Os meus fantasmas pertencem ao alvorecer dos tempos, mas é de noite que o seu espírito encarna os erros do meu passado. Do lado de fora da minha cubata, o meu povo dança, salta, grita, faz caretas aos espíritos da aves e dos animais, tentando afugentá-los numa vibrante refrega em minha honra. Homens e mulheres que se mortificam e se rebolam na areia vermelha do largo, ao mesmo tempo que se lamentam em altos brados: “Que vai ser de nós sem Ginga?”

As labaredas das fogueiras estão altas, mas não me iluminam porque o meu mundo deixou de ser terrestre e os gritos do meu povo vão ficando abafados. Os meus fantasmas sobem carreiros e mais carreiros, uma rede de carreiros acima do alto capim e os seus pés espelham os meus percursos no meio de capim queimado, no meio do mato que sobe e desce por ravinas frescas ou por colinas pedregosas. Só a sua presença pode perscrutar as encruzilhadas dos meus caminhos. Sou eu que me revejo a partir para todos esses percursos, seguindo atrás da solidão, sem uma pessoa, nem uma cubata. As únicas vozes que se fazem ouvir são as do meu filho Kanjila, do meu irmão Mbandi e da minha irmã Fungi e repetem vezes sem conta: mataste-me com a tua ambição. Nunca perdi a aversão pela destruição inútil e, no entanto, a minha vida foi construída sobre essas e muitas outras mortes.

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