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Poema e Poesia de António Nobre

Vae em seis mezes que deixei a minha terra 
E tu ficaste lá, mettida n'uma serra, 
Boa velhinha! que eras mais uma criança... 
Mas, tão longe de ti, n'este Payz de França, 
Onde mal viste, então, que eu viesse parar, 
Vejo-te, quanta vez! por esta sala a andar... 
Bates. Entreabres de mansinho a minha porta. 
Virás tratar de mim, ainda depois de morta? 
Vens de tão longe! E fazes, só, essa jornada! 
Ajuda-te o bordão que te empresta uma fada. 
Altas horas, emquanto o bom coveiro dorme, 
Escapas-teãda cova e vens, Bondade enorme! 
Atravez do Marão que a lua-cheia banha, 
Atravessas, sorrindo, a mysteriosa Hespanha, 
Perguntas ao pastor que anda guardando o gado, 
(E as fontes cantam e o céu é todo estrellado...) 
Para que banda fica a França, e elle, a apontar, 
Diz: «Vá seguindo sempre a minha estrella, no Ar!» 
E ha-de ficar scismando, ao ver-te assim, velhinha, 
Que és tu a Virgem disfarçada em probrezinha... 
Mas tu, sorrindo sempre, olhando sempre os céus, 
Deixando atraz de ti, os negros Pyrineus, 
Sob os quaes rola a humanidade, nos Expressos, 
Em certo dia ao fim de tantos (conto-os, meço-os!) 
Vindo de villa em villa, e mais de serra em serra, 
Chegas! 
    E cae e cae no soalho alguma terra: 
Tua cova que vem pegada aos teus vestidos! 

Ó lua do ceguinho! Amparo dos vencidos! 
Alpendre do perdão! ó Piedade! ó Clemencia! 
Singular fado o nosso, estranha coincidencia: 
Deixamos nossa Patria ao mesmo tempo: tu, 
Adentro d'um caixão, que era tambem bahu, 
Onde levavas as desgraças d'esta vida; 
Eu, n'um paquete sobre a vaga enraivecida 
(Sob a qual, entretanto, havia a paz das loizas) 
E n'elle o esquife do meu lar, as minhas coizas, 
E mais tu sabes, Santa! um sacco de mizerias! 
Mas a existencia, é um dia, esta vida são férias 
E, mal acabem, te verei de novo... em breve! 
E tu de novo me verás... 
    Ah! como deve 
Ser frio esse teu lar de debaixo da terra 
Que teu cadaver de oiro ainda intacto encerra: 
Ainda intacto e sempre: disse-me o coveiro 
Que a tua cova era a unica sem cheiro... 
E assim te deixo, Santa! Santa! ao abandono, 
Só, aos cuidados das corujas e do Outomno! 
Com este frio, horror! Senhora da Piedade! 
Sem uma mão amiga e cheia de bondade 
Que te agazalhe e faça a dobra do lençol, 
Que abra a janella para tu veres o sol, 
Que, logo de manhã, venha trazer-te o leite 
E, á noite, a lamparina-esmalte com azeite! 
Sem uma voz que vá ao pé da tua loiza, 
Ancioza, perguntar se queres alguma coiza, 
Cobrir-te, dar-te as boas-noites... Sem ninguem! 
Ai de ti! ai de ti! minha segunda Mãe! 

Dobra era meu coração o sino da saudade... 

Aqui, no meio d'esta fria soledade, 
Evoco a Coimbra triste, em seu aspecto moiro: 
Entro, chapéu na mão, em tua Caza d'Oiro, 
Em frente a um cannavial, cheio de rouxinoes, 
Que era nervozo de mysterio, ao por-dos-soes... 
Vejo o teu lar e a ti, tão pura, tão singella, 
E vejo-te a sorrir, e vejo-te, á janella, 
Quando eu seguia para as aulas, manhã cedo, 
Ancioza, olhando d'entre as folhas do arvoredo, 
Olhando sempre até eu me sumir, a olhar, 
Que ás vezes não me fosse um carro atropelar. 
Vejo o meu quarto de dormir, todo caiado, 
D'onde ouvia arrulhar as pombas, no telhado; 
Oiço o relogio a dar as horas vagamente, 
Devagar, devagar, como os ais d'um doente... 
Vejo-te, á noite, pelas noites de Janeiro, 
Na sala a trabalhar, á luz do candieiro, 
Mais vejo o Emilio, indo a tactear, quasi sem vista, 
Mas que lembrava com seus olhos de ametysta, 
Meio cerrados, como ao sol uma janella, 
Que lindos olhos! uma pomba de Ramella
E andava á solta pela caza, não fugia, 
Que aos libres ares o cazulo preferia... 
Mais vejo Aquella, cujo olhar são pyrilampos, 
Que tem o nome da mais linda flor dos campos, 
Que tem o nome que tiveste... Vejo-a, ainda, 
Como se hontem fosse, a Margareth, tão linda: 
Vejo-a passar, sorrindo, e faz-me assim lembrar 
No seu vestido rubro, uma papoila a andar... 
Mais te vejo ainda ungir d'affagos minhas penas, 
Mais te vejo voltar, á tarde, das novenas... 
Mais oiço os sinos a dobrar, em Santa Clara
E tu encommendando a alminha que voara... 
Mais vejo os meus contemporaneos, pela Estrada
As capas destraçando, ao verem-te á saccada; 
Mais vejo o Ruy, na sua farda de artilheiro, 
E tu mirando-o (o que são mães!) o dia inteiro! 
Mais vejo o sol, aurea cabeça do Senhor, 
Mais vejo os cravos, notas de clarim em flor! 
Mais vejo no quintal as papoilas vermelhas, 
Mais vejo o lar das andorinhas, sob as telhas, 
Mais oiço o tanque a soluçar soluços d'agoa, 
Mais oiço as rãs, coaxando á noite a sua magoa, 
Mais vejo o figueiral todo cheio de figos, 
Mais vejo a tua mão a dal-os aos mendigos... 
Mais oiço os guizos, ao passar da mala-posta, 
Mais vejo a sala de jantar, a meza-posta, 
E tu, Senhora! prezidindo, á cabeceira. 
E (o que a distancia faz!) vejo-te na cadeira, 
Com uma touca preta a cobrir-te os cabellos, 
Que eram de neve, aos caracoes, estou a vel-os! 
(Hei-de ir cortar-t'os, alta noite, ao cemiterio...) 
Mais vejo o Vasco sempre triste, sempre serio, 
D'um lado e eu de outro... 

    Que abençoado refeitorio! 

Mas tudo passa n'este mundo tranzitorio! 
E tudo passa e tudo fica! A Vida é assim 
E sel-o-á sempre pelos seculos sem fim! 
Ainda vejo a tua caza, e oiço os teus gritos 
(Mas nas janellas e na porta vejo escriptos!) 
O Vasco é ainda sempre triste, sempre serio 
(Mas sua caza, agora, é ao pé d'um cemiterio...) 
Meu quarto de dormir vejo-o no mesmo estado 
(Mas não sei que é, não me parece tão caiado.) 
A janella ainda tem o mesmo parapeito 
(Mas já não sou «o estudantinho de Direito».) 
Na sala de jantar ainda se estende a meza 
(Mas já não tem a meza-posta, a sobremeza.) 
Vejo o relogio na parede como outrora 
(Mas o ponteiro marca ainda a mesma hora...) 
O candieiro ainda tem o petroleo e a torcida 
(Mas apagou-se a luz a quando a tua vida.) 
A diligencia passa, á tardinha, a tinir, 
(Mas já não tem os olhos teus para a seguir...) 
Passam ainda pela Estrada os estudantes 
(Mas não destraçam suas capas, como d'antes...) 
Vêm da novena ainda as moças e as donzellas 
(Mas procuro-te, em vão, já não te vejo entre ellas...) 
As andorinhas ainda têm o mesmo fito 
(Mas já fizeram trez jornadas ao Egypto...) 
Ainda dobra por defuntos e defuntas 
(Mas não te vejo a ti a rezar de mãos juntas.) 
Ainda lá está o figueiral com figos, 
(Mas não a tua mão a dal-os aos mendigos...) 
O Ruy ainda traz a farda de soldado 
(Mas, agora, já poe mais divizas, ao lado.) 
As rãs coaxam ainda á noite, á beira d'agoa 
(Mas, já não têm quem peça a Deus por essa magoa.) 
O Emilio tem ainda esse olhar que maravilha, 
(Mas, com seus olhos d'hoje, é uma pombinha da Ilha
Ainda lá estão os cravos, no jardim, 
(Mas já não são as mesmas notas de clarim...) 
Ainda oiço o tanque a soluçar a sua magoa 
(Mas já não acho tão branquinha a sua agoa...) 
A Margareth ainda é a papoila de outrora 
(Mas a papoila... já está uma senhora!) 
Ainda lá estão as papoilas em flor 
(Mas a velhinha já não vae de regador...) 
Meu coração é ainda o Valle de Gangrenas 
(Mas já não tenho quem lhe plante as açucenas...) 
Vive ainda o Sol, vivo eu ainda... (Mas tu morreste!) 
Tudo ficou, tudo passou... 

    Que mundo este! 

António Nobre, in 'Só'

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