A Opinião de Paula Mota
Dei-te Olhos e Viste as Trevas
2026-02-02[Esta resenha poderá revelar mais do que alguns leitores desejam se gostam de avançar e interpretar à vossa maneira. Se se encontrarem nesta perigosa encruzilhada, façam a escolha acertada.]
“Mulher peluda, o diabo ajuda”, “Quando o demónio não pode, envia a mulher”, “Quando hesita, pergunta à mulher”, “Onde não há mulheres, o diabo as trará” […]. “Quando o diabo quer aprender, toma a mulher por mestra”, “Quando o diabo e a mulher vão jogar, ela vai ganhar.”
Esta sucessão de provérbios resume a dinâmica de Dei-te Olhos e Viste as Trevas: o movimento de atracção e repulsão entre o demónio e a mulher, que fazem destes dois seres ontologicamente ligados a perfeita dupla satânica. Irene Solà pega no mito fáustico, pelo qual não nutro nenhum apreço, celebrizado por autores do sexo masculino como Christopher, Joahann von Wolfgang Goethe, Thomas Mann e Mikhail Bulgakov, e adapta-o aqui ao universo feminino. Joana, a matriarca da Casa de Clavell, faz um pacto com o diabo para arranjar marido, mas como é ladina, recorre a um estratagema para não cumprir a sua parte. Por vingança, o diabo lança-lhe uma maldição que se estenderá a toda a sua descendência.
A menina tinha dor no coração. Faltava-lhe um pedaço. […] Depois de Margarida, Joana deu à luz Blanca, que nasceu sem língua. A boca como um ninho vazio. E Joana sentiu novamente o ferrão da suspeita, mas não ligou as pontas soltas. Depois veio Esperança. A sua esperança, pequena, coitadinha sem fígado e morreu amarela como um pintainho. […] Mas Joana ainda não quis acreditar. E então teve o herdeiro. […] Nasceu sem buraco lá atrás e morreu.
Expedita, Joana toma medidas.
À força de salgueiro, hera, raízes de aveleira, poejo e cânhamo estrangulou aquele fluxo de parir crianças a meia cozedura.
Numa família de linhagem exclusivamente feminina e de sucessivas mães solteiras com as suas filhas defeituosas, é a mais velha quem a seguir assume a chefia, com mão de ferro e temor a Deus.
Margarida tinha dito que naquela casa nunca mais voltariam a entrar nem ladrões, nem almocreves, nem homens do vice-rei, nem roders, nem moços, nem mestres lobeiros, nem soldados, nem pretendentes.
A sexualidade destas mulheres, no entanto, não pode ser reprimida e encontra outras formas de se expressar…
E desde aquele dia que Blanca e Elisabet se tinham amado. De todas as maneiras que se podia amar. Como os corços. Com delicadeza. Como as galinhas. Encolhidas. Como os patos, com força bruta. Como as cabras, impacientes. Como as lebres, brincalhonas.
…culminando no acto sacrílego em que o círculo se fecha.
Dentro dos olhos de Margarida só havia o touro e a mulher e as nádegas e as barrigas. E no seu nariz só cabia o fedor infecto de sexo, de cabra, de pés, de rabo, de água estancada, de zonas íntimas. Resfolgava.
É, pois, a velar a concubina do diabo no seu leito de morte que encontramos Margarida no início da obra, enquanto o resto do conventículo prepara um banquete em grande azáfama e algazarra.
As mulheres da cozinha enlouqueceram. Dolça ria-se como uma cabra. Elisabet, como um furão. Àngela, como um javali. Joana, como uma égua. E Blanca abria a boca como uma vitela e batia com os pés e as mãos para arranjar confusão.
É entre estes dois espaços que a narrativa se desenvolve, misturando igualmente dois planos, o real e o sobrenatural, bem como dois frisos cronológicos com referências que de início causam alguma perplexidade mas resultam lindamente, apesar de satanás continuar a ser uma personagem muito fraquinha no meu cânone, sobretudo rodeado por esses ícones da libertação feminina que são as bruxas.
E, em vez do Céu e dos anjos e das mãos de Deus a enxugar-lhe a face, a sua mãe, Joana, como uma égua desdentada, a sua irmã Blanca, que foi a única que gostou de ver, embora não muito, a sua sobrinha Ángela, a quem a morte tinha conservado a expressão de javali, e Elisabet, a quem, se Margarida não tivesse tido os sentidos fraquíssimos e atordoados, teria arrancado todos os cabelos da cabeça, rodearam-na. Mas estavam mortas! As quatro. Virgem Santíssima, algumas estavam mortas há muito tempo. Almas condenadas!
Dei-te Olhos e Viste as Trevas, de Irene Solà, Cavalo de Ferro, Setembro de 2025, tradução de Rita Custódio e Àlex Tarradelas
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