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A Opinião de Paula Mota


Uma sociedade, de Virginia Woolf

2026-03-23

Em linguagem corrente, o que Virginia Woolf faz neste extraordinário e cáustico conto é um roast ao patriarcado e às suas instituições. Já sabia que ela era uma excelente ensaísta, palestradora e contista, mas esta vertente de humorista surpreendeu-me.

Ó Cassandra, pelo amor de Deus, inventemos um método para que os homens possam dar à luz! É a nossa única esperança. Pois, se não lhes arranjarmos uma ocupação inofensiva, não teremos nem gente de bem nem bons livros.

No início do século XX, um grupo de jovens mulheres reúne-se para tomar o chá e tecer elogios aos homens e aos seus feitos, até que uma delas quebra o feitiço. Poll tem, a fim de receber uma herança, de ler todo o recheio da Biblioteca de Londres, aquela que decerto muitos leitores gostariam de ter como missão na vida, mas, na verdade, o pai ofereceu-lhe um presente envenenado, pois agora ela apoderou-se de uma informação chocante: os livros, maioritariamente escritos por homens, são execráveis. Esta constatação indigna o grupo que até ali aceitara o tradicional acordo tácito entre homens e mulheres.

Ao longo de todo este tempo, sempre acreditámos que os homens eram igualmente laboriosos e que as suas obras tinham igual mérito. Enquanto dávamos à luz os filhos, eles, julgávamos nós, davam à luz os livros e as pinturas. Nós povoámos o mundo. Eles civilizaram-no.

Como o conhecimento é poder, conscientes desta informação avassaladora, decidem, quais Lisístrata e suas companheiras dos tempos modernos, fazer greve até apurarem responsabilidades.

Jurámos solenemente que não traríamos ao mundo uma única criança enquanto não estivéssemos satisfeitas.

Com esse propósito, formam uma sociedade para indagar, realizar actividades culturais e, sobretudo, observar o espécime no seu habitat natural, apresentando os relatórios cinco anos depois. Entre resultados pouco conclusivos e muitas contradições, chega-lhes a notícia do início da Primeira Guerra Mundial, o que as leva a perguntar-se se a ignorância não trará realmente felicidade, dando, no entanto, também voz às preocupações pacifistas de Woolf, que considerava os conflitos bélicos indissociáveis das estruturas patriarcais.

Já sei o que vais dizer sobre a guerra – atalhou – e sobre o horror de dar à luz filhos para os ver morrer, mas foi o que fizeram as nossas mães, e as mães delas e as mães destas antes delas. E não se queixavam. Não sabiam ler.

Finda a guerra, duas das amigas encontram-se para rever as actas das antigas reuniões, o que leva uma delas a desabafar sobre a angústia que lhe causa a curiosidade crescente da filha que acabou de aprender a ler.

- Certamente poderias ensiná-la a acreditar que o intelecto masculino é, e sempre será, fundamentalmente superior ao feminino? – sugeri.

[…]

- Ó Cassandra, porque me atormentas? Não sabes que a nossa crença no intelecto masculino é o maior de todos os enganos?

Recorrendo à ironia para expor a verdade subjacente aos mitos que têm servido de alicerce à humanidade, “Uma Sociedade” ilustra o poder do sentido crítico, mesmo que este traga dissabores, optando por um tom mais sério e esperançoso na passagem do testemunho à geração seguinte.

Assim que aprender a ler, só há uma coisa em que podes ensiná-la a acreditar, e é em si mesma.

Uma Sociedade, de Virginia Woolf, Penguin, Junho de 2025, tradução de Gonçalo Neves.

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