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Crítica Literária por Miguel Real


O ENIGMA DE VASCO GRAÇA MOURA

2014-02-03

A recente publicação de O Enigma de Zulmira vem confirmar a existência de duas fases distintas na produção romanesca de Vasco Graça Moura (VGM): a primeira, que designaríamos por fase estético-realista, perfaz o arco entre 1987 e 1993 e é constituída pelos seus três primeiros romances, Quatro Últimas Canções (1987), Naufrágio de Sepúlveda (1988) e Partida de Sofonisba às Seis e Doze da Manhã (1993); e a segunda, sobretudo realista, é constituída pelos seus dois últimos romances, Meu Amor, Era de Noite (2001) e O Enigma de Zulmira (2002). É importante registar que nunca lemos A Morte de Ninguém.

Na sua primeira fase, o realismo descritivo e temático (encontros de música no solar de Mateus, esclarecimento da morte de Luís de Montalvor, proprietário da editora Ática, detecção do quadro “As Três Graças” e construção da biografia de Pedro de Andrade Caminha), cultivado em mil pormenores de actualidade social (a rede bombista da extrema-direita a lembrar a descrição camiliana, o deputado novo-rico Araújo a lembrar Eça, os mitos europeus da esquerda festiva da década de 60 e seus comportamentos desafiantes, a feroz crítica à emergência da arte moderna e do modernismo, a rede familiar de relações do Porto e arredores, elementos da vida pessoal de VGM enquanto editor da Imprensa Nacional e enquanto militante do então PPD, ...) é envolvido e elevado pelo autor a um plano de fruição estética, por vezes de carácter diletante, que parece menos dirigir-se ao leitor do que verdadeiramente ao prazer da escrita e da reflexão do autor-narrador. É nesta fase que VGM procura avidamente o seu estilo: no primeiro romance, disparando para todas as direcções, até para o ensaio e para a colagem de textos, tornando o texto no corpo fragmentado de experimentalismos e modernismos, que o cidadão VGM talvez não apreciasse; no segundo romance, atinge páginas memoráveis de expressão escrita de tom psicológico, aparentemente reflexo de uma corrente de consciência, ao modo psicológico de W. James e V. Woolf e ao modo social de Bernardo Carvalho, fixando definitivamente neste romance o seu estilo labiríntico composto de longos parágrafos, múltiplos assuntos flutuantes e circunstanciais, rodeando serpentiferamente o tema principal, complementando e subordinando, complementando e subordinando até atingir o ponto central para que preparara a mente do leitor; em Partida de Sofonisba às Seis e Doze da Manhã, permanecendo o estilo o mesmo, atinge no entanto páginas de intenso paroxismo estético na narração da “Segunda Morte de Pedro de Andrade Caminha”, cap. 18, numa explosiva mistura estilística de Húmus, de R. Brandão, e de O Jogo da Cabra Cega, de Régio, principalmente as páginas 155 a 163, onde o autor ressalta, de um modo tão excessivamente belo que toca a perfeição, tudo o que de maximamente defeituoso é atribuído communis opinio aos portugueses, como se, via P. A. Caminha e Camões, VGM pusesse cada português frente à imagem de si próprio e nesta apenas encontrasse o duplo fantasma aureolante da inveja e do medo. Porém, esta auto-fruição estética da própria escrita, que por vezes é totalmente autofágica, assassinando a lógica da ordem narrativa, é filtrada por uma apuradíssima sensibilidade cultural clássico-erudita que VGM ostensivamente evidencia, esmagando o leitor com referências para as quais nem o este nem o crítico (pelo menos nós) estão preparados. Dê-se como exemplo a descrição da tese de Catarina em Naufrágio de Sepúlveda, pp. 108-115, ou inúmeras interpretações de peças e acordes musicais em Quatro Últimas Canções. Tal tem como significado que, nesta primeira fase, VGM, praticando, em fundo, uma narrativa realista e, em forma, um esteticismo diletante, melómano e literato, vai construindo uma obra de culto, reservado a um grupo de happy fews, tão literariamente iluminados quanto o autor, não conseguindo atingir, em termos sociais, senão o que a crítica literária francesa designa por un succès d`estime. É nesta fase também, principalmente nos seus dois primeiros romances, que VGM se apresenta abertamente contra o espírito do tempo, atacando fortemente os fundamentos culturais da visão do mundo das gerações emergidas para a luta política na década de 60. Tome-se como exemplo a ideia contida na p. 74 de Naufrágio de Sepúlveda, aliás, esta e a página seguinte são igualmente óptimos exemplos do estilo singular do autor: “Eu sempre achei as Demoiselles d’Avignon o quadro mais detestável do século XX”. De facto, nenhum autor hoje, no quadro do romance português, assume tão explicitamente a denúncia dos mitos arqueológicos da esquerda portuguesa que VGM – os cabelos compridos, as sandálias, os colares de missangas, os fatos de bombazina, o desconstrucionismo literário e pictórico, as trocas de parceiros sexuais, a dança contemporânea, toda a arte pós-moderna sem o moderno que a sustente, o iluminismo intelectual a orientar o povo, ... Porém, aqueles entre os críticos e intelectuais que se põem aos saltinhos nos cafés do Bairro Alto, acusando os romances de VGM de “reaccionários”, devem antes ler o que Eduardo Lourenço escreveu sobre Agustina, em 1966, em “A Literatura Desenvolta ou os Filhos de Álvaro Campos “: “o que Agustina mostra importa mais do que ela pensa” (O Canto do Signo, 1993, p. 261). De facto, é este o enigma de VGM: assumidamente conservador no discurso político, é profundamente revolucionário no discurso estético romanesco. A verdade é que poucos romances portugueses poderão ser de imediato chapados de inspiração e realização pós-modernista como os três primeiros romances de VGM; todos os chavões revolucionários do pós-modernismo dos anos 90 alimentam a escrita de VGM: intercepção de tempos históricos, profunda intertextualidade, multiplicidade avulsa de espaços, fragmentação e montagem de discursos e textos de âmbito estético diverso (música, literatura, historiografia, pintura, ...), visão caleidoscópica de situações segundo a perspectiva de cada personagem, e tudo isto não segundo o cultivo do umbigo próprio, mas com profunda implicação social: a decadência das antigas famílias ilustres do Norte, os tiques pérfidos e intriguentos das partilhas, o amoralismo das combinatas e dos casamentos, a rispidez sem decoro das relações de negócios, a ausência de polidez dos arrivistas e videirinhos e o afundamento ético de um Portugal que de geração em geração vai sugando os seus melhores, como o manifesta a longa paráfrase de Naufrágio de Sepúlveda, embora lucidamente amortecida pelo banho de optimismo europeu da última página, coroada de qualificações românticas de esperança. Naufrágio de Sepúlveda é uma daquelas obras de ficção que a esquerda culta à Mega Ferreira gostaria de ter escrito, escavando esteticamente no fundo podre recorrente da história dos Descobrimentos, lavando a alma de Portugal e preparando-o para imageticamente tornar-se o país descomplexado e normal que deve ser no século XXI. Mas a verdade é que a esquerda não o escreveu...

Na segunda fase (repetimos que não lemos Morte de Ninguém), o texto de VGM vai perdendo algo da sua carga referencial erudito-estética, por vezes excessiva, como em Partida de Sofonisba..., deixando sobretudo vir ao de cima a narração realista de episódios da vida portuguesa, continuando a “mostrar”, como em retrato sintético, a radical alteração da estrutura famíliar da alta burguesia e a rotação da escala de valores a ela ligados. Meu Amor, Era de Noite pode ser tomado como exemplo: a mãe separa-se do marido e casa com o irmão deste; a filha Constança, casada com André, passa viver com Mateus; André passa viver em Paris com Eugénia, irmã de Constança... É preciso continuar? Descrever os tiques e os medos de cada uma das personagens espantosamente esventrados pelo narrador? O labirinto de decadência psicológica que dentro de si levantam? Haverá discurso estético mais revolucionário, hoje, do que aquele que “mostra” preto no branco o anoitecer de antigas imagens e costumes que regiam o Portugal até à década de 60, evidenciando igualmente que a alternativa social de esquerda então apresentada é hoje tão crepuscular como a que então combatera? Dizem-nos outra coisa os romances de Lobo Antunes e os três últimos romances de Saramago? Com Meu Amor, Era de Noite adensa-se o enigma de VGM – retórica política conservadora, prática estética revolucionária.

O Enigma de Zulmira, romance para ser lido de uma só vez, constitui-se como uma pequena obra-prima da arte de contar uma história, refinando os diversos componentes do estilo de VGM acima aflorados, agora levados ao primoroso êxtase da técnica de construção de mise-en-abîme através da manipulação de três tempos e sete espaços diferentes e denunciada pelo narrador, por exemplo, na p.38 ou no terceiro parágrafo da p. 51. Lendo O Enigma de Zulmira, romance sobre os meandros da PIDE e da luta clandestina do P. Comunista nos anos 50, de novo nos defrontamos com o enigma de VGM: é este autor, e não Manuel Tiago ou José Casanova, que trazem dois temas até agora tabu para a narração literária da luta política contra o fascismo: o da separação entre sexo e moralidade na clandestinidade (Zulmira e os diversos parceiros, Artur, Esmeraldo, Sidónio), tema sempre pudicamente tratado, e o da relação psicológica estabelecida entre carcereiro e preso numa dialéctica hegeliana entre senhor e escravo, em que o presumível senhor (Esmeraldo) se torna cativo do suposto escravo (Zulmira). De mistura social fabulosamente explosiva, um comunista (Artur), um padre que se torna bon vivant e informador da PIDE (Sidónio), um PIDE (Esmeraldo), outro PIDE que se torna aventureiro em Angola (Meireles), dois intelectuais hesitantemente pós-modernistas que querem realizar o filme da própria história narrada (Belmiro e o argumentista), oratórios beatos em Coimbra, senhoras do Movimento Nacional Feminino, bordéis de Lisboa dos anos 50 e paisagem social da capital na década de 90,todos os cruzamentos psicológicos e sociais inter-personagens se conjugam para o desvelamento do papel de espia internacional de Zulmira, presumível alter ego ficcional de uma então militante do Partido Comunista. Tanto pelo primoroso apuramento da construção narrativa quanto pelo conteúdo histórico-social da intriga descrita, O Enigma de Zulmira surge-nos como o melhor romance desta segunda fase de VGM, a par com Naufrágio de Sepúlveda da primeira fase.


Vasco Graça Moura,
O Enigma de Zulmira,
Quetzal Editores, 12 euros.


1 de Novembro de 2002.

Miguel Real.

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