A Opinião de
A Ilha e os Demónios
2026-04-08Assustada, viu, como a luz de um relâmpago, aquilo que os pais carinhosos, os bons professores e as amigas ternas nos ocultam sempre: a grande e desolada solidão em que se move o homem. Fechou os olhos como se algo estivesse realmente a feri-los. Depois, voltou para casa, séria. Tornou concretos os seus pensamentos na frase que repetia sempre a si própria: “Isto é crescer, estou a crescer.”
Oito anos depois da sua celebrada estreia com “Nada”, Carmen Laforet publicou este livro com laivos autobiográficos que é impossível ler sem estabelecer paralelos constantes com o seu antecessor. Ambos são romances de formação, ambos são protagonizados por jovens raparigas órfãs ou praticamente órfãs que querem prosseguir com os estudos, vivendo com parentes que as antagonizam e tentam cortar-lhe as asas, convivendo com casais tóxicos em ambientes que provocam claustrofobia, numa Espanha em plena Guerra Civil ou no período imediatamente a seguir.
De início, os demónios referidos no título parecem ser somente as divindades guanches adoradas pelo povo berbere originário das ilhas Canárias, que servem de base às lendas redigidas pela jovem Marta Camino, que aspira a ser escritora, mas, com o avançar da narrativa, damo-nos conta dos vários demónios que habitam cada uma das personagens de “A Ilha e os Demónios”. Para a mãe de Marta, Teresa, praticamente catatónica, é a perda do marido; para o seu irmão José, é o desejo de dar provas a quem o humilhou e a ânsia de ficar com a quinta da família; para a sua cunhada, são os ciúmes doentios; para a fiel criada da casa, os bruxedos que tem fama de lançar por vingança. Quando chegam à ilha os parentes de Madrid e um amigo pintor, fugidos da guerra civil, conhecemos uma nova espécie de demónios: a luxúria, a soberba, a resignação, o cinismo.
Marta, com apenas 16 anos, conhece apenas o afecto das amigas desde que o avô morreu…
Marta não concebia a vida sem consultar o seu grupo de amigas a respeito das suas preocupações. Sentia-se muito mais ligada a elas do que à sua família. […] Também se sentiam unidas e metidas numa espécie de círculo mágico a partir do qual viam a vida de uma forma diferente das outras pessoas.
…pelo que busca instintivamente agradar a toda a gente, depositando nos outros toda a fé que a sua inocência lhe permite, sendo constantemente rechaçada sem perceber porquê.
Muitas vezes, enquanto crescia, pensara que estaria mais próxima dela se Teresa tivesse realmente morrido. Então, ter-lhe-ia falado de uma grande solidão, tal como falava com o seu pai e com os autores, e até com as personagens dos seus livros favoritos.
O dom desta obra é dar-nos a perspectiva da rapariga durante os dois primeiros terços para, no final, a confrontarmos com a vivência das personagens com quem ela entra em conflito, percebendo, deste modo, as suas motivações e o peso da sua bagagem, aplacando um pouco o repúdio do leitor.
Olha, vou dizer-te porque é que não quero ler as tuas coisas. Não sei se tens talento ou não. O mais provável será não teres; mas, ao fim e ao cabo, é a mesma coisa… Repugna-me ver-te todo o dia sem fazeres nada a não ser pensar em ti própria. […] Muitos dos meus melhores amigos morreram, outros estão a passar fome, outros no desterro. Queres que fique extasiada perante uma adolescente cheia de problemas falsos e literários?
Apesar de se terem passado apenas alguns meses, a Marta que encontramos nas últimas páginas, exposta aos demónios dos outros e com mais maturidade para lidar com os seus, já não é e já não se sente a mesma.
Ali, junto à janela, ouvia o murmúrio de todas as mulheres como água que corre distante: um zumbido surdo do qual ela prescindia. Imóvel como uma estátua… Não voltaria a ser a criatura cega e feliz de antes, depois de ter sido mordida pelos demónios.
A Ilha e os Demónios, de Carmen Laforet, Cavalo de Ferro, Setembro de 2025, Tradução de Virgílio T. Viseu e Sofia Castro Rodrigues
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