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A Opinião de Paula Mota


A Correspondente

2026-05-03

Passei o resto da tarde a rever algumas das cartas que guardei. São centenas, aliás, imagino que cheguem aos milhares, e de pensar que cada uma delas tem um par algures, nem que seja no meio do lixo.

No final do ano passado, vi uma notícia que me deixou boquiaberta: depois de 400 anos, o serviço postal público dinamarquês iria deixar de entregar cartas, visto que essa forma de correspondência se tornou rara e obsoleta. Eu, que tive correspondentes nacionais e internacionais durante a adolescência, que me pelava por receber cartas da minha mãe e das minhas amigas durante as longas férias de Verão numa vila do interior, onde o telefone disponível era, precisamente, no posto dos correios, tive uma pequena crise existencial e literária. É, no entanto, a questão literária que interessa num espaço de partilha de leituras. Toda a troca de correspondência - entre escritores ou entre escritores e pessoas das suas relações - que foi editada em livro, que tantos leitores prezam e coleccionam, vai deixar de existir ou começou a tornar-se inviável já nos últimos anos, porque a troca de missivas e mensagens deixou de ter suporte físico. Quem vai imprimir e-mails e guardá-los em gavetas e baús como terão provavelmente feito os escritores até aqui? E as mensagens de SMS e de WhatsApp que irão todas desaparecer no éter sem deixar rasto?

As cartas todas que mandamos, e as que recebemos em resposta, são como as peças de um puzzle fantástico, ou uma metáfora melhor, ainda que datada, os elos de uma longa corrente; e mesmo que esses elos nunca voltem a ser ligados, e é quase certo que não voltarão a ser, mesmo que permaneçam espalhados pelo planeta até ao fim dos tempos […], não há também nisso algo de maravilhoso, na ideia de que a história da nossa vida está preservada de alguma forma, de que até esta carta pode um dia vir a significar algo, mesmo que não seja muito para alguém?

Abarcando uma década de cartas e já alguns e-mails, o que alia a paixão e teimosia de uma mulher de idade aos sinais dos tempos, “A Correspondente” é um romance epistolar perfeito na sua concepção e bastante eficaz na manipulação emocional do leitor, o que neste caso não é um defeito, é a natureza do bicho.

Virginia Evans é uma escritora competente que consegue um verdadeiro passe de magia ao organizar as cartas que a septuagenária Sybil escreve religiosamente à sua melhor amiga, aos filhos, ao irmão, aos autores dos livros que lê e ao filho de um amigo, de forma a contar a história da sua vida sem parecer forçado nem fazer do leitor um tontinho, provando que aprendeu uma coisa ou duas no programa de mestrado de escrita criativa ministrado, entre outros, por Claire Keegan.

Sybil Van Antwerp, reformada depois de uma intensa vida profissional na área da advocacia, é uma mulher metediça e rabugenta, com um carácter adstringente e opinião formada sobre tudo, cujas atitudes só compreendemos em grande parte na derradeira carta, pelo que viramos as páginas com a mesma antecipação com que, em tempos se aguardava a passagem do carteiro, numa edição portuguesa irrepreensivelmente traduzida.

Quando era pequena, descobri que escrever cartas me dava uma estrutura que tornava a vida mais fácil, e isso nunca mudou. Contudo, pergunto-me se, ao ter tido as relações mais íntimas da minha vida, por correspondência, me terei, desde criança, afastado dos outros. Acho que é verdade que as cartas me isolaram como um campo de forças, tal como o exercício do direito me isolou do contacto direto das ações humanas, e eu não mudava isso se pudesse, mas agora dou por mim, com esta idade a querer proximidade.

A Correspondente, de Virginia Evans, Casa das Letras, Janeiro de 2026, tradução de Sebastião Sousa

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