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A Opinião de Paula Mota


O Sentido da Náusea

2025-11-01

Os seus espasmos vinham sozinhos, voluntariosos, como se regressassem a casa. Eu não precisava de enfiar os dedos na garganta, porque vomitava com a cabeça, não com o estômago. Um vómito inteligente.

Michela Murgia foi uma escritora muito completa e audaciosa, intensa no romance (“Acabadora”), frontal na não-ficção (“Ave Mary”) e, com a leitura de “O Sentido da Náusea”, comprovo a sua lucidez e capacidade de empatia nos contos. Digo “foi” porque Murgia morreu em 2023 devido a um carcinoma renal, tendo concluído o seu derradeiro livro, publicado postumamente, três dias antes da sua morte. Mesmo com a sentença de morte já passada, a autora e activista não deixou de provar que era uma mulher de fibra em relação não só à doença, mas também ao panorama político no seu país.

«A escritora disse ainda que "a guerra pressupõe perdedores e vencedores" e, como já sabe o final da história, não se sente uma perdedora. "Tanto faz se não me sobrar muito tempo: o importante para mim agora é não morrer fascista", declara Murgia, que se define como de esquerda. Por fim, a italiana enfatizou que não tem medo da morte, mas espera morrer somente quando Giorgia Meloni deixar de ser a primeira-ministra da Itália, porque o seu governo é fascista.»

Fiquei ainda mais impressionada com a força de Murgia quando percebi o carácter autobiográfico do primeiro conto, “Expressão Intraduzível”, onde introduziu a sua experiência com um tratamento de imunoterapia, bem como a visão que assumiu publicamente de o cancro ser uma parte de si e não um inimigo a combater.

A culpa era do médico, obviamente. As palavras que aquele homem tinha usado alteravam o cenário simbólico e obrigavam-na a mover-se em direção a um objetivo que não lhe era familiar: o pacto de não-beligerância. O que devia ser um adversário a destruir acabara de lhe ser descrito com um cúmplice da sua complexidade, uma parte desorientada do seu corpo sofisticado, um curto-circuito do sistema em evolução, nada mais do que um companheiro a enganar-se. Não estava habituada a perder com as palavras. Qualquer batalha que tivesse imaginado travar contra a doença soava agora como um projeto de autodestruição. Não tinha forças nem vontade de entrar em guerra consigo mesma.

Ao abdicar-se na versão portuguesa do título original deste conjunto de histórias,"Tre Ciotole, Rituali per un anno di crisi", perde-se o fio condutor das mesmas, pois o que as une é a ideia de se chegar a um limite ou um ponto de viragem devido a alguma situação trágica ou de tensão, como a pandemia, a morte, uma amizade tóxica, o fim de um relacionamento ou a síndrome do ninho vazio.

Tens de compreendê-lo, disseram-me, está desorientado, já não te reconhece, estás sempre nervosa, descarregas nele. Toma as gotas para a menopausa e aproxima-te dele, coitadinho, já fez tanto. Esse “tanto” deve ser ele ter casado comigo embora eu já tivesse um filho, e é por essa graça, imagino, que o facto de eu estar em sofrimento só importa porque o faz sofrer a ele. Não dou ouvidos a estas tolices. Elas que tomem as gotas, que façam terapia para processar as emoções, que se inscrevam no ioga ou em cursos de iquebana, que marquem sessões de acupuntura, que se convertam ao budismo, que engulam todos os comprimidos que queiram, nunca as julguei por nenhuma das suas anestesias.

- Boneco Animado –

Além destas crises pessoais que afectam os protagonistas, Murgia ainda consegue unir alguns dos contos com participações especiais de algumas personagens em enredos alheios, sendo isso evidente e muito bem conseguido na dupla “O Sentido da Náusea/Recalcular a Rota”, em que, primeiro, conhecemos uma mulher que perde peso a olhos vistos porque desde que o namorado a deixou ganhou aversão à comida…

Continuei a aprender com o vómito e as suas razões. Por exemplo, aprendi que as coisas que não se podem esconder não são três, mas quatro: um espirro, a beleza, a pobreza e o facto de que alguém é um merdas.

…e, em seguida, lemos a perspectiva do “merdas”, que pede a um amigo que lhe faça um mapa para poder navegar na cidade sem o risco constrangedor de poder reencontrá-la.

Estava certo de a ter deixado porque já não a amava, mas amara-a o suficiente para compreender que as recordações são mais persistentes do que as pessoas. A verdadeira armadilha era a memória, não o amor. Havia lugares a que não ia só porque aí se lembrava de a ter lembrado.

O Sentido da Náusea, de Michela Murgia, Elsinore, Junho de 2025, tradução de Ana Cláudia Santos

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