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Críticas ao livro " "

Fonte: Profa. M. A . Jane Cristina Duarte dos Santos

Ao observar o livro Autópsia de um Mar de Ruínas pela primeira vez, duas características chamam a atenção: a primeira é a camuflagem que dá cor ao livro; e a segunda, o próprio título. Por que João de Melo teria escolhido um título tão metafórico? O que será que ele quis dizer com as palavras autópsia, mar e ruínas?
Por se tratar de um romance que retrata a guerra colonial em Angola, a camuflagem já faz com que o leitor tenha uma noção do enredo sem mesmo abrir o livro. Mas, a segunda característica é mais interessante e curiosa. Autópsia, segundo Aurélio Buarque de Holanda, é "um exame médico das diversas partes de um cadáver"; e ruínas, "aniquilamento, destruição". Mas seria só isso, "exame detalhado feito em um mar de destruições"?
A sociedade contemporânea presencia um mundo caracterizado pela agressividade e pela violência.
Para Lukács, esse mundo petrificado evoca um universo reduzido a escombros; ou seja, um mundo vazio da convenção, sem razão e sem esperanças (Teoria do Romance) (cf. 135, p.47). Que esperança poderia ter uma criança, em plena guerra, vendo todos ao seu redor morrerem de fome, serem espancados, fuzilados, aniquilados e humilhados? "_ Se você queres ir foder na minha mãe, nosso furrié, vem então, que está te esperar ainda. Cinqüenta escudos, é só." (p.89). O desespero era tanto que esta mesma criança chega a se vender: "_ Nosso furrié, ouve ainda: se num queres mesmo ir na minha mãe, eu vou então te fazer punheta, vinte e cinco tostões meu preço." (p.89). João de Melo, aos poucos, vai mostrando detalhadamente (como uma autópsia) a realidade contemporânea: um verdadeiro Mar de Ruínas; uma realidade que não só aconteceu e acontece em Angola, mas também, no mundo inteiro. O autor, através do romance, desmitifica uma visão idealizada do mundo, ou seja, devota a fins nobres e desinteressados. O homem idealista é aquele perdido em sonhos, que não se dá conta das realidades concretas; mesmo estas estando tão próximas. O Brasil está vivendo (ou, preferindo, sempre viveu) uma guerra civil. Um exemplo mais atual para issoé a violência contra o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra. Esse acontecimento é um grande exemplo de arbitrariedade e terror. Grande parte da população brasileira, porém, acredita que isso não poderia ser considerado uma guerra civil, posto que se informam por rádios e telejornais que na maioria das vezes só relatam o que interessa às autoridades. Dessa forma, os homens são ingenuamente realistas, isto é, acreditam muito simplesmente na existência das coisas exatamente como as percebem. Como diz Karl Marx: "Não é a consciência dos homens que determina sua existência, mas sua existência social que determina sua consciência".
Um dos narradores (o autor dá preferência pelo narrador móvel) do romance é o soldado Renato que presencia e vive o drama de uma guerra colonial: "Ela, a guerra, envolvera-me todo, presente e ausente, imprecisa e concreta, pois se torna impossível definir os contornos da paisagem surda que ardia à minha volta. Corpos em tocha e outros vultos irreais continuavam a sair do capim, mas só os últimos traziam a catana na mão para decapitar as vítimas. Por isso, devo ter morrido bastante depois, uma vez que pude assistir às eutanásias e ouvir os gemidos desconhecidos" (p. 247). Como diz Clarice Lispector / Rodrigo S.M. no romance A Hora da estrela: "Pensar é um ato. Sentir é um fato. [...] A verdade é sempre um contato interior e inexplicável" (p. 11). A cada instante, Renato pressentia a morte: "Sei que estou perfeitamente morto, pelo menos tanto quanto o possa estar um homem vencido pelas armas da guerra" (p. 11). João de Melo cita este monólogo antes de iniciar o primeiro capítulo do romance. Provavelmente, o autor já estivesse preparando os leitores para a realidade que será relatada, mostrando que também é preciso coragem para morrer e silêncio para ouvir o grito da vida.
Outra personagem que se comovia ao ver a realidade cruel e absurda daquela guerra era o furriel enfermeiro. Este era um dos poucos brancos que tratava os negros como humanos: "Falou quem? Coração da gente pela boca dele? Não foi, não. Se via até que nesse furrié fremeiro havia um homem branco com o coração escondido na escuridão; se via que os pobres como nós podia ter também ali
uma forma de falar as desgraças do nosso mundo, a fome muita de nossas crianças e dos velhos e a vontade grande de nós, as mulheres, chorar só de ouvir um branco levantar sozinho a nossa coragem." (p. 55). Tanto ele quanto Renato são exemplos de identificação com a realidade; de homens realistas que vêem o Mar de Ruínas de forma consciente e não idealizada. A figura do Mar, presente em grande parte dos monólogos do soldado Renato, também é de suma importância e um pouco complexa; visto que Mar, na simbologia, representa imagem da vida e da morte. Representando a vida, este mar trazia boas recordações; era um momento efêmero de felicidade. Como diz Gilda Salem: "O universo reduzido a escombros não é apenas o emblema da mortalidade, mas também a 'alegria da ressurreição'".(p. 113); ou seja, mesmo durante aquele terror de genocídios, ressurgia a figura da família, dos entes queridos que dava aos militares portugueses uma certa "paz de espírito" momentânea. "Pensava de novo nos pássaros da sua infância na voz longínqua do mar do seu destino" (p. 127).
O capítulo 11 é um dos momentos de maior êxtase do romance, principalmente para os militares portugueses que se defrontam com a verdadeira Autópsia de um Mar de Ruínas. É nesse momento que há um entrelaçamento entre o mar que representa a vida e o mar que representa a morte. Através de monólogos dos narradores, os leitores são levados à fronteira do que até então era temido, mas ainda não estava tão concretizado: "Experimentava eu a sensação de um estômago apodrecido, quando o furriel Borges reapareceu da névoa, como se emergisse do fundo de um mar de ruínas. Era um homem ainda maior do que o deus da morte e o seu rosto tinha sido atacado pela paralisia do horror. Pairava nele uma espécie de paisagem naufragada do mar." (p. 115). João de Melo começa a usar com mais
intensidade vocábulos relacionados ao ponto fulcral do capítulo: o Mar de Ruínas. Eram olhos que "navegavam"; "náufragos" por toda parte, "cor de naufrágio", entre outros. Mas, este Mar de Ruínas, como foi visto anteriormente, não foi apenas uma realidade de Angola naquela época; é, também, uma realidade mundial na atualidade. Os negros continuam sendo discriminados, pessoas continuam morrendo sem saber o porquê, crianças continuam sendo maltratadas, abandonadas e ignoradas; exatamente como João de Melo denunciou em seu romance: "Já se disse tudo, mas como ninguém ouve, é sempre necessário recomeçar" (p. 9). Vive-se um "estado de emergência e de calamidade pública" como já dizia Clarice Lispector, ainda na década de 70, em seu romance. É a necessidade de escrever sobre algo que incomoda e que faz com que a sociedade fuja. Cabe a esta refletir, pois é através da reflexão, entremeada com o silêncio, que se chega a consciência.
O homem não é apenas um efeito da natureza material, mas é também uma causa que reage sobre o mundo de que se originou. É justamente porque ele próprio é um produto do universo é que o homem pode transformar esse universo. Dessa forma, pode-se ver a realidade com uma visão mais otimista, fazendo das palavras de João de Melo uma filosofia de vida: "Queria somente dizer que, mesmo
escrevendo sobre a guerra, proponho-me ajudar a construir a consciência da paz; e que, ao escrever sobre a morte, estimo amar melhor a vida." (p. 9).

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