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Poema e Poesia de Antero de Quental

Alma
Antero de Quental

Espiritualismo



Como um vento de morte e de ruína, 
A Dúvida soprou sobre o Universo. 
Fez-se noite de súbito, imerso 
O mundo em densa e algida neblina. 

Nem astro já reluz, nem ave trina, 
Nem flor sorri no seu aéreo berço. 
Um veneno subtil, vago, disperso, 
Empeçonhou a criação divina. 

E, no meio da noite monstruosa, 
Do silêncio glacial, que paira e estende 
O seu sudário, d'onde a morte pende, 

Só uma flor humilde, misteriosa, 
Como um vago protesto da existência, 
Desabroxa no fundo da Consciência. 

II 

Dorme entre os gelos, flor imaculada! 
Luta, pedindo um ultimo clarão 
Aos sóis que ruem pela imensidão, 
Arrastando uma auréola apagada... 

Em vão! Do abismo a boca escancarada 
Chama por ti na gélida amplidão... 
Sobe do poço eterno, em turbilhão, 
A treva primitiva conglobada... 

Tu morrerás também. Um ai supremo, 
Na noite universal que envolve o mundo, 
Ha-de ecoar, e teu perfume extremo 

No vácuo eterno se esvairá disperso, 
Como o alento final d'um moribundo, 
Como o último suspiro do Universo. 

Antero de Quental, in "Sonetos"

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