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Crítica Literária por Miguel Real


BAPTISTA-BASTOS - REVOLTA E DENÚNCIA

2014-02-18

Autor de vários romances admiráveis, dos quais destacamos Colina de Cristal (1987), Viagem de um Pai e um Filho pelas Ruas da Amargura (1991) e O Cavalo a Tinta da China (1995), Baptista-Bastos considera a prática do jornalismo como um dos mais altos graus da literatura, uma literatura em carne viva, nascida do confronto com a realidade quotidiana, espelhadora dos grandes movimentos colectivos. Não haveria, assim, para este autor, uma separação estética radical, hoje, entre literatura e jornalismo. Este deveria ser praticado com o mesmo fervor artístico e a mesma ambição de moldagem estética da frase por que o romance e a poesia são criados. Provinda da escola realista americana (J. dos Passos, J. Steinbeck, E. Hemingway...),cruzada com a atmosfera neo-realista portuguesa, a prosa de Baptista-Bastos perfez, na segunda metade do século XX, na continuação, aliás, da de José Rodrigues-Miguéis para a primeira metade do século, um dos mais singulares retratos literários de Lisboa, evidenciando os seus sonhos de modernização e as suas esperanças de igualitarização. Em Um Homem Parado no Inverno (1991), Baptista-Bastos inicia, de certo modo, a denúncia do falhanço colectivo dos sonhos da geração criadora da democracia, de que as crónicas ora publicadas em Tempo de Combate são igualmente continuação e expressão, evidenciando um enormíssimo poder de revolta e denúncia contra uma sociedade abastardada nos seus antigos ideais e profundamente dissoluta nos seus valores morais.

Baptista-Bastos é homem de uma só palavra e fiel aos seus sonhos igualitaristas e populares de juventude. O Portugal de hoje, dominado por elites económicas e financeiras desprovidas de sentido de justiça social, não é o dele. Podia calar-se, resignar-se e ajustar-se. Mas não. A sua voz semanal no "Diário de Notícias" e no "Jornal de Negócios" é das poucas que resiste ao jogo dominante de interesses económicos por que Portugal é actualmente governado. Mescladas de revolta pessoal e de denúncia social, as suas colunas semanais constituem, de facto, um vento de ar fresco na pobre prosa portuguesa hoje escrita nos jornais e um autêntico libelo contra o poder instituído sobre mentiras políticas e falsidades ideológicas.

Neste sentido, Tempo de Combate pode sintetizar-se como:

1. - Denúncia da exploração das artimanhas ("trafulhices") por que os possidónios chegados ao poder atam invisível e sordidamente os fios das instituições do Estado, mantendo-se neste duradouramente a si e aos seus apaniguados;

2. - Denúncia da opressão sem disfarces por que os poderosos matraqueiam a vida dos mais humildes, humilhando-os, condenando-os a uma pobreza vitalícia;

3. - Denúncia da dissolução de valores tradicionais de Portugal e até da Europa, de que a própria Igreja Católica é conivente (cf. crónica sobre o Cardeal D. Policarpo), em nome de um pragmatismo e um utilitarismo sempre conveniente com a acumulação de riqueza, destruindo os mais lídimos sonhos políticos igualitários do Liberalismo Constitucional e da I República, que o regime democrático do 25 de Abril de 1974 ousara concretizar.

Paulo Portas, Passos Coelho e Cavaco e Silva, homens incultos, aparentemente sedentos de poder e manipuladores da opinião pública, constituem, devido à sua relevância política, a tríada privilegiada do ataque (ou do "combate") de Baptista-Bastos, que, verdadeiramente, não os poupa, firmando-lhes o retrato negativo por que entrarão na pequena história, um pouco como hoje os historiadores firmam o retrato histórico de Luciano de Castro e Hintze Ribeiro.

Concertada num estilo realista, muito fortemente centrada em paralelismos e antíteses, a prosa do autor é dotada de um grande poder visual e de um amplo leque vocabular de palavras abstractas, não a sujeitando a populismo demagógicos. Assim, Tempo de Combate é dominado, devido às suas denúncias políticas, por uma sorte de lirismo modelar, reivindicando para o todo da sociedade a igualdade e a justiça como as duas colunas maiores da paz, da prosperidade e da convivência sociais.

Um livro que retempera a nossa revolta e anima a nossa fé na razão do combate contra um poder opressor e injusto.


Tempo de Combate,

Parsifal, 207 pp., 14,50 euros.

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