A Opinião de Paula Mota
Viver com Homens
2026-10-05Ler este livro foi como arrancar um penso: comecei devagarinho, mas percebi que tinha de ser puxado de repelão e, nessa altura, previsivelmente, desviei o olhar.
“Como escrevemos sobre o trauma sem traumatizar o leitor? Como escrevemos sobre trauma sem nos traumatizarmos de novo?”. Vêm-me à mente as perguntas da autora norte-americana Roxane Gay, também ela vítima de violação, quando penso neste competentíssimo trabalho de Manon Garcia sobre o caso Pelicot vs Pelicot, para o qual assistiu a todo o julgamento, ouvindo os advogados de defesa e de acusação de 50 arguidos, assistindo à projecção dos vídeos que Dominique Pelicot gravou durante 10 anos da sua mulher, de início com 57 anos, sedada e a ser violada por cerca de 60 homens, alguns repetidamente, tendo de digerir tudo isso e, depois, escrever “Viver com Homens” interrogando-se:
É possível viver com os homens? A que preço?
Nunca me ouvirão dizer que um livro devia ser obrigatório, porque “leitura obrigatória” é, à partida, um castigo, mas julgo que este em particular devia ser lido por toda a gente, sobretudo pelos homens bons que sabem que as mulheres não vieram ao mundo para os servir nos diferentes domínios e pelas más mulheres que ainda caem na falácia patriarcal de acusar outras de se “porem a jeito” por não lhes agradar a sua liberdade ou a sua conduta.
A filósofa Ann Cahill escreveu que a experiência das mulheres é uma experiência de pré-vítima. Sendo verdade que os homens, as crianças, as mulheres, todos podem ser violados, saber e ver-se como violável de um momento para o outro é uma experiência específica da feminilidade. As raparigas e as mulheres são criadas com a ideia de que a ameaça está sempre lá, que têm de se adaptar, não podem andar sozinhas na rua, não podem ser demasiado sexy, têm de andar depressa, baixar os olhos, curvar o peito, não sorrir. Ter cuidado com o número de copos que bebem quando saem, não deixar sozinha a amiga alcoolizada, verificar a matrícula do Uber.
Que a violação sempre foi uma questão de mentalidade e de exercício de domínio serve de sustentáculo a toda a exposição de Manon Garcia, uma pensadora especializada em filosofia política, moral e feminista, ou seja, os três campos dos quais se pode partir para encarar este crime cometido contra uma “vítima perfeita” (como diria Mohammed El-Kurd): uma mulher de meia-idade, de classe média-alta, composta, serena, bem-falante, recebida todas as manhãs no tribunal com uma ovação.
Tratando-se da cobertura de um julgamento (à porta aberta, respeitando a vontade de Gisèle), interessaram-me especialmente dois momentos, o do estabelecimento de culpa e o da punição. Assim, foi determinante deixar desde logo provado que em nenhum dos atos de agressão sexual houve consentimento, um termo desconhecido da grande maioria dos acusados.
A defesa dos arguidos passa por alegar que não sabiam que precisavam de ter o consentimento de Gisèle Pelicot ou que pensavam que o consentimento de Dominique Pelicot seria suficiente.
No que toca à punição, o mais chocante para mim nem foram as penas leves dado o enquadramento legal (15 anos no máximo), já que tudo serviu de justificação para os crimes cometidos (baixo QI, abusos sexuais durante a infância nuns, falta de sexo em casa devido a uma gravidez e pós-parto complicados para outro), mas antes as afirmações de alguns advogados, a apelar a uma impunidade total dos seus clientes, “tudo bons rapazes”.
Uma constante na defesa destes homens – acreditada até por um dos peritos psiquiátricos, o Dr. Darbourg, que explica numa audiência que nenhum dos sete arguidos que entrevistou é um “abusador sexual” – é que eles não são violadores. Sem dúvida, cometeram talvez um acto de violação, mas isso não faz deles violadores.
Tal como um homem que roube não é ladrão e outro que mate não é homicida, obviamente. Vivemos na era da pós-verdade em todos os quadrantes. É entre a estupefação, o asco e a indignação que se avança nesta leitura, a qual tem outras ramificações e escalpeliza várias problemáticas do foro sexual, familiar e amoroso provocadas pelo elemento masculino, pelo que é inevitável não se chegar à mesma conclusão que a autora:
Pensei que nos cabia a nós, em parte, perguntar se devemos amar os homens como os amamos, mas começo a pensar que é preciso que os homens amem um pouco as mulheres. Um pouco, um pouco apenas. Que nos amem um pouco para que nós possamos continuar a amá-los.
Viver com Homens, de Manon Garcia, Livros Zigurate, Janeiro de 2025, tradução de Isabel Castro Silva
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