A Opinião de Paula Mota
Vida, Velhice e Morte de uma Mulher do Povo
2026-07-14Didier Eribon é um conceituado intelectual conhecido por ter escrito “Regresso a Reims” em 2009, após a morte do seu pai, para reflectir sobre as suas origens num meio proletário de esquerda que, mais recentemente, começara a votar na extrema-direita. Mais de uma década depois, regressou à zona de Reims, mais propriamente a Fismes, onde a mãe de 87 anos foi institucionalizada num lar por motivos de saúde. Para grande consternação de Eribon, em poucos meses, o estado da sua mãe agravou-se e, antes que ele conseguisse voltar a visitá-la, faleceu.
A minha mãe não suportou a vida diminuída que era a sua. De que lhe servia continuar? Manter-se viva? Se era para ser prisioneira num quarto, sozinha, presa à sua cama, sem nunca mais se poder levantar, caminhar, deslocar-se? […] As poucas forças que lhe restavam abandonaram-na, ou, melhor dizendo, ela abandonou voluntariamente as escassas forças que ainda tinha. Escolheu deixar-se morrer.
“Vida, Velhice e Morte de uma Mulher do Povo” aborda todas as questões morais e práticas de se internar um progenitor num lar, a dificuldade de colocar todos os filhos de acordo, de encontrar um lugar decente consoante as possibilidades monetárias da família, a resistência do idoso perante o isolamento e a perda de autonomia. Já devo ter confessado algures o meu desdém por treinadores de bancada: se não têm pais, se não têm filhos, se não têm companheiros, ou se os têm e acham que convosco vai ser diferente, que são melhores pessoas, óptimo, mas ouçam mais e julguem menos, talvez aprendam qualquer coisa. Apesar do sentimento de culpa de Eribon, sobretudo por não ter visitado a mãe tantas vezes como acha que devia, tanto em casa como no lar, não me parece que o intuito desta obra seja levar o leitor a condená-lo ou desculpá-lo, mas antes levá-lo a ponderar sobre a forma como marginalizamos os idosos como um todo, se isso é inevitável ou se a sociedade moderna ainda está a tempo de repensar a situação e não os relegar para o papel de meros figurantes.
Todos os aspectos da sua vida eram escrutinados, vigiados, controlados, tudo era decidido sem que a consultassem. A minha mãe perdera não apenas a sua autonomia, mas também a sua liberdade, e até o seu estatuto de pessoa. É mesmo assim: a despersonalização leva a que uma pessoa idosa deixe de ser uma pessoa.
Há também um certo snobismo no discurso de Eribon e um repisar no movimento de trânsfuga social que nem sempre caiu bem comigo, ainda que compreenda o confronto e o desconforto de ter pais que não vêem o mundo como nós. Relevante é também a constatação de orfandade a que não fiquei imune, lembrando-me o momento em que eu mesma percebi que nunca mais seria chamada de filha.
No fundo, é simples, houve qualquer coisa que mudou na minha vida, na minha identidade, na definição de mim mesmo: eu era um filho e já não sou. Quando ela estava viva, por muitos espaçados e intermitentes que fossem os nossos encontros e, no fundo, por pouco que me tenha esforçado no meu papel de filho ao longo da vida (é preciso dizer: já não queria ser um filho, isso era um peso para mim), nunca deixei de ser um filho.
Tal como Édouard Louis, Eribon deixou o meio da sua infância para trás, afastando-se tanto física como socialmente dele, através não só da deslocação para Paris, mas também dos estudos e das profissões liberais que exercem, cortando com as origens proletárias que os pais e os irmãos nunca conseguiram abandonar, ainda que a sua abordagem me pareça mais racional e menos visceral do que a do seu protegido.
Tenho a perfeita consciência, hoje, que foi ao mesmo tempo contra ela e graças a ela que me tornei o que sou. E, no meu espírito, o “contra ela” sobrepôs-se durante muito tempo ao “graças a ela”. Envergonho-me evidentemente, e há muito tempo, do meu egoísmo e ingratidão. Lamento a tristeza que esse egoísmo e essa ingratidão lhe provocaram.
Vida, Velhice e Morte de uma Mulher do Povo, de Didier Eribon, Livros Zigurate, Outubro de 2025, tradução de Carlos Vaz Marques
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